O capetão de coturno mata mais que bomba atômica.

Novo conto do poeta.

É sabido que dois dos mais cruéis crimes contra a humanidade jamais registrados foram cometidos pelos EUA com a explosão de bombas atômicas nas cidades de Hiroshima e Nagasaki em 6 e 9 de agosto de 1945, no Japão, as quais causaram a morte de 166 mil e 80 mil civis, respectivamente. O trágico total de 244 mil vítimas representa um número assustador e provoca o repúdio da consciência humanística mundial, em virtude do meio assolador utilizado pela primeira e única vez na história, e pela extensão da catástrofe ocorrida em poucos minutos do terror absoluto e devastador.
Passaram-se os anos e o Brasil, desgovernado por uma administração que, além de fascista, é incompetente, já registrou um número de 270 mil vítimas do vírus COVID-19. Esgotaram-se as unidades de terapia intensiva pelo País afora. O elenco do Timão foi contaminado em grande número. Pacientes morrem em casa, nos corredores dos hospitais, nas filas de pronto atendimento, nas ambulâncias, no transporte público, nas favelas e debaixo das pontes. Faltam covas nos cemitérios. Corpos são depositados em contentores refrigerados. Um horror dantesco.
O Capetão de Coturno negou a ameaça do vírus, combateu e ridicularizou o uso de máscaras, incentivou a aglomeração humana, repudiou as vacinas, acusou políticos que tentavam cumprir o seu dever e enjeitou a Organização Mundial da Saúde. Descontente com seu diabólico feito, mandou o povo tomar banho de esgoto, morrer silenciosamente sem reclamar, e sair às ruas para festejar a sua pessoa. Mito! Mito! Mito!
Como observou o grande escritor, Albert Camus, recipiente do prêmio Nobel de literatura de 1957, “um mundo sem amor é um mundo morto”. Foi para tal fim que se elegeu um presidente da República? Foi para trazer a mortandade, a desesperança, o desalento, o desassossego, o medo e o horror para a população do Brasil? Foi para omitir a empatia, a solidariedade, a preocupação, a afeição e a diligência? Ou foi para infringir danos maiores ao nosso povo do que faria uma cruel potência estrangeira em criminoso intento de subjugar a vontade da nação e apagá-la do mapa?
A consciência nacional repudia veementemente os malefícios do Maléfico Maligno e espera uma correção de rumos em caráter de urgência. Ela se afigura muito temerosa dos contornos que possa tomar a pandemia no Brasil. Teme-se, por demais, as graves consequências ainda mais desastrosas para um povo já submetido à maior desigualdade social que se registra no mundo, a qual é vista com indiferença, descaso e desprezo por seus desalmados governantes do momento.
Enquanto isso, eu me encontro recolhido em isolamento na minha confortável maloca no Bixiga. Tenho pavor de sair à rua e meus dias são passados a ler e a escrever. A Padaria Camões manda me entregar o meu pão na chapa todos os dias, logo à primeira hora da manhã, às 15:00 em ponto. Até mesmo liguei no dia de ontem minha televisão portátil só para ver o Lula no Jornal Nacional. Até que enfim, começou a ser feita justiça. Ótimo. O começo é apenas um princípio. Desliguei a TV em seguida. Aff! Ninguém merece. Muito menos, eu.
Uso máscara facial até para olhar pela janela afora com o propósito de dizer boa tarde aos pássaros imaginários. Acabou o meu limitado estoque de rum cubano e estou à espera de novas, generosas e abundantes doações, pois não desejo ser forçado beber o meu álcool em gel com gelo, limão e uma folhinha de hortelã do vasinho ecológico da maloca. Por outro lado, sou imensamente grato à companhia de Gigi e do meu gato preto e branco, o genial craque felino, de nome Rivellino, sem a qual estaria no limite de minhas parcas e já exauridas forças físicas e psicológicas. Oro a São Jorge Guerreiro para não abandonar o nosso sofrido povo brasileiro e sua mais gloriosa expressão, o querido Timão.

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.