O Maligno mente na ONU

Diretamente da Itália, onde se encontra em missão científica de intensas pesquisas para avaliação das propriedades profiláticas e terapêuticas do vinho, em companhia do Beppe Molisano, o Poeta nos enviou o seguinte conto:

Por António Paixão

Não é a primeira vez que o Maligno visita a Organização das Nações Unidas (ONU), sempre na abertura de suas assembleias gerais, ocasião em que se delicia no falar em nome dos piores genocidas, devastadores, corruptos e, de outra forma, nefastas figuras da História. Essas são representadas por presidentes, primeiros-ministros, ministros, embaixadores e outras personalidades que lhe farão, no futuro, companhia num dos nove círculos dos infernos, segundo a descrição precisa do grande escritor italiano, Dante Alighieri, em A Divina Comédia, certamente inspirada pelos Céus. Por ocasião do início dos trabalhos da 75ª Assembleia Geral, lá estava o Melífluo novamente, incorporado na diabólica figura do presidente do Brasil. É certo que havia outras escolhas tanto possíveis como plausíveis, a começar pelo nefando Donald Trump, dos Estados Unidos da América (EUA), genocida do povo cubano, ou ainda o seu petulante mascote, o diabrete Boris Johnson, do Reino Unido.

Por méritos mais do que evidentes, todavia, o Maligno optou desta vez por se fazer ouvir pela triste voz e trôpega figura do mandatário brasileiro, firme candidato ao quinto (irosos), sexto (heréticos), sétimo (violentos), oitavo (rufiões, proxenetas, chulos) círculos do inferno, como aliás também o presidente americano ou o primeiro-ministro britânico. No entanto, o brasileiro é o único qualificado para o nono círculo, o dos traidores, conforme substanciosas opiniões e pareceres legais firmados pelos guardiões do inferno, Hades, o campeão das sombras, e Minos, o temido juiz do Abismo e do Averno.

Pois bem, no dia 22 de setembro de 2020, tomou a tribuna da ONU, em Nova Iorque, o Belzebu em pessoa, a endossar um elegante terno aparentemente cortado pelo alfaiate do Macedo, um outro diabrete, e a usar na lapela um broche não identificado. Uma densa, fétida, pestilenta e metífica nuvem de enxofre o acompanhava, por detrás como também por debaixo. Tendo aberto o Tinhoso Capetão a boca naquela cadência militar de baixa patente, expressa no inculto e iletrado dialeto caipira do português do Brasil, um hálito sulfúrico projetado com fragmentos de uma espessa baba esverdeada impregnou o recinto da organização multilateral. Nada disso, contudo, preparara o mundo para o discurso diabólico que se seguiu.

Para a estupefação geral, Satanás afirmou que seu governo não promovia a queima e a destruição sistemáticas das florestas brasileiras, de norte a sul, de leste a oeste. Por conseguinte, não morre a fauna do Brasil, nem menos as abelhas. Ao contrário, quando existentes, tais atos incendiários seriam de responsabilidade exclusiva dos indígenas e de nativos aculturados. Estas pretensas ações de ecocídio seriam propagadas mundo afora por uma imprensa tendenciosa e utilizadas para vilificar a imagem do Brasil no Exterior, por escusos interesses externos.

No tocante à Pandemia do Covid-19, não obstante os 150 mil mortos e 20 milhões de infectados no Brasil, o Demônio, que já havia assegurado ser a morte uma banalidade, uma vez que todos devem morrer, omitiu a inação governamental, a falta de testes da população, a inexistência de estatísticas, sua contrariedade aos procedimentos da Organização Mundial da Saúde (OMS), seu favorecimento à terapia com a cloroquina e com aplicações de ozônio via retal. Preferiu, fugindo covardemente à responsabilidade, transferir a culpa da sua desastrosa gestão aos juízes e governadores dos estados, quase todos seus aliados.

Mais ainda, Satanás vangloriou-se da pretensa e inexistente ajuda financeira de seu governo às populações brasileiras afetadas pela Pandemia, num montante quase 10 vezes superior à realidade e que fora aprovada por iniciativa Congresso, com a oposição das forças diabólicas parlamentares ligadas ao seu governo. Ademais, assegurou a todos a mais absoluta intolerância de seu governo com os crimes ambientais, de uma maneira geral, quando há uma política no sentido contrário, que é de conhecimento público e generalizado.

A percepção ao seu ver equivocada, pela opinião pública internacional, a respeito das ações de seu governo faria parte de uma conspiração nazi/fascista e, naturalmente, também comunista, levada adiante por forças sinistras inspiradas pela Cristofobia. Essas relutam em aceitar a religiosidade praticada no Brasil pelos seus honestos, laboriosos e íntegros pastores e pastoras, bispos e bispas, apóstolos e apóstolas, em seus templos tanto avessos ao lucro quanto dedicados ao bem estar espiritual da Nação.

Em reação à fala do Belzebu, o Papa Francesco declarou da mesma ocasião, no dia 25 de setembro de 2020, mediante vídeo, que era “perigosa a situação da Amazônia e de seus povos indígenas”. Acrescentou ainda o Papa que há dois caminhos possíveis após a crise atual: ou leva ao fortalecimento do multilateralismo, solidariedade e unidade; e outro daria “preferência a atitudes de autossuficiência, nacionalismo, protecionismo, individualismo e isolamento, deixando de fora os mais pobres, os mais vulneráveis”. O Papa já havia reiteradamente alertado que “o diabo é o pai da mentira, o mentiroso”.

A reação da comunidade internacional à fala do Tinhoso foi a pior possível. No mundo atual, os meios científicos, como os satélites, expõem as mentiras com relação às queimadas, bem como a atuação da imprensa demonstra em detalhes a triste realidade social no Brasil. O sentimento do homem comum hoje, mundo afora, é de profunda aversão e preocupação com a condução da política interna brasileira, com os diversos crimes perpetrados e com a ameaça ao meio-ambiente global. Esta aversão irá isolar mais e mais o Brasil e, tristemente, também os brasileiros. A economia irá sofrer mais e mais. Os investimentos continuarão a cair e a fuga de capitais, a aumentar.

Afinal, quem quer tratar com o diabo?

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.