Seduções Falsas por Levi Bucalem Ferrari

Resenha sobre minha obra: Shanghai Lilly.

A primeira impressão que este livro causa ao leitor é de ser mais um entre os milhares destinados apenas ao entretenimento puro e simples, sem maiores pretensões, de milhões de leitores ávidos por aventuras que ocorrem de forma atemporal e descontextualizada de qualquer país, qualquer cultura. Em geral, fazem supor, através dos nomes das personagens e seus costumes, que tudo ocorre em países do primeiro mundo, em seus ambientes mais requintados, inacessíveis e até mesmo inimagináveis.

Um mundo de sonhos e ilusões que afastam o leitor de seu cotidiano repleto de problemas materiais e psicológicos. Enfim, um livro que qualquer pensador ou crítico de boa linhagem tenderia a classificar de alienante e ideológico, ou seja, faria parte do rol de falsos produtos culturais destinados a conformar atitudes e comportamentos aos valores que servem à dominação social.

A leitura atenta, entretanto, vai, aos poucos, negar tais imprecisões, quando faz sentir que estamos diante de obra de fôlego. As situações e personagens são verossímeis, atuam em contextos que, se não estão entre os mais conhecidos do grande público, desvelam tudo – ou quase – daquilo que ocorre de mais hipócrita, cruel, sórdido mesmo, entre as elites que vivem no conforto de uma riqueza da qual mal conhecem a origem.

É neste quadro que o autor – através de diálogos bem construídos – denuncia os limites que o consumo conspícuo e futilidades associadas mostram-se insuficientes para o alcance de uma felicidade serena. Bem ao contrário das narrativas a que já nos referimos a vida aqui nem sempre é um “mar de rosas”. Ora a ganância excessiva, doentia, ora o desencontro de interesses, tornam-se os elementos de um conflito intermitente que a todos obriga a mentir, dissimular; a esganar-se, se fosse possível. Tudo sob a capa de um formalismo pretensamente civilizado, por isso mesmo, mais assustador.

E as denúncias não param aí. O autor deixa entrever a exploração da mulher no trabalho e, não raro, dentro da própria família, o que a obriga a tomar atitudes aparentemente insanas, a descontar em outros, os males de que se julga vítima.

No transcorrer da narrativa surgem outras informações valiosas, fruto, certamente, da invejável cultura e experiência do autor. Trata-se de intenso exercício de antropologia comparada entre as culturas ocidental e oriental, particularmente a chinesa, desde seus primórdios até nossos dias, retratos que compreendem valores, atitudes, estrutura social e política. E o quanto a China, como a Índia e outras formações sociais, foram vitimas do imperialismo inglês. Bastaria um exemplo por demais gritante: a infame guerra do ópio que custou milhões de vidas e muitas décadas para que a população de um dos impérios mais antigos do mundo recuperasse sua dignidade. Daí as guerras, convulsões, revoluções, decorrentes e necessárias bem como o largo período de isolamento.

A propósito, nosso iconoclasta poeta Oswald de Andrade, bem caracterizou o sistema imperial em questão: “Em matéria de diplomacia, os ingleses não são nada britânicos”, jogando com o duplo sentido dos vocábulos, conforme afirmação feita a mim pelo mestre Antonio Candido.

A guisa de conclusão não pense o leitor que Shangai Lilly, apesar do que ensina, é obra didática. O autor mantém o bom humor do começo ao fim do livro. Seu mergulho no âmago de relações humanas complexas, densas, onde não faltam boas pitadas de erotismo; ou, as observações econômicas, culturais e políticas, em nada comprometem o prazer da leitura. Isso posto, vamos a ela.

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.