Bolsodória e a essencialidade da canalhice

Novo conto do poeta.

Chovia a cântaros. A forte chuva tropical tamborilava sobre as sofridas calçadas do Bixiga, como copiosas lágrimas do povo brasileiro. Era ainda cedo, pelas 17:30 horas. Eu havia acabado de acordar e precisava tomar o meu pequeno almoço tradicional: pão na chapa e um café forte na tradicional Padaria Camões, situada a apenas poucos metros desde minha maloca. Tomei emprestado o chapéu de chuva de minha generosa vizinha, Dona Benedita, e arrisquei pegar um terrível resfriado, ou coisa pior, na chuva que caia sem dó nem piedade. Por segurança, coloquei minha máscara facial da Gaviões da Fiel, duplamente eficaz por ser a única que tem a proteção de São Jorge. “Não vá se esquecer de minha sombrinha, Poeta nefelibata”. Como é sabido por todas minhas infiéis leitoras, vivo realmente um pouco nas nuvens, da mesma forma que, por justificados motivos, tenho horror a água. Lembrem-se de que o grande Tchaikovski morreu ao beber um copo do malsinado líquido.

Isolei-me no balcão. O ambiente, normalmente lotado, estava praticamente vazio. Naquele momento, as pessoas anormais e com distúrbios comportamentais diversos já haviam tomado o café da manhã ou até mesmo almoçado. Os bêbados habituais ainda não haviam chegado para a feliz, aprazerada e recompensadora maratona do copo. Não se fazem bebuns como antigamente! Quel décadence, quelle horreur! Restaram apenas os seres normais: eu e mais um casal do outro lado, a compartilhar um sanduíche de mortadela. Enquanto aguardava o pão na chapa, iguaria feita com cura e perfeição na Padaria Camões, abri as notícias dos jornais do dia anterior, que me são regularmente enviadas pelo meu assessor de imprensa, o ocasionalmente confiável Ruy Nogueira.

Para meu desgosto, deparei-me com mais uma ocasião publicitária gerada pelo Bolsodória, o detestável governador do Estado de São Paulo, com o objetivo de se autopromover, sempre movido pelos mais escusos propósitos. Um pior que o outro. O evento do dia foi uma cerimônia no Palácio dos Bandeirantes para celebrar o reconhecimento, por decreto, das atividades essenciais das igrejas evangélicas, de maneira a livrá-las das restrições do fechamento, imposto por razões sanitárias às demais atividades. Estavam presentes numerosas lideranças evangélicas, num desalmado festival de sorrisos pérfidos, falsos e adulterinos.

Pareceu-me mesmo, para a desgraça nacional, que o execrável Bolsodória e o abominável Capetão de Coturno se lançaram mesmo numa competição de canalhices, um verdadeiro torneio dos horrores, em plena vista da opinião pública nacional. O objetivo declarado do decreto de Bolsodória é o de reconhecer a essencialidade de todas as igrejas no Estado de São Paulo e o seu funcionamento com regularidade, obedecidos os critérios sanitários de proteção aos que dela participam. Minha primeira reação foi a de indagar se os critérios sanitários de proteção numa situação de recolhimento da população não exigem o isolamento social, conforme determinação da Organização Mundial da Saúde. Ademais, lembrei-me que, segundo os budistas, o verdadeiro templo religioso é o coração de cada qual.

Foi quando me ocorreu que a questão não era de ordem religiosa, mas sim de caráter puramente comercial. Se os incautos não se dirigirem aos templos evangélicos, como então poderão eles ser espoliados pelos pastores? Porém, se a questão é comercial, por que então não abrir todo o comércio e a indústria? Por que não abrir igualmente as escolas, os clubes, as academias, os bares e os restaurantes, como também os templos de futebol, inclusive e principalmente o Itaquerão, santuário da mais profunda religiosidade corintiana? Por quê? Tudo, naturalmente, com obediência rigorosa a todos os critérios sanitários. Seria porque esses últimos não garantem os votos?

Explica-se o porquê da maracutaia: Bolsodória está atrás do numeroso voto evangélico para as próximas eleições presidenciais. Ele está habituado a comprar as pessoas e, por esta senda, deverá persistir na firme convicção de lograr sucesso na empreitada. Ilude-se quem pensa trata-se de mera bufonaria, uma canalhice ligeira, para obter maior exposição do que aquela buscada diariamente pelo burlesco Capetão Grotesco. Ao permitir que os pastores sigam firme em sua atividade comercial, na desbragada exploração da crendice popular, o canastrão paulista espera poder ter, como gorda comissão, o seu apoio eleitoral. Perguntei-me ainda até quando tal duelo de graves canalhices irá colocar em risco a saúde do povo brasileiro, já tão miserável e desassistido.

De fato, parece que, em Israel, os judeus ordodoxos têm o dobro da contaminação daqueles não religiosos, pela aglomeração resultante do descaso com o isolamento. Se tal situação é verídica, e parece que sim, potencialmente Bolsodória estaria a aumentar as possibilidades de contração do vírus do COVID-19, no momento em que as mortes dele decorrentes atingiram o extraordinário número de 260.000 vítimas no Brasil. No dia seguinte ao ato, 2 de março de 2021, morreram no País 1.700 pessoas, das quais 500 em São Paulo. Um recorde! Uma desgraça! Consequentemente, milhares de pessoas a mais poderiam morrer como resultado direto da sandice objeto do decreto da essencialidade da canalhice, que atenta claramente contra a saúde pública.

Não é por menos que o Brasil se tornou o infame campeão mundial de má gestão da crise pandêmica, para além da mais cruel insensibilidade humana! Em contrapartida, o Estado de São Paulo, nas mãos de seu conquistador de calçolas justas, cabelos tintos e mãos manicuradas, pagará o custo do primeiro prêmio de marketing político do ano: dois mortos por dez votos, a peso de muitos dinheiros. Como é um mago sedutor o nosso charmoso e sorridente governador!

Enquanto isso, no Planalto, entreouvia-se: “Espelho meu, espelho meu, há um canalha maior do que eu? Cassandro! Você viu a última do Gigodória? Carai! Não podemos deixar isso aí barato”!

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.