A Namoradinha do Lobista

Escrito em 30 de março de 2018, exclusivamente para a antologia “Contos de Amor e de Dor”, da União Brasileira de Escritores (UBE).

Natural de Limoeiro, no agreste do Estado de Pernambuco, seu nome era Fernando Cavalcanti Albuquerque. Apesar do sobrenome, pertencia à classe média. Seu pai era um funcionário público de segundo escalão e a mãe, professora primária. Ambos trabalhavam duro a fim de prover o melhor para o único filho, que frequentou a escola primária em sua cidade natal, mas se transferiu para o Recife com o objetivo de fazer o curso secundário no tradicional Colégio Salesiano, onde estudaram Gilberto Freyre e Napoleão Jatobá. No Recife, conheceu os filhos da velha aristocracia pernambucana, que era preparada para conduzir os negócios familiares auxiliados, como é tradição naquelas partes, pelo envolvimento na política estadual e nacional. Fernandinho, como era conhecido, fazia-se de simpático, gostava das farras, da cachaça e das putas, para além de ser inteligente, e assim logo fez um largo círculo de amizades.

Estudou as leis na famosa Faculdade de Direito do Recife, de grandes tradições, onde estiveram também Tobias Barreto, Ruy Barbosa, Joaquim Nabuco, Clóvis Bevilacqua, Silvio Romero e Ariano Suassuna, dentre outros grandes nomes da inteligência brasileira. Todavia, Fernandinho não se interessava por qualquer das carreiras jurídicas. Tinha a política no sangue mas, por sua origem de classe média, não possuía meios de nela adentrar, já que lhe faltavam os meios financeiros e os currais eleitorais próprios daquela região. Formado, restou-lhe a opção da carreira de lobista, não regulamentada no Brasil e que se identificava, na realidade, com o tráfego de influências e a corrupção sistêmica. Amigos políticos ele os tinha, tanto no Recife quanto em Brasília.

Seus amigos foram solidários com ele e o indicavam para receber propinas e outras benesses escusas, bem como para negociar os contratos de corrupção. Às vezes, devia convencer algum empedernido funcionário público, ou membro da magistratura, dos méritos do pleito ou da causa de seus clientes, contra um generoso pagamento, como é natural no Brasil. Fernandinho julgava-se um importante operador do direito. Suas causas eram todas justas ou, ainda que não o fossem, ao menos davam-lhe sempre uma remuneração condigna. Costumava dizer que “se o Olavo Setúbal diz que banqueiro não tem coração, eu complemento para afirmar que lobista é um deficiente auditivo, que só entende a linguagem do dinheiro”.

Teve sucesso. Casou-se com uma moça de arruinada aristocrática família pernambucana e tiveram uma filha. Logo se divorciaram porque seu estilo de vida era incompatível com um relacionamento conjugal. Devia sempre estar nas farras, orgias, surubas e bebedeiras para angariar clientes ou mesmo com o objetivo de convencer alguma figura dos poderes da República a praticar um ato ilícito no interesse de seus muitos fregueses. Para tanto, tinha um exército de garotas de programa, com as mais diversificadas especializações, de maneira a atender todos os gostos de Brasília, os quais são sabidamente tanto excêntricos como variados.

Numa ocasião, ao fazer o perfil de um alto magistrado seu alvo, ficou sabendo que ele gostava de transexuais. Fernandinho falou com sua secretária das safadezas e obteve o nome de uma jovem de nome Juliana Teixeira, natural de Belém do Pará, de onde vem as melhores travestis do mundo, celebradas tanto por sua beleza pessoal como por seu desempenho sexual. Juliana media cerca de 165 centímetros, era loira bem tingida e tinha seios de silicone que pareciam naturais, firmes mas sem exageros. Seu derrière também tinha recebido um reforço do mesmo material, mas apenas para arredondar as formas, tornando-as mais femininas. Todavia, o que mais chamava a atenção em Juliana era a sua doçura pessoal, sua graça social, sua cordialidade e óbvia inteligência emocional. Juliana trabalhava em São Paulo, mas podia se deslocar a qualquer parte do Brasil ou do exterior, na prestação de seus serviços profissionais.

Originária de uma família paupérrima de Belém, nasceu já se considerando uma mulher e lutou contra todos os preconceitos existentes, no início para com os homossexuais e, depois, contra os travestis. Sofreu diversos abusos atrozes na comunidade e acossamento na escola os quais, ao invés de leva-la ao desespero, ao contrário, fortaleceram sua índole, dando-lhe uma determinação férrea para prosperar na vida e afirmar sua identidade. Restava-lhe, como a tantas, apenas a prostituição, caminho que começou a trilhar pelas ruas mal iluminadas de Belém, com uma sua amiga, a Gaby, mais alta e forte, mas igualmente simpática e de boa índole, que inclusive a protegia.

Juliana usava o dinheiro que ganhava para investir em sua beleza pessoal, mas sem desmandos e desperdícios, e para economizar com o objetivo de se transferir a São Paulo, a meca de todas as travestis, pela afluência econômica e marcada preferência sexual dos paulistas. Tendo afinal ali se estabelecido, tornou-se um instantâneo sucesso no meio LGBT, de maneira que suas páginas, tanto nas redes sociais como nos sítios de travestis, eram as mais acessadas. Virou uma lenda viva. Morava num apartamento modesto, na região da Bela Vista e jamais perdia o foco de ganhar para poder se estabelecer numa atividade comercial na cidade de São Paulo, sua terra de adoção.

Fernandinho quis entrevistar Juliana pessoalmente, antes de leva-la para a desafiadora missão profissional em Brasília. A entrevista terminou na cama, naturalmente. Foi a primeira experiência de Fernandinho com uma transexual, ela que era a mulher mais linda do mundo, mas dotada de um pênis. Ele se encantou e passou a vê-la constantemente e a leva-la nos seus deslocamentos, sempre a pagamento do combinado, que ele sempre complementava ligeiramente, “para não a acostumar mal”. Para a missão em Brasília, Juliana indicou a Gaby, que se saiu a contento e deixou o magistrado fascinado com os seus decantados e celebrados atributos anatômicos.

Passaram os dois a juntos frequentar os melhores hotéis cinco estrelas no Brasil e os restaurantes de maior prestígio. Por onde andasse, Juliana era o maior sucesso; invariavelmente era a mulher mais linda e charmosa de todos os ambientes. Modesta e atenciosa, sabia também angariar simpatias, qualidade rara nas belas mulheres. Fernandinho apaixonava-se cada vez mais. Num determinado dia, convidou Juliana a passar uma temporada consigo em seu apartamento de Roma. Juliana ficou feliz, mas não demonstrou grande entusiasmo, provavelmente reticente face a ocasiões frustradas no passado.

Iriam os dois viajar juntos, mas Fernandinho preferiu que Juliana comprasse a própria passagem, no voo da Alitalia para Roma, na classe executiva, a fim de evitar aparecer como pagador nos registros diversos. Vícios de lobista, categoria que evita deixar rastros. Complementou a quantia com o montante acordado do cachê da Juliana para o período e foi fazer a entrega do dinheiro vivo no almoço num dos restaurantes famosos na região dos Jardins, em São Paulo. Hábitos do ofício. Juliana, que se produzira com esmero, de maneira apropriada para um encontro diurno, estava visivelmente feliz. Embora nada dissesse, ela também estava apaixonada por Fernandinho, um homem com um admirável estilo de vida, elegante, atencioso e bem-sucedido. Para ela, era um sentimento inusitado.

Combinaram um jantar para o dia dos namorados, o qual no Brasil é celebrado no dia 12 de junho, num ótimo restaurante na região dos Jardins, às 21 horas. A reserva foi difícil, mas Fernandinho era um ótimo cliente e não teve dificuldades. Ele ficou de busca-la em seu apartamento da Bela Vista, às 20:30 horas. No horário combinado, ligou dizendo que estava em baixo à sua espera em seu carro. Ela pediu mais alguns minutos. Tinha se atrasado no cabeleireiro. Uma hora após o combinado, ela ainda não havia descido.
Ligaram do restaurante dizendo que estava quase que impossível segurar a reserva. Ao mesmo tempo, dois tipos mal-apessoados aproximaram-se do automóvel na penumbra com as mãos na cintura. Tendo visto a movimentação da dupla, Fernandinho imediatamente arrancou com o carro em alta velocidade. Ele também estava com vontade de urinar. Frustrado com a situação, desconfortável com a bexiga cheia, com a cabeça quente e de maneira irracional, ligou para Juliana, cancelou o compromisso e também a viagem para Roma. Disse que ficasse com o dinheiro. “Ela não é em nada confiável”, tentou justificar a si próprio e foi dormir.

Juliana ficou com o coração partido. Queria ser a mulher mais linda do mundo para Fernandinho. Jurou nunca mais se apaixonar por um cliente e persistiu nos seus objetivos de acumulação de capital. Foi para a Itália, para a Inglaterra e se deu muito bem. Se era a mulher mais linda de São Paulo, imagine-se em Londres… Por sua vez, Fernandinho refletiu melhor sobre a situação e se arrependeu daquilo que havia feito por impulso, sob tensão, e ligou à sua amada. “Será que não o fiz levado pelo temor de oficializar publicamente minha relação com uma transexual?”, perguntou-se apenas retoricamente. Porém, Juliana não mais quis falar com ele. Seu coração estava despedaçado.

Fernandinho ficou desesperado: “que dor! Não soube reconhecer o verdadeiro amor”, disse a si próprio, o que repete todos os dias desde então, enquanto vaga tristemente como alma penada pelos sombrios e nauseabundos gabinetes, bares, restaurantes e hotéis de Brasília.

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.