Rossana Rossanda – Intelectual Comunista

Diretamente da Itália, onde se encontra em missão científica a estudar os efeitos profiláticos e terapêuticos do vinho, nosso ocasionalmente amado Poeta traduziu do italiano para o português, e nos enviou, o artigo necrológico de autoria de seu amigo, Beppe Molisano, sobre a grande intelectual italiana, Rossana Rossanda, recentemente falecida.

ROSSANA ROSSANDA (1924-2020) – INTELECTUAL COMUNISTA.

Beppe Molisano, com António Paixão.

Faleceu em Milão, na República Italiana, no dia 19 de setembro de 2020, a grande política, intelectual, jornalista, escritora, tradutora e memorialista Rossana Rossanda. Nascida em 1924 numa família de classe média (o pai era notário), durante a ascensão do fascismo, presenciou a violação de seu domicílio e a violência física aos familiares por obra das milícias de Mussolini. Na universidade, em Milão, durante a Segunda Guerra Mundial, foi aluna do grande filósofo Antonio Banfi, que a encaminhou à Resistência, tendo se filiado, com o codinome ‘Miranda’, às Brigadas Garibaldi, do Partido Comunista Italiano (PCI), fundadas em 1943. Essas foram protagonistas, como a principal força de reação armada da Resistência à ocupação alemã e à aberração do fascismo.

Chegada a libertação da Itália, no dia 25 de abril de 1945, com a importante participação da Resistência e da Força Expedicionária Brasileira (FEB) foi redemocratizado o país, com atuação aberta das principais forças políticas, incluindo o PCI, sob a liderança do grande e insuperável estadista, Palmiro Togliatti. Em 1947, foi promulgada a Constituição democrática de teor inclusivo, participativo e altamente representativa, em cuja formulação Togliatti desempenhou, pautado com serenidade por muita tolerância política, um grande e decisivo papel, como ministro da justiça.

No ano de 1962, Togliatti como secretário geral do PCI nomeou a jornalista Rossana Rossanda como a pessoa responsável pela política cultural da entidade política, um cargo tradicionalmente da mais alta importância no partido, devido ao seu apreço ao ensino e apoio ao conhecimento, de uma maneira geral. Em 1963, Rossana Rossanda foi eleita para o parlamento italiano, na lista do PCI, onde teve uma marcante atuação na defesa do humanismo, dos interesses dos menos privilegiados e dos discriminados.

Em seguida, em junho de 1969, Rossana Rossanda fundou com outras e outros companheiras (os) o importante jornal “Il Manifesto” o qual, embora de esquerda, se afastou do PCI. A publicação tornou-se um imediato sucesso e foi reconhecida como a voz mais representativa da chamada “nova esquerda”, na Itália. A sua importância foi tal que até mesmo se tornou um partido político o qual, contudo, não obteve um sucesso expressivo (e nem mesmo digno de nota) nas urnas e veio a desaparecer após pouco tempo.

Rossana Rossanda sempre foi sensível aos direitos da mulher e de sua posição na sociedade, tendo inclusive escrito ao menos dois livros sobre o tema, além de diversos artigos. Contudo, ela observou de maneira reiterada que, mais do que o feminismo, “o problema a ser superado seja o capitalismo”. Escreveu ainda que “o imperialismo age como central única do capital monopolístico internacional”. A respeito dos motivos da queda da URSS, a intelectual disse que “o comunismo errou, mas não era errado”. Ao seu próprio respeito, analisou “não ter sido jamais populista, como não pode sê-lo quem veio à política em oposição ao fascismo”.

As muitas e substanciosas obras de Rossana Rossanda foram publicadas por editoras de grande prestígio na Itália, além de outros países europeus, e alguns dos títulos são adiante mencionados, aqui traduzidos do italiano para o português pelos Autores: “1969 – O Ano dos Estudantes”; “O Marxismo de Mao Tse Tung e a dialética”; Os comunistas e a URSS”; “As Brigadas Vermelhas”; “Se a felicidade… por uma crítica ao capitalismo a partir de ser mulher”; e o seu livro de memórias “A garota do século passado”.

Mesmo nestes tempos de radicalismos de direita e grande polarização política na Itália, e com o temor mais presente do ressurgimento do tenebroso fascismo, a morte de Rossana Rossanda causou uma comoção nacional no país, pelo amplo reconhecimento de seu passado como brava e heroína patriota, séria e competente personalidade política, destacada intelectual, feminista sólida, e importante jornalista.

Rossana Rossanda (1924-2020), uma mulher de ontem, hoje e sempre.

Beppe Molisano