As formidáveis mulheres italianas e o exemplo de Carla Nespolo

(4.3.1943/4.10.2020), uma vida dedicada à promoção do humanismo.

Para o atento observador, a percepção é que não existiria a Itália, em sua plena dimensão moral, cultural, econômica e política sem o determinante concurso das mulheres italianas, num patamar de excelência. Elas são partícipes, fortes e decisivas, de todos os círculos da vida do país, incluindo nas fábricas, nos campos, nas universidades, nas escolas, nos hospitais, nas empresas, no turismo, no transporte, na limpeza, nos restaurantes, na política e na administração pública. Ao mesmo tempo, elas estão presentes nos lares, viabilizando-os, criando e orientando os filhos, da mesma forma que dando o muito necessário, e frequentemente indispensável, apoio aos seus maridos e demais familiares.
Com todo o devido respeito às legiões de grandes homens italianos, como Dante, Michelangelo, Da Vinci, Caravaggio, Bernini, Garibaldi, Verdi, Togliatti, Gramsci e Croce, perguntei ao Beppe Molisano, que sabe tutto sobre o ethos peninsular: “afinal, com todo o protagonismo feminino, para o quê mesmo serve o homem na Itália”? De pronto, e sem a menor hesitação, ele me respondeu “para fazer o que mandam as mulheres de sua vida! Elas são a mãe, em primeiro lugar, seguida pelas avós, a irmã mais velha e a mulher. Trata-se de direção e supervisão tanto ampla como enérgica e penetrante. Quando o homem se comporta de acordo, tem-se o gênio; quando foge das determinações, vem a mediocridade, o pasticcio e, às vezes, até mesmo o desastre!”

Em 8 de outubro de 2020, nos últimos dias de nossa estada naquele importante país, chamou a atenção o desaparecimento de duas mulheres verdadeiramente extraordinárias, exemplos referenciais do melhor já existente na conduta humanística, íntegra e valorosa. A primeira delas, Rossana Rossanda, e foi objeto de nossa coluna de 24 de setembro de 2020, desapareceu no dia 19 daquele mês, com 96 anos. Ela foi partigiana, professora, escritora, jornalista, tradutora e grande política italiana. Já no dia 4 de outubro próximo passado, veio a falecer Carla Nespolo, com 77 anos de idade, que foi professora universitária de história e, também, grande política italiana, deputada pelo Partido Comunista Italiano (PCI) de 1976 a 1983 e senadora pelo mesmo partido de 1983 a 1992. Em sua longa, frutífera e inspiradora carreira parlamentar, Carla Nespolo foi relatora, dentre outras, de numerosas propostas de lei sobre os direitos da mulher e da paridade de direitos no campo do trabalho
Mais recentemente, e desde 2017, Carla Nespolo foi presidente da Associazione Nazionale Partigiani di Italia, a ANPI, uma importante e operosa entidade fundada por participantes da resistência italiana contra o regime fascista e a ocupação nazista. A ANPI tornou-se, nos dias atuais, uma extraordinária força, tanto na afirmação dos melhores valores humanísticos, como a liberdade, a tolerância, os direitos humanos e a democracia, como no combate à sempre presente ameaça fascista, que paira como um abutre sobre a civilização, e não apenas na Itália. A entidade congrega italianas(os) de todas as idades, com atuação nacional. Suas iniciativas têm grande alcance. Por exemplo, em 7 de julho de 2015, a ANPI promoveu ao céu aberto, na Piazza del Popolo, em Levanto, na província de La Spezia, Ligúria, uma concorrida conferência de um dos heterônimos dos autores, Durval de Noronha Goyos, sobre sua obra a respeito da participação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na libertação da Itália.

Carla Nespolo era considerada a alma do PCI. Nascida no final da Segunda Guerra numa família de partigiani e de antifascistas, ela foi a primeira mulher e não partigiana a presidir a ANPI e intensificou a missão da entidade de apoiar os altos valores da liberdade e da democracia. Ela sempre, e até seus últimos dias, se postou em primeira linha contra a intolerância e o fascismo. “Ser hoje antifascista significa ser contra o racismo, contra quem lucra da crise social para fazer regredir o país política, cultural e moralmente”, observou Carla Nespolo numa ocasião. Ela lembrou ainda, noutra oportunidade, de maneira realista e apropriada que, “sem a participação das mulheres, não teria sido possível fazer a Resistência”.

O Presidente da República Italiana, Sergio Matarella, em nota oficial, lamentou o óbito e declarou que a “morte de Carla Nespolo enlutece a República pela perda de uma fervente defensora dos valores da Constituição”. Ela se caracterizou, continuou o Presidente Matarella, “por suas posições, antes de tudo nos planos cultural, educativo e civil, pela oposição a todas as formas de violência, de xenofobia e de racismo”. Por sua vez, o secretário geral do Partido Democrático (PD), entidade italiana de centro esquerda, afirmou segundo publicado no periódico Avanti, que com o desaparecimento de Carla Nespolo, “a Itália inteira perde uma mulher extraordinária que sempre lutou pela liberdade, pelos direitos das mulheres, pelos jovens e contra todas as formas de desigualdade”.

Carla Nespolo (4.3.1943/4.10.2020), uma vida dedicada à promoção do humanismo.

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.