7 de setembro em Portugal

Após a Festa do Avante e o feriado de 7 de setembro, passado em Portugal, o Poeta nos enviou a crônica:

 

O 7 de setembro de 2020 caiu numa segunda-feira. No fim de semana que o precedeu, houve a Festa do Avante, do Partido Comunista Português (PCP), um evento muito bem-sucedido, que confirmou a sua força política, a sua capacidade de organização e a disciplina extraordinária dos seus quadros, para além de lúcidas propostas para Portugal. Mais de 30 delegações estrangeiras, incluindo a do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) participaram do encontro de amizade, alegria, solidariedade, cultura e tranquilidade. Presentes também estiveram delegações do Partido dos Trabalhadores (PT) e do Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MTST). O Portal Vermelho do PCdoB e a televisão brasileira 247 cobriram o evento, da mesma maneira que a imprensa portuguesa.

Famílias inteiras disseram presente para usufruir das inúmeras atividades saudáveis para as crianças e jovens. Juntos, os participantes celebraram o humanismo, a decência, a tolerância e a democracia. Todas as severas medidas sanitárias, de conformidade com as exigências do governo português, foram rigorosamente tomadas. Os debates foram ricos, proveitosos e estimulantes para a luta pelos melhores valores humanos e sociais.

Fazia muito calor naquele dia em Portugal. No amplo espaço de 30 hectares, foi erguido um enorme auditório ao ar livre, utilizando cadeiras a respeitar o distanciamento de 2 metros. Ali foi encerrado o evento no domingo, dia 6 de setembro, com um comício, que contou com discursos do secretário geral do PCP, Jerónimo de Souza, e do diretor do jornal Avante, Manuel Rodrigues, casado por sinal com uma brasileira. No evento, ecoavam repetidamente as palavras de ordem “aqui se vê a força do PC”. Na área internacional, foram realizados dois seminários, um sobre a situação global e a luta dos povos e outro sobre a América Latina. O PCdoB se fez representar em ambos, com pronunciamentos muito bem recebidos, cujos textos respectivos foram disponibilizados para publicação.

O espaço da Festa Avante foi também ocupado por pavilhões das diversas regiões de Portugal, que contavam com restaurantes a servir comidas e bebidas típicas. Esses realizavam também diversas atividades culturais e vendiam alguns produtos característicos. Fazia um calor infernal de 35 graus centígrados. Alguns participantes não resistiram às águas frescas e tentadoras do lago azulejado. Pais entravam na piscina infantil com suas filhas e filhos. Realizou-se no recinto uma feira do livro, com uma ampla oferta de obras de alta qualidade, inclusive de literatura infantil. Chamou-me a atenção a biografia de Aristides de Souza Mendes para crianças. O pavilhão do PCdoB vendia refrescantes e deliciosas caipirinhas com muito gelo, o que proporcionou muito sucesso de público.

A liderança do PCP apresentou propostas lúcidas para a gestão econômica de Portugal, de maneira a neutralizar a influência daninha da pandemia do COVID-19 na vida dos cidadãos, bem como para promover o reerguimento da atividade industrial, agrícola e de serviços. Essa ação tem foco na agricultura familiar e nos micros, pequenos e médios empresários, bem como em vigorosa defesa dos serviços públicos. A assistência aos aposentados e carentes resta assegurada. O Partido também comunicou que irá lançar um candidato próprio nas próximas eleições presidenciais portuguesas.

Após a alegria, o entusiasmo e a esperança trazida pela Festa do Avante, fui confrontado com a dura realidade dos dias atuais no Brasil. É de causar profunda estupefação e grande perplexidade, além de justificada revolta ver, em pleno dia 7 de setembro, o Tenebroso Melífluo desfilar, com o semblante de boi sonso que fielmente retrata sua aguda indigência mental, portanto as bandeiras de Israel e dos Estados Unidos da América. No dia da proclamação da Independência do Brasil! Mais do que um disparate: um criminoso horror! Eleito por uma fraude, o nauseabundo e abominável Monstro governa fraudando a Constituição.

Felizmente, no mesmo dia, o presidente Lula fez um pronunciamento de estadista, conclamando o País à necessária reconstrução com um novo contrato social liderado pelos trabalhadores, afastadas as elites que estiveram aliadas aos seus governos no passado e que foram responsáveis pelo impedimento de Dilma Rousseff. Lula colocou-se à disposição do povo brasileiro para tal missão, mas sua eventual candidatura terá que suplantar vários obstáculos jurídicos colocados artificialmente em seu caminho. Realmente, o Brasil terá que ser reconstruído após a destruição promovida pelo Manhoso Tinhoso, instrumento do capital financeiro e do capitalismo evangélico, com a assessoria de elementos das forças armadas desgarrados de sua missão constitucional.

Registrados estes últimos acontecimentos e meus sentimentos a respeito, pude me aprontar de maneira a, amanhã logo ao despertar, pelas 14:00 horas, me dirigir ao meu templo gastronômico favorito da culinária portuguesa, a formidável Taberna dos Sabores. O meu confesso objetivo é o de me deliciar com o delicado bacalhau com natas, preparado pela famosa chef Carla Santos. Para celebrar minha presença ela me prometeu um garrafão de vinho branco do Douro e duas garrafas de bálsamo da cepa Touriga Nacional, da mesma região, oferecidas pelo Helder Mattos, seu marido e sócio. Creio que minha sede será modestamente saciada. Trata-se, afinal, de uma questão de justiça social. Merecidos bálsamos para o Poeta!

Vivas para o bacalhau, para o carapau, para a casta Touriga Nacional e para Portugal!

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.