O CRIME DO RESTAURANTE PISELLI

Formei-me em Direito muitos anos atrás, mas nunca exerci a advocacia, premido que fui pelos empenhos dos negócios de família. Vendida a fábrica, hoje sou poeta, com o que por sinal não concorda minha mulher. Tenho o hábito de frequentar o Restaurante Piselli, fundado pelo talentoso Juscelino Pereira, um templo da melhor gastronomia italiana.

O restaurante é prestigiado por muitos empresários, mas também por alguns dos principais advogados brasileiros, todos amantes da boa cozinha, dentre os quais o Dr. Durval de Noronha Goyos. Duas semanas atrás estava eu num almoço de negócios, quando o Dr. Noronha veio a ocupar a mesa ao lado, com elegante companhia, e pude presenciar uma cena inusitada após ser servido o primeiro prato.
Com o ar de profunda gravidade, aproximaram-se da mesa ocupada pelo Dr. Noronha o Juscelino Pereira e o chefe de cozinha, Paulo. Preocupou-me a circunstância, porque o Juscelino é sempre alegre ao cumprimentar os clientes habituais em suas mesas, mas naquele dia o seu semblante era funéreo.

-“Dr. Noronha”, disse o Juscelino, “raptaram a Sabrina Sato!”
Como é sabido, o Piselli é um restaurante cujo fundador é um corintiano sério e dedicado que, além de pintar o toldo da entrada com uma combinação de preto e branco de dar inveja à Maison Chanel, tem 42 funcionários alvinegros dum total de 44.
Assim, um atentado à musa, madrinha e inspiradora da nobre e venerável sociedade Gaviões da Fiel adquire no local, como era de se esperar, uma dimensão ainda maior do que a natural.

-“Como, Juscelino, e quando ocorreu essa tragédia?”, disse o Dr. Noronha visivelmente alarmado.
– “Foi aqui mesmo, no Piselli”, apressou-se em responder o Paulo, quase às lágrimas. “Foi hoje”.
– “Hoje?”, disse o Dr. Noronha. “Mas eu não a vi aqui e posso lhes assegurar que não perderia a ocasião histórica em hipótese alguma”.
-“Bem,” respondeu o Paulo, “não foi um rapto físico da pessoa, mas um rapto da fotografia (sic)”.
-“Entendi”, disse o Dr. Noronha, “foi um suspeito furto de uma foto da Sabina Sato. Trata-se de situação menos grave e de um grande alívio. E que foto é essa?”

– “É a foto que saiu na página 3 do Caderno 2 do Estadão, o qual assinamos aqui no Piselli”, explicou o Juscelino. “Mas se trata de situação da maior seriedade e que tem repercussões para além da esfera criminal, pois deixa o meu corpo de funcionários profundamente desmotivado. É uma questão de direitos humanos! Não sei nem menos se será servido o almoço hoje.”
-“ De fato, o sucedido é deprimente. Sugiro que V. mande comprar um exemplar do Estadão para cada funcionário, com a recomendação de que seja lido e reverenciado con gusto na privacidade da residência de cada um, após o turno de trabalho”, emendou o Dr. Noronha.
-“Já tentamos, mas encontra-se totalmente esgotada a edição. A foto era de um extraordinário valor artístico e de escultural valor estético. Um monumento.”, esclareceu o Juscelino.

– “Nós os membros da Nação Corintiana, da qual o Senhor faz parte, Dr. Noronha, exigimos Justiça”, postulou o Chefe Paulo. “Queremos uma comissão de inquérito sobre o rapto da Sabrina (sic) e a punição exemplar dos responsáveis. Os funcionários do Piselli o elegeram para chefiar os trabalhos.”

-“Mas eu sou advogado internacionalista,” disse o Dr. Noronha querendo seguir com seu almoço.
-“Mas é corintiano!”, lembrou o Juscelino, chamando o causídico ao cumprimento do dever.
-“Ora, Juscelino”, disse o Dr. Noronha, “está lá na mesa do canto, cochichando, o Dr. A.C. Mariz de Oliveira, grande criminalista brasileiro, que poderá conduzir a questão com maestria”.

-“É verdade, mas falta-lhe a credibilidade para o sacrossanto. É são-paulino! Que tristeza…”, retrucou o restaurateur.
-“Pois bem,” resignou-se finalmente o Dr. Noronha. “Paulo, verifique nos banheiros feminino e masculino. No primeiro, se a página do jornal não se encontra rasgada, destruída ou de outra forma aviltada, no lixo. A Débora, confiável recepcionista corintiana, poderá olhar. No masculino, veja se a foto da musa não está pregada atrás da porta e de frente para o vaso sanitário.”

Providências tomadas, retornou ao salão o Paulo, com expressão de profundo desapontamento. –“Negativo, Dr. Noronha”.
-“Então”, disse o Dr. Noronha, “tragam-me aqui a funcionária Joyce com a sua mochila”. Pouco depois, chegou a recepcionista Joyce, que tem o rosto de modelo de Modigliani, toda constrangida, portanto a sua infame mochila cor de rosa com babadinhos.
-“Joyce”, disse-lhe o Dr. Noronha, “diante dos relatos de fato da maior gravidade ocorrido nesse restaurante e da premência em apurar as responsabilidades, peço-lhe que abra sua mochila imediatamente”.

Com muita humildade, vexada e enrubescida, a Joyce abriu sua mochila para a inspeção de Juscelino, que extraiu exultante a folha do jornal com a foto da Sabrina Sato, para a alegria de muitos dos presentes e de todos os funcionários.

-“Dr. Noronha,” disse o Juscelino com seu largo sorriso restabelecido ao vigor e simpatia original, “como foi que o Senhor adivinhou?”
-“Elementar, meu caro Juscelino, a Joyce é a única funcionária são-paulina presente no dia de hoje.” “Como ela praticou um ato da maior seriedade”, sentenciou o Dr. Noronha, “e faltou ao respeito para com a Nação Corintiana e funcionários do Piselli, ela está condenada a convidar a Sabrina Sato para um almoço nesta casa e, para a ocasião, a Joyce vestirá a gloriosa camisa dos Gaviões da Fiel. Custas por conta do Juscelino”.

– “E não se esqueçam de me chamar para a ocasião”, finalizou o Dr. Noronha antes de atacar o seu stinco d’agnello.

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.