A PATRIÓTICA MISSÃO COMERCIAL DAS PUTAS À ITÁLIA


Seu nome era Bianca. Vinha de família italiana e tinha sangue quente. Era alta, generosa de formas e loira. Seu rosto quadrado transmitia a impressão de uma personalidade forte. Seu sorriso tinha a pureza infantil. Cedo começou sua vida sexual para atender o próprio prazer, continuou para atender o prazer alheio e terminou por fazê-lo por dinheiro. Seu nom de guerre era Sheila.

Antes, todavia, trabalhou em atividades prosaicas. Foi secretária. Faziam-lhe propostas indecentes. Foi aeromoça. Internacionalizaram-se as ofertas, em diversas línguas. Havia aprendido o italiano em casa. Fez cursinho de inglês, aperfeiçoado com as viagens. Assim adquiriu as habilidades para as relações internacionais.

Começou por oferecer seus serviços no Brasil num sítio eletrônico de acompanhantes em São Paulo. Pediu para um amigo tirar umas fotos suas e montou o seu anúncio. Teve muito boa demanda. É certo que o produto tinha qualidade, mas os tempos ajudaram. A economia do governo Lula estava aquecida. O povo tinha maior disponibilidade, mas o que era mais importante é que os banqueiros tinham muito dinheiro.

Resolveu a Sheila fazer especialização no exterior. Não é assim que fazem os banqueiros e advogados, perguntou-se? Não vão os homens do dinheiro para Chicago para aprenderem a ser americanos e a melhor servir os seus interesses pessoais? Não vão os advogados para Londres, para melhor poder desprezar a cultura própria?

Foi então aperfeiçoar-se primeiramente na Itália, tendo passado também por Espanha e pela França, nesta para aprender as bizarrias do métier. Não se interessou pelo Reino Unido, intimidada talvez pela máxima britânica “No sex, please, we are British”. Evitou igualmente os EUA, país onde, dizem, os homens estavam mais inclinados à necrofilia. Coisa horrorosa!
Faltou-lhe apenas o estágio nos famosos lupanares de Xangai, de grandes tradições em decadência, para o refinamento nos prazeres da dor, habilidade muito buscada pela clientela elegante de ambos os sexos. No entanto, prometeu-se um dia ainda lá complementar sua formação.

Voltou ao Brasil no final do governo Lula atraída pelo Real forte! Fazia o nosso presidente do Brasil um país de todos. Não apenas dos banqueiros, mas também das putas. As coisas continuaram bem após as eleições. Fôra eleita uma mulher para a presidência. Ela era do mesmo partido de Lula.
Prometera a nova presidente, que quer ser chamada presidenta, continuar a mesma política macroeconômica que permitia às noivas brasileiras fazer seus enxovais em Nova Iorque e à classe média comprar apartamentos em Miami. E continuar a enriquecer os banqueiros, é claro.

Por sua experiência de vida e de mercado, por suas qualidades de comunicadora, como também por sua inteligência e formação distinta, ainda que autodidata, Sheila era muito procurada por suas colegas de profissão para o aconselhamento, e assim fez um largo círculo de relações. Dava-se bem com todas, como os bons políticos.
Seus contatos permitiam algumas iniciativas pioneiras de mercado como o Private Swing Party, por exemplo. O anglicismo foi adotado não por necessidade linguística, mas porque, como é sabido, o brasileiro padece de esterofilia e assim favorece tudo o que tem nome estrangeiro, mesmo para a sacanagem. Juntou ela um número de colegas de profissão, todas confiáveis, e alugava recintos para surubas memoráveis, abertas para casais.

Tornou-se assim a Sheila uma grande empresária do sexo. Ao contrário da notável Eny, de saudosa memória e de efêmero sucesso em Bauru, cidade no interior do Estado de São Paulo, não era romântica, não investia em ativos fixos e geria seus negócios com a frieza de um banqueiro central.

Sua mais recente iniciativa foi a Missão Comercial das Putas, ação inspirada pelos mais nobres sentimentos de patriotismo, já que a balança de serviços do Brasil havia ficado deficitária em mais de US$ 12 bilhões de dólares apenas no primeiro semestre de 2011, com a farra das viagens internacionais agravada no governo Dilma.

– “Vamos exportar serviços”, disse a Sheila na apresentação de seu projeto às colegas de trabalho, em número de 10. A ideia era a de se aproveitar do verão europeu e passar um mês na Sardenha para arregimentar clientela internacional de alto poder aquisitivo, ou “high net worth individuals”, como gostam de dizer os banqueiros privados. Alugaram todos os quartos de um pequeno, mas elegante hotel em Porto Cervo pelo período.

Aprovado o projeto por unanimidade, passaram aos detalhes dos preparativos. Já às vésperas da partida, reuniram-se para uma reunião de coordenação geral, ocasião com certa solenidade, que foi aberta por Sheila nas seguintes palavras:

– “ Minhas queridas colegas, amigas e companheiras. Aproxima-se a data de nossa partida para a pioneira missão comercial. A nossa não é uma iniciativa qualquer. Não se compara, por exemplo, com a programada missão comercial da FIESP à China, na qual os empresários buscarão fornecedores para os mercados brasileiros, agravarão o déficit comercial do País e exportarão postos de trabalho.
A nossa é uma missão que irá minimizar o déficit da balança comercial de serviços do Brasil, para além de ser uma iniciativa civilizatória, a promover o prazer, o bem estar pessoal, a alegria, a saúde física e mental, e também as melhores relações internacionais.
Primeiramente, algumas palavras sobre a Itália. Trata-se de país com grandes tradições sexuais. Lembrem-se de Calígula, o imperador romano, muito chegado às bizarrias e perversões de todos os gêneros. O insuspeito intelectual italiano, Antonio Gramsci, chegou a dizer que … ‘in principio era Il sesso`.

Originalmente, prevaleceram na península itálica os princípios machistas, que foram atenuados com o correr dos tempos. Como dizia Curzio Malaparte, `La vera bandiera italiana non è il tricolore, ma Il sesso, Il sesso maschile´. Contudo, com o passar dos anos, o italiano passou a valorizar mais o seu lado feminino.

A tendência evoluiu de tal forma que hoje, de uma maneira geral, o homem italiano gosta de ser enrabado. Sim. Mas não por outro homem, porque as aparências machistas têm que ser mantidas. Eles querem ser enrabados por travestis, e daí o sucesso dos nossos companheiros de trabalho naquele país, ou por mulheres.

Como somos desprovidas dos instrumentos naturais, devemos nos valer dos acessórios, faute de mieux. A Itália, como não poderia deixar de ser, é bem sortida nesse material pelo que, ao chegarmos a Porto Cervo, poderemos comprar o equipamento em todos os tamanhos até mesmo naquele monstruoso de 5 quilos!

Assim, o italiano médio é como o diplomata brasileiro. Gosta de ser enrabado. Chacun a son goût. Mas, enquanto o diplomata brasileiro quer ser enrabado de graça pela profissional brasileira, o cidadão italiano nos remunera a peso de ouro, além de ser refinado, inteligente, cheiroso e elegante.
Vamos, portanto, ficar longe da diplomacia brasileira, o que não será difícil, já que nossa embaixada fica no Palazzo Pamphili, em Roma, na Piazza Navona. Esse palazzo tem o nome de um poderoso pervertido cardeal italiano. Ele é amplamente conhecido por ter afrescos no teto e frescos no piso.

Hoje, sua suíte presidencial os afrescos de Pietro da Cortona no teto e uma coleção virginal da obra completa de Joaquim Nabuco. Sua cama é enorme e se presta a grandes orgias. Mas não vale a pena. A parte cultural e estética não compensa a impecuniosidade do exercício.
Da mesma maneira, vamos ficar longe dos políticos italianos. O Berlusconi, por exemplo, primeiro ministro daquele país, é um velhote rico e corrupto que adora as profissionais do sexo do Brasil. Dizem nossas colegas sotto voce que paga michês de mais de 2.000 euros e ainda dá jóias de presente. Tudo pelo mínimo trabalho. Contudo, o homem é acompanhado de perto pela imprensa e perseguido pelo ministério público local. É aventura de alto risco.

Faz ainda parte de nossa ação afirmativa atender aos milionários de todas as nacionalidades que vão nesta época do ano passar as férias na Sardenha. Lembrem-se que homem rico, do haut monde, se delicia em ver sua mulher transando com meretrizes praticantas, como diria nossa presidenta inicianta.

Assim, temos que estar muito elegantes, pois enquanto os homens gostam das profissionais peladas, suas mulheres nos querem bem vestidas, bem cheirosas, com unhas feitas, penteadas, depiladas e, depois, bem peladas e úmidas. O trabalho é mais árduo, mas a remuneração compensa, pois acaba por ser mais que dobrada.

Por último, não se esqueçam que estaremos em Porto Cervo, não em férias, mas a trabalho. Vamos minimizar o déficit de serviços do Brasil mas, mais do que isso, iremos dar um exemplo patriótico para o setor produtivo do país.

Avanti!”

António Paixão on EmailAntónio Paixão on Facebook
António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.