A águia, o capitalismo, os Direitos Humanos e o Sul Global no microscópio de Durval Noronha

Resenha integral de Gabriel Kwak sobre Direitos Humanos, 11 de Maio de 2026, São Paulo, Brasil.

Até que ponto normas internacionais podem salvaguardar indivíduos? É a pergunta a que nos remete de imediato a leitura do
novo livro do pesquisador infatigável Durval de Noronha Goyos Jr., que nos prodigaliza muitas achegas, inclusive, sobre o Direito
Chinês, aspectos por nós desconhecidos. A obra tem me servido no dia a dia dentro do contexto de estudos historiográficos. Trata-se de
um périplo — competentemente alinhavado pelo autor — pelos sistemas filosóficos construídos pela humanidade. Li, com
redobrado interesse, seu retrospecto muito bem-acabado da tutela jurídica dos Direitos Humanos no Ocidente e no Oriente, sem
jamais incorrer na duvidosa ótica etnocêntrica, a qual não dá conta da complexidade do globo.

Mais uma vez, o combativo jurisconsulto se bate pela altivez e soberania da política externa do Brasil ao mesmo tempo que
expende objeções incisivas e pertinentes contra a desfaçatez da política externa estadounidense. O autor elenca muitos episódios
que traduzem a condição periférica e subjugada do nosso país em face da hegemonia quasimodal do “Tio Sam”. Lembrai-vos que um
nosso embaixador em Washington, ilustre político baiano, cunhou a sentença constrangedora: “O que é bom para os Estados Unidos, é
bom para o Brasil.”

Dicionarista conceituado, expoente em tantas e intrincadas rodadas internacionais de comércio, membro da Academia de
Letras de Portugal, ex-diretor internacional do Sindicato dos Escritores do Estado de São Paulo e ex-presidente da União
Brasileira de Escritores, fluente em oito idiomas, o advogado, professor, diplomata, mecenas e enófilo Durval de Noronha Goyos Jr. cataloga as condutas que infringem o Direito Internacional, com lupa às transgressões aos Direitos Humanos cometidas pelo unilateralismo do “Império Americano”, ao longo de muitos e muitos anos.

Inclusive, não se furta a relacionar tratados aos quais os EUA se recusam acintosamente a aderir, como o Tratado de Banimento
de Testes Nucleares. Assombrosa e rigorosamente documentado, o livro oferece ao leitor uma resenha com tintas fortes dos crimes
humanitários praticados na Faixa de Gaza e na Cisjordânia de no mínimo 40 anos a esta parte. Não resisto a anotar a esperança que
o bem-avisado autor deposita na atuação do Sul Global e do BRICS no deslinde dessa situação de calamidade e delinquência
internacionais. Outrossim, o livro pode ser tomado como uma obra de doutrina de leitura obrigatória sobre os crimes de guerra. Ou
seja, aquelas páginas alinhavadas por Durval Noronha sobre conflagrações também nos estimulam a nos perguntar: quando se
justifica o uso da força no cenário global?

Data maxima venia, sem prejuízo a sequer uma linha do aprendizado destilado que fruí com estas magistrais páginas, não
comungo de expectativa equivalente à do autor quanto à atuação internacional do nosso atual presidente, decorridos mais de ¾ do
seu terceiro consulado. O novo livro do grand-seigneur Durval Noronha nos leva a pensar nos desafios da nossa experiência
diplomática. O Regime Internacional dos Direitos Humanos e o Sul Global não pode faltar à estante dos que se debruçam comumente
no Direito Internacional e na Filosofia do Direito.

Durval Noronha já é antigo conhecido do público leitor pelas suas qualidades de historiador e referência no Direito Internacional,
bem como pelo seu savoir faire de transmutar com verve a experiência real em ficção imaginosa e vazada numa fatura
estilística engenhosa, expressiva e requintada, como se deu com o romance Shangai Lilly (2017), tão bem recebido pelo público. Dá
gosto de ler seus livros que já orçam a mais de 60 títulos (sem contar os dispersos!) e nunca o lançamento de nenhum deles pode
ser tomado como um acontecimento trivial.

Gabriel Kwak Escritor e crítico de literatura. Da Academia Cristã de Letras, coordenador editorial do Centro
Universitário Belas Artes de São Paulo, ex-diretor da União Brasileira de Escritores (UBE).