A ciência comprova o acerto do poeta

Conto publicado em 26 de maio de 2020, Brasil.

A ciência comprova o acerto do poeta:
O vinho é profilático ao vírus.

Escurece em São Roque. Hoje não tive encontros. Nem com sapo falantes, nem com lagartixas sensuais. Ainda não são 18:00 horas neste invernal entardecer primaveril. Aqui na cantina da adega onde me encontro em retiro da pandemia do CONAD-19, já há mais de dois meses, imerso num tonel de vinho tinto, o meu microcosmo permanece imutável. Diariamente, no final da tarde, os funcionários da vinícola vêm reabastecer o conteúdo do tonel, devido ao parcimonioso, mas criterioso, consumo do dia. Pelas manhãs, vem a faxineira limpar o banheiro e o chão da cantina, bem como trocar minhas toalhas. Neste período, recebi apenas a visita de meu caro amigo, o genial cantautor, cozinheiro, poeta, pedreiro e sórdido putanheiro, Beppe Molisano, por ocasião de meu aniversário, o que muito me deixou feliz, como já relatei em bem traçadas linhas.

Hoje, quando fui à casa de banhos e examinei meu telemóvel, enquanto num esforço hercúleo de profunda reflexão, deparei-me, a par do midiático lixo habitual, com uma mensagem pelo Facebook do irmão de Beppe, um dos meus 7 amigos no aplicativo, todos geriátricos, o infame psiquiatra Totò Molisano. Totò especializou-se em atender jovens pacientes do sexo feminino que tenham aparência sensual e queiram viver perigosamente. Devido à grande procura deste gênero de apoio neste desvairado país, tornou-se ele um enorme sucesso. No carnaval, déshabillé chic, desfila de sunguinha como destaque na Mangueira. Totò é hoje um popstar da enferma mente nacional e ganha muita satisfação pessoal em sua crescente coleção de calcinhas, principalmente nas de cor rosa, sua preferência. Damares explica.

Pois bem, mandou-me Totò um elo de uma matéria na imprensa portuguesa, sabidamente muito mais séria do que a brasileira, no sentido de que a respeitável entidade, a Federação Espanhola de Enologia, há poucos dias confirmou um estudo científico da Universidade de Washington, nos EUA. Segundo este trabalho, constatou-se que o vinho tinto pode ser um bom aliado na prevenção ao coronavírus. De acordo com os cientistas americanos envolvidos no projeto, os flavonoides do vinho têm propriedades antissépticas e antioxidantes que podem deter o avanço da gripe.
Segundo a Federação Espanhola de Enologia, o vinho presta-se inter alia para a profilaxia da cavidade bucal e da faringe, onde é comum o vírus se alojar. Após extensivas consultas com a comunidade científica internacional, a Federação Espanhola concluiu de maneira absoluta que a sobrevivência do coronavírus no vinho se demonstrou impossível no ambiente hipotônico, pela abundante presença do álcool e dos elementos antioxidantes diversos que integram o bálsamo etílico, a maior conquista do processo civilizatório.

Fiquei feliz em primeiro lugar porque a comunidade científica finalmente comprovou minhas descobertas a respeito dos efeitos terapêuticos e preventivos do vinho. Como todas minhas amigas podem testemunhar, através dos muitos anos de minha triste, sorumbática e combalida existência, não fiz outro a não ser colocar em prática os meus achados acadêmicos. O vinho se tornou o meu companheiro diário, no que fui muito criticado, das maneiras mais cruéis e injustas. Assim, hoje posso afirmar categoricamente que o vinho substitui os demais líquidos (e também os sólidos) com vantagens, em todos os seus usos humanos.

Em segundo lugar, minha descoberta, agora confirmada cientificamente, representa a prevenção da contaminação com o coronavírus, feito que beneficiará a humanidade. Do ponto de vista financeiro sonho que, agora, talvez, a vinícola minha hospedeira queira me contratar, a pagamento naturalmente, para fazer uns comerciais a respeito da produção de São Roque. Por último, na perspectiva acadêmica, fico esfuziante com a minha qualificação científica aos maiores prêmios mundiais de honra ao mérito e reconhecimento, que sempre trazem algo em dinheiro, algo que me é necessário para a manutenção de minha saúde.

Infelizmente, como minhas leitoras bem sabem, eu renunciei mediante escritura pública ao Prêmio Nobel de Literatura, esta distinção que teima em negar reconhecimento ao talento brasileiro, quando ele me vier ser outorgado. Esta tanto briosa quanto resoluta ação de minha parte, ao repudiar aquilo que seria infra dignitatem, todavia, deverá levar a uma firme indisposição por parte dos eleitores do Prêmio Nobel de Medicina ao meu nome. De qualquer maneira, estes suecos e noruegueses nada entendem de vinho, dada sua notória preferência pelo etanol, pela acquavita e vodca. Sem falar no jererê! Ahahah!

Assim, resolvi consultar-me com meu amigo, o grande publicista, publicitário, relações públicas e jornalista, Ruy Nogueira, para indagar se ele não poderia me ajudar pro bono vinum, sem remuneração naturalmente, a encontrar um prêmio que estivesse à altura de minha importante descoberta, de meu incomensurável talento e da verdade etílica. Eu já o conheço há tempos, profissional e socialmente, muito embora ele não frequente os mesmos ambientes que eu. Percebe-os sórdidos e decadentes. Un vrai demi-monde. Quelle horreur!

Ruy Nogueira, como sabem minhas leitoras, foi o publicitário e relações públicas contratado pela Vivian Salomon para o lançamento de meus livros, Shanghai Lilly e Contos Malditos, em Portugal. Foi ele quem correu o Bairro Alto atrás de mim, para cima e para baixo, em todas as tascas e pontos de Fado, para que eu comparecesse à minha própria noite de autógrafos em Lisboa, já que meu editor estava furioso com minha ausência.

No processo, ficou preso no Elevador da Bica. Pelo menos, tinha a vista da Baixa. Ahahah! Encontrou-me com um copo de Touriga Nacional, do Douro naturalmente, numa das mãos e, na outra, a sua preciosa garrafa. Estava a acompanhar, com minha voz de barítono, a encantadora e insuperável Sara Paixão, monumento cultural de Portugal, num memorável fado sentimental, Asas do Coração, às quatro horas da manhã. Eu sempre valorizei as prioridades. Mais ahahah! Porém, o pernóstico jornalista Ruy Nogueira, em sua froideur profissional e chagrin pessoal, não se divertiu com a situação como deveria. Chacun à son goût!

De qualquer maneira, retornando ao presente, sempre solícito, Ruy Nogueira aceitou prontamente o patrocínio do meu intento. Passadas muitas e intermináveis horas, recebi dele um telefonema.
“Olá, Paixão. Tudo bem?”
“Tudo. Continuo imunizado em meu tonel de vinho de São Roque. Você tem notícias a respeito de meu meritório pleito de receber um prêmio internacional pela minha extraordinária descoberta científica?”, respondi.
“Pois é, Paixão. Depois de muitas pesquisas exaustivas de minha parte, pessoalmente, e também dos meus numerosos assessores, apresentamos nosso caso para diversas instituições nacionais e internacionais. Malgrado todos os nossos esforços, pudemos identificar apenas um prêmio para o qual poderíamos concorrer com alguma probabilidade de sucesso. Ele é outorgado em Portugal”.
“Em Portugal, que maravilha. É a minha segunda pátria! Às vezes, é também a primeira. Depende das conveniências. Ahahah! Foi em Fátima que se deu a aparição da Virgem Maria, nas doces colinas de Santarém. Foi em Portugal que se inventou a garrafa e é de lá a cepa Touriga Nacional, a principal campeã do mundo enológico. É ali que se encontra o mel-de-pau, que se come o melhor bacalhau e também o delicado carapau. E como se chama este prêmio?”, indaguei.
“Trata-se do Prêmio IG Nóbil!”, respondeu-me o publicitário.
“Ignóbil?”, perguntei-lhe tanto desapontado quanto amargurado.
“Você fez por merecê-lo!”, sentenciou.

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.

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