Parabéns e mimos pela indicação ao prêmio Ig-nóbil.

De acordo com o que já relatei em meu conto antes mencionado, informou-me o Ruy Nogueira que, não obstante todos os esforços, o único prêmio que se nos fez disponível é o IG-Nóbil, outorgado em Portugal, minha segunda pátria e também a primeira, dependendo das conveniências.

Conforme relato em meu conto A Ciência Comprova o Acerto do Poeta, escrito no tonel de vinho São Roque, onde passo o meu retiro durante a pandemia de Covid-19, minhas descobertas sobre os efeitos preventivos e terapêuticos do doce bálsamo etílico foram comprovadas por cientistas americanos e reconfirmadas absolutamente pela Federação Espanhola de Enologia. Em reconhecimento a tal feito e, na impossibilidade de receber o Prêmio Nobel de Medicina, devido à minha incompatibilidade com a Academia Sueca, por conta de divergências literárias, pedi ao meu amigo, o grande publicista, jornalista, publicitário e relações públicas, Ruy Nogueira, que me buscasse uma láurea alternativa, à altura de minha extraordinária empresa.

De acordo com o que já relatei em meu conto antes mencionado, informou-me o Ruy Nogueira que, não obstante todos os esforços, o único prêmio que se nos fez disponível é o IG-Nóbil, outorgado em Portugal, minha segunda pátria e também a primeira, dependendo das conveniências. Meu conto ganhou ampla divulgação midiática naquele país, que ama os livros, os escritores de um modo geral, e os poetas em particular. Feliz Portugal que tem por data nacional o dia de morte de seu maior poeta, Camões, o 10 de junho. E por que, perguntariam minhas leitoras, o dia de morte e não o do nascimento? É porque foi no dia de sua morte que ele adentrou ao Céu.

Como consequência da tomada de conhecimento sobre meu memorável trabalho de pesquisador científico e respectivo inspirado relato, recebi muitos mimos e cumprimentos de amigos dos dois lados do Oceano Atlântico, o que confirmou o meu status de campeão literário (e científico?) da lusofonia, sem falsa modéstia. Como me ensinou minha santa mãezinha, Marcella Paixão (Dona Mápá), que Deus em seu infinito amor e sua enorme piedade a tenha, é de boa educação agradecer todos os cumprimentos e homenagens. Essas foram tantas que resolvi fazer um elenco respectivo para a posteridade. Afinal foram as únicas que este, até aqui esquecido, miserável mas genial poeta recebeu em sua triste vida, já no ocaso:

Do jornalista Ruy Nogueira, uma banana nanica.

Da cantora portuguesa de fados, Sara Paixão, orgulho cultural de Portugal e principal monumento nacional, dois emojis: um coração encarnado e um doce beijinho, diretamente do Bairro Alto de Lisboa.

Do psiquiatra de jovens senhoras, Totò Molisano, uma calcinha cor de rosa de sua rica coleção, ainda com alguns resquícios dos odores originais.

Do advogado, Zepa Pequeno, uma garrafa (vazia) de vinho Pé Tinto, do Alentejo, com o seu rótulo original ainda em condições passáveis.
Do escritor, Fábio Dareva, uma nota com um pedido de empréstimo e assinada com um fio de seu (?) bigode. Faltou o atestado de DNA.

Do médico, Hamilton Funes, um terço (aproximado) de charuto cubano COHIBA, muito pouco mordido. Alguns resquícios de baba, já seca.

Do Professor Edward Salomon, uma fatura de consumo com o timbre da Boate Azul, do dia 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição brasileira, indicando “3 uíski legítimu; 4 coquiter di fruta; 1 porsão di frangu a passarinhA”(sic).

De Wanda La Selva, diretamente da Mooca, um chaveiro da Torcida Gaviões da Fiel, força independente em prol do grande Corinthians e maior conquista do processo civilizatório brasileiro, em plástico preto e branco. Com bastante uso.

Do escritor, historiador e jornalista, Albino Castro, da Casa de Portugal de São Paulo de Piratininga, uma Cruz de Malta pintada sobre um pequeno disco de cortiça, já em fase adiantada de decomposição.

Das esplêndidas, graciosas e generosas damas da madrugada do Parque Eduardo VII, esquina da Avenida Castilho, em Lisboa, Elmira Porrete e Joaquina Navalhada, um pequeno frasco com essência concentrada de bacalhau.
Do Gonçalo, camareiro do insuperável Ritz de Lisboa, uma fotografia colorida do famoso pão do Alentejo, mandada via Whatsapp.

Do Pezão da Fiel, chef do Restaurante Piselli de São Paulo, uma fotografia (sem autógrafo) da Sabrina Sato, deslumbrante e gloriosa à frente da bateria da Escola de Samba Gaviões da Fiel (Carnaval de 2020).

De Gabriela, sommelière do Hotel Ritz de Lisboa, uma rolha do vinho do Douro Barca Velha, safra de 2011, ainda com a tintura original (seca).

Da Carla Santos, proprietária e chef da excelente Taberna dos Sabores, de Lisboa, um anúncio da nova ementa da casa, via correio-e.

Do Jovem Dudu, do Porto, fragmentos em papel jornal de uma edição popular de versos eróticos esparsos de Gregório de Mattos Guerra e Pablo Neruda.

Da apaixonada e ardorosa militante feminista, Vivian Salomon, diretamente de Miami, via correio-e, lembrando-me para manter distância continental de sua adega, os seguintes versos de Bocage:
“Se pois guardar devemos castidade,
para quê nos deu Deus porras leiteiras,
senão para foder com liberdade?
Fodam-se, pois, casadas e solteiras,
e seja isto já; que é curta a idade
e as horas passam ligeiras”.

Do Carluccio, lá de Bauru, interior do Estado de São Paulo, uma foto de jovem mulher despida fazendo pose estranha e incomum (inconsueta, diria o Beppe Molisano). Via Whatsapp.

De James Knox, do Estado de Washington, nos EUA, um cabelo púbico com procedência atribuída a Donald Trump, devidamente desinfetado. Com forte fedor de enxofre.

Da jovem florista, Gigi Dell’Amore, de Napule, um convite indecorosamente sensual, mas sincero (?), a mando de seu namorado, o cantor, pedreiro, peixeiro, rematado putanheiro e cozinheiro, Beppe Molisano.

A todas(os) os meus melhores e mais penhorados agradecimentos e o desejo, acompanhado das minhas mais fervorosas preces, de que Deus vos dê em dobro aquilo que me presentearam.

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.