Resenha de “Zélia Gattai e a imigração italiana”

Zélia Gattai foi uma extraordinária figura humana e também uma formidável escritora que, por muitos anos, ficou sob a sombra de seu companheiro e marido, o grande Jorge Amado. Filha de imigrantes italianos compromissados aos movimentos humanistas, libertários e sociais do século 20, teve uma educação doméstica privilegiada no tocante aos valores recebidos, que moldaram sua forte personalidade e firme caráter. Sua vida é objeto da obra “Zélia Gattai e a Imigração Italiana no Brasil entre os séculos XIX e XX”, de autoria da historiadora e literata italiana, Antonella Rita Roscilli, publicada pela Editora da Universidade Federal da Bahia, em 2016, com 165 preciosas páginas.

O livro examina a vida de Zélia Gattai no âmbito da história da imigração italiana no Brasil, tratando de sua inspiração, as viagens, a chegada às colônias e fazendas de café no Estado de São Paulo e no Paraná, com uma descrição excelente do experimento anarquista da Colônia Cecília. Da mesma forma que fez Zélia em “Anarquistas Graças a Deus”, Roscilli descreve a integração do italiano na comunidade paulista e sua notável contribuição civilizatória. “ De cada dois paulistanos, dois eram imigrantes italianos.” A autora observa ainda que “ os imigrantes tiveram uma importância decisiva na introdução das ideias socialistas no Brasil, já que muitos deles eram militantes que haviam tomado parte na agitação social em seus países de origem.”

A obra contextualiza a vida de Zélia Gattai igualmente no turbilhão político e social do Brasil dos anos 30 e no início do Estado Novo, em 1937. Em 1945, lembra Roscilli que a precursora da União Brasileira de Escritores (UBE), então denominada Associação Brasileira dos Escritores “realizou um congresso em São Paulo, sendo debatidos os seguintes temas: ‘a democratização da cultura’, ‘a criação literária e a liberdade’ e ‘o escritor e a luta contra o fascismo’. Foi o I Congresso Brasileiro dos Escritores e se realizou no Teatro Municipal… Chefiando a delegação baiana, estaria um escritor de 32 anos chamado Jorge Amado.” Foi no Congresso da UBE que se conheceram Zélia e Jorge e a partir de então estiveram unidos numa vida comum.

A obra trata ainda da vida de Zélia e Jorge com riqueza de detalhes, alguns obtidos com as diversas entrevistas que Roscilli realizou com Zélia Gattai no correr dos anos. Com a decretação da ilegalidade do Partido Comunista do Brasil, seu filiado Jorge Amado teve seu mandato de deputado federal cassado e partiu para o exílio, logo acompanhado por Zélia, dando início a uma fecunda colaboração.

O retorno do exílio deu-se em 1952 e o respectivo período foi tratado por Zélia Gattai no livro “Chão de Meninos”, pelo qual recebeu, em 1994, o “Prêmio Alejandro José Cabassa”, da União Brasileira de Escritores (UBE). No ano seguinte saiu o primeiro romance de Zélia, “com o título ‘Crônica de uma namorada’, uma homenagem a Jorge em comemoração ao cinquentenário de sua união com ele: 50 anos de amor”. Jorge Amado morreu em 2001 e Zélia Gattai em 2008.

A importante obra de Antonella Roscilli trata da vida paralela e comum de dois dos maiores escritores brasileiros de todos dos tempos, Jorge Amado e Zélia Gattai, examinada criteriosamente no âmbito da História do Brasil e da Imigração Italiana no País. Trata-se de um primor, por ser leitura tanto rica quanto prazerosa.

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.