O Confinamento, o Poeta e os 99 Anos do PCdoB.

Novo artigo do poeta, 18 de março de 2021.

Era mais uma tarde de confinamento sanitário. O Vate da Gaviões estava na janela de sua maloca no Bixiga, pensativo a contemplar a monótona queda das águas de março de 2021, a encerrar aquele verão desgraçadamente pandêmico. A Nação sofria pelos efeitos do vírus, e pela gestão da saúde pública e econômica do desgoverno do inferno do Capetão de Coturno. Mais de 300.000 mortes assombravam o Brasil. O colapso dos hospitais causava situações dramáticas em todos os quadrantes do País. Amedrontado, o povo se refugiava nas residências, a sofrer e testemunhar a fome das crianças. O cruel desgoverno fascista optou por apoiar os bancos ao invés de subsidiar a renda dos pobres e dos pequenos empresários. Um horror inédito na história do Brasil!

O Poeta havia recebido um cesto dignidade (ad dignitatem) de seu assessor de imprensa, o jornalista nababo Ruy Nogueira, com um bilhete nos seguintes termos: “Paixão, para mitigar o sofrimento da Gigi, que bravamente enfrenta o confinamento em sua companhia. Coitada”! Gigi Dell’Amore é a sua mulher, que veio para a casa do Bardo com o toque de recolher. A sorveteria dela, a Gelateria Napolitana, ali perto, estava fechada por razão do isolamento, e ela sem nenhuma renda e com todas as despesas. O Bardo do Bixiga permanecia solidamente em sua situação habitual de estado de necessidade absoluta. Como escreveu Dante Alighieri: “não há dor maior do que a de recordar dos tempos felizes na miséria”.

No cesto ad dignitatem, o Ruy mandou arroz arbóreo para risotto, diversos pacotes de macarrão, muitos vidros de molho de tomate, queijo parmesão legítimo, molho de trufas (?!), azeitonas, açafrão, paté de atum, atum em lata, alici em lata, feijão branco em lata, feijão marrom em lata, cogumelos porcini secos, queijo caciocavallo, queijo gorgonzola, sardinhas em lata, farinha Molisana para pizza, ervilhas em lata, grão de bico em lata e outros itens assemelhados. Tudo italiano, já que Gigi é nascida na gloriosa Nápoles. Vieram também duas (tudo isso?!!!!!!) garrafas do vinho Badia a Coltibuono, dos vinhedos mais altos da Toscana.

Imediatamente, após enviar uma mensagem de agradecimento ao Ruy pelo WeChat, Gigi foi compartilhar o cesto com a Comadre Benedita, nossa vizinha, que estava também com sérias dificuldades econômicas, para além de deprimida. Ela estava preocupada com seus parentes trancafiados em São José do Rio Preto, triste cidade bolsonarista, com um dos maiores índices de contaminação do País e a enfrentar o colapso dos serviços médicos e hospitalares. Tendo em vista o conteúdo do cesto, a Comadre apenas comentou: “Bela iniciativa. Da próxima vez peça ao seu amigo mandar comida de verdade”.

Na continuidade de sua meditação, o Poeta lembrou-se do aniversário do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Em sua história de 99 anos, o PCdoB sempre esteve na vanguarda das lutas democráticas e na defesa da justiça, do estado de Direito, dos direitos humanos, da soberania brasileira, do bem-estar do povo e do desenvolvimento econômico e social do País. Foi assim na década de 1920 e também na década de 1930. Na década de 1940, foi uma das principais forças a mobilizar a Nação contra o nazi-fascismo. O PCdoB foi um dos protagonistas na Constituinte de 1946 e também na de 1988. Opôs-se aos golpes, à ditadura militar de 1964 e liderou a consciência democrática brasileira. O PCdoB tem 99 anos de serviço ao povo e à democracia brasileira. “Não há democracia sem o PCdoB”, bradou com sua reconhecida autoridade moral o Bardo do Bixiga, diretamente da janela de sua maloca, feita tribuna da liberdade.

Na profunda ponderação intimista do Poeta da Fiel, o socialismo promoveu internacionalmente o interesse do povo e da justiça. O Vate recorda sempre a situação da República Popular da China, fundada em 1949 pelo Partido Comunista Chinês, de Mao Zedong. Naquele país foi restaurada a dignidade nacional perdida por anos de ações imperialistas e capitalistas. Ademais, o PCC colocou o país numa formidável rota de prosperidade econômica, de desenvolvimento social, de erradicação da pobreza e da cooperação internacional.

A vacina que hoje estamos a tomar no Brasil é proveniente da República Popular da China e é comunista, refletiu o Poeta. Esta importante imunização em mais de 10 milhões de brasileiros, até o momento, nos foi disponibilizada pela China em detrimento da sua própria população. O povo brasileiro agradece à China pela ação solidária. Por outro lado, os EUA, de maneira desgraçadamente típica, nem pensaram em seguir o exemplo da China.

Da mesma maneira, em Cuba, o Partido Comunista de Fidel Castro acabou com o cruel regime títere dos EUA, que exercia o poder em favor da Máfia, de umas poucas empresas estrangeiras, e seus serviçais locais, em detrimento do próprio povo. Cuba erradicou o analfabetismo em um ano; promoveu a prosperidade geral; restaurou a dignidade do povo cubano; adotou uma das constituições mais avançadas do mundo no âmbito do direito comparado; e encetou ações de solidariedade internacional mundo afora, apesar do infame bloqueio dos EUA.

O governo comunista de Cuba desenvolveu suas próprias vacinas contra o COVID-19, ao contrário das empresas brasileiras de livre mercado. Por sua vez, o desgoverno bolsonarista, mais interessado em atender aos reclamos do setor financeiro, não encorajou o desenvolvimento autóctone da vacina e não procurou cooperar com Cuba neste processo. Se o tivéssemos feito, teríamos provavelmente ao alcance mais uma vacina hoje desesperadamente necessitada pelo Brasil. Por que é mesmo que o governo brasileiro até agora não se interessou na compra da vacina cubana?
Pois bem, continuou o Poeta do Timão em sua profunda introspecção, neste momento em que nuvens sombrias se erguem no Brasil, com o recrudescimento das nefastas ações fascistas detrimentais à democracia e aos interesses da Nação, o PCdoB ergue-se novamente na defesa de nossos melhores valores democráticos e dos direitos humanos e sociais. Com o quadro agravado pelo fascismo bolsonarista, pela desastrosa gestão de uma terrível pandemia, pelo corporativismo e pela corrupção institucional do setor financeiro e de setores do judiciário e da política, o PCdoB apresenta propostas e ações importantes para o futuro do povo brasileiro.

Em conclusão às suas considerações, o Vate da Gaviões declarou aos quatro ventos que “para comemorar comme il faut a efeméride do PCdoB, aguardo de minhas infiéis leitoras, e de meus generosos (?) amigos, a caridosa e obsequiosa doação de algumas caixas de vinho tinto português, italiano, argentino ou sul-africano. Nada de vinho inglês ou americano, por favor. Ninguém merece. Agradeceria também algumas caixas do rum cubano, sem o qual a vida se torna mais triste. Às mais generosas prometo, mas sem garantias, um desconto de 1% no preço de capa de meu novo livro, Annus Horribilis– 2020, a ser lançado em abril”.

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.