O casamento do poeta e a democracia na Bolívia

Dos rochedos de Manarola, nas Cinque Terre, Liguria, o poeta enebriado pelo Sciacchetrà, o vinho da meditação, nos enviou o seguinte conto:

As eleições bolivianas do dia 18 de outubro de 2020 reestabeleceram a democracia no país ao consagrar o economista Luís Arce como presidente, no primeiro turno, com uma votação tanto robusta quanto eloquente. As forças democráticas ademais obtiveram a maioria nas duas casas legislativas. Venceram a democracia, a dignidade nacional e a decência e foi afastada a ingerência golpista das forças das trevas lideradas por Donald Trump, o diabo do norte, e de Jair Bolsonaro, o capeta do sul, servo e sicofanta do primeiro. Pessoalmente, fiquei feliz. Acho que, após longos anos e os muitos desastres direta ou indiretamente decorrentes da Pandemia do Covid-19, o mundo está a se convencer de que é preciso se livrar do inferno neoliberal fascista e que a democracia tem diversas faces: a econômica, a política, a social e a cultural. Neste contexto, o bem-estar do povo é central.

Este feliz acontecimento ocorreu exatamente no dia de meu casamento, realizado em Levanto, na Ligúria, Republica Italiana. “Mas como?”, perguntaram minhas infiéis leitoras. Outras observações entreouvidas foram: “Você não é um notório assexuado?” ; “Mas não és um orgulhoso assumido brocha decadente?”; “Agora, além de impotente, ficou senil?”; “Frouxo e gagá? Que combinação!”; “Não bastasse o prêmio IG-Nóbil, agora você vai querer receber o galardão de Corno do Ano?”; “Casado, você terá que abandonar os prazeres do vinho. As mulheres não toleram a felicidade nos maridos”. Que horror! Como se um assexuado não pudesse se casar! Há, como é sabido, muitas maneiras de se colmar esta lacuna num relacionamento conjugal.

De vez que chegamos ao ponto de grande estupefação nos meus círculos sociais, devo explicar-me. Violarei avec plaisir a máxima britânica do “never complain, never explain”. A História precisa de uma satisfação. É sabido que o Beppe Molisano e eu seguimos uma senda de rigorosa pesquisa científica a respeito das propriedades terapêuticas, lenitivas e preventivas do vinho italiano, conduzida com muito rigor dentro dos protocolos de escol.

No entanto, após uma degustação de Taurasi, Aglianico, Primitivo e Tintilia del Molise, conduzida em Polignano a Mare, Puglia, senti um insólito calor nas partes baixas, seguido por uma estranha tumefação no órgão urinário. Confirmamos assim, com robustez e vigor, que o vinho do sul da Itália tem propriedades afrodisíacas dignas de nota. Tendo relatado o ocorrido a meu fraternal amigo e companheiro, o Beppe Molisano, ouvi dele palavras de grande incentivo e contentamento.

“Che buono, Paixão. Agora que você terá interesse em relações sexuais, sugiro que se case. La sua vita é molto solitária e um uomo precisa de uma companheira. Siamo animais sociais, pelo menos nós, os comunistas. E também humanistas”.
“Ora Beppe, você sabe que eu nunca namorei. Nem conheço mulher alguma, fora minha santa mãezinha, que está no Céu”.
“Paixão, você conhece a Gigi del’Amore, que inclusive está com noi qui in Itália”.

“Conheço e gosto muito dela”, respondi, “mas a Gigi é a sua companheira, ou a ficante oficiosa, como você gosta de defini-la”.
“É certo, Paixão. Mas eu não sou uma boa persona para a Gigi. Como irremediável puttaniere, vivo saindo com outras mulheres, a pagamento ou não. Ho bisogno delle putane. Quando preciso de dinheiro, chiedo emprestado da Gigi, de suas economias juntadas com os ganhos de sua gelateria. Nunca pago de volta. Se aparece um programa mais interessante, deixo a Gigi na espera e sempre me esqueço de avisá-la. Já usei il suo letto para encontros com outras, como fez o grande Totò, para minha maior excitação. Chiedo que Gigi lave e passe a minha roupa e me faça a pastiera di grano todos os domingos”.

“De fato, Beppe, você é um fardo pesado para uma boa rapariga, como a Gigi. Mas não sei se ela se interessaria por mim”.
“Pois é claro que se interessa, Paixão. Vocês já são amigos. Ademais, eu prometerei davanti a imagem de San Genaro, San Giuseppe e San Nicola jamais tornare a intervir na vida dela, à exceção de visitas eróticas duas vezes ao mês. Visitação e pastiera di grano no primeiro e terceiro domingos de cada mês”.

“Visitas eróticas duas vezes ao mês, Beppe? Você está a propor um triangulo amoroso! Que escândalo! Pelas barbas do profeta!”
“Si, mas pense bem, Paixão. É per la sicurezza di tutti. Se o seu desempenho sexual não for grande coisa, teremos um serviço testado e garantido, sem a interferência de terceiros. Siamo amici, o que facilita as coisas. Ademais, muitos triângulos amorosos deram certo na História e até mesmo na literatura”.

“Promessa a ser feita para San Genaro?”
“Si, Paixão”.
“Então precisamos ouvir o que Gigi tem a dizer a respeito”.

Exposta a proposta a Gigi que, após alguns intermináveis momentos da mais profunda reflexão, respondeu:
“Penso que seja uma boa ideia para regularizarmos nossa situação, desde que acertemos alguns detalhes, que são os seguintes:

1.- a promessa a San Genaro, San Giuseppe e San Nicola a ser feita por Beppe Molisano deverá ser gravada por vídeo e áudio e testemunhada por pessoas confiáveis, por escrito e no cartório;
2.- Beppe deverá me restituir imediatamente a metade dos empréstimos que tomou de mim. Dispenso os juros. A outra metade ficará como minha contribuição ao projeto, digamos um dote;
3.- Cada qual deverá morar em sua própria residência. Os planos conjuntos de Gigi e Paixão deverão ser combinados exclusivamente entre eles próprios, com razoável antecedência;
4.- Todas as despesas com os vinhos correrão por conta do Paixão;
5.- Todos os encontros de natureza sexual, inclusive os decorrentes das visitas de Beppe, serão realizados na residência do Paixão, na parte da manhã. Se quiser, Paixão poderá assistir ao mano a mano. Nenhuma outra mulher poderá frequentar o leito triangular, muito menos as decadentes e infectas putas de Beppe;
6.- Após os encontros dominicais, Beppe irá fazer os almoços, trazendo (e pagando) os ingredientes por sua própria e exclusiva conta. Exige-se um alto nível dos insumos culinários. Nada de macarrão com sardinha!
7.- Paixão ficará liberado para frequentar os jogos do Timão no Itaquerão e as feijoadas da Gaviões da Fiel aos sábados. Podendo, eu também irei;
8.- Nem Paixão, nem muito menos Beppe deverão se imiscuir nos negócios da minha sorveteria, onde o caixa é sagrado e minha província exclusiva;
9.- O casamento será na Igreja, em Levanto, e nós três nela entraremos juntos e juntos ficaremos diante do altar. O padre celebrante será o Frei Totò Molisano e a dama de honra será a Georgia Daneri, acompanhada de Francesco e Isotta; e
10.- A festa será na loggia medioevale da Piazza del Popolo, com os celestiais pratos do insuperável restaurante lígure, Tumelin, tendo as esplendorosas Anna e Romina à frente e o grande, premiado e festejado chefe de cozinha, Damiano Pensa, com os bravos escudeiros Marco e Giggio, na retaguarda. Os patrocinadores de Paixão deverão dar o vinho, em quantidades navegáveis equivalentes ao Mar Lígure; os de Beppe, pagar a comida; e Beppe cantará a bela música napolitana, proibida expressamente Mala Femmina. Eu mesma providenciarei, por minha própria conta, o lençol branco e a pomarola alla napoletana, para a cerimônia de exibição da prova da consumação matrimonial na sacada, após a noite de núpcias, como manda a tradição.

E assim foi feito. O presente veio de nossos irmãos bolivianos. Somos todos gratos.

O povo, unido, jamais será vencido!

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.