O poeta e a vacina da China.

Dedicado à memória de Haroldo Lima.

Estava o Poeta entocado em sua maloca no Bixiga. Fazia um calor de 32 graus no fim de tarde tétrico na Paulicéia desesperada. Naquele momento, o País ultrapassava os 300 mil mortos como resultado do devastador do vírus COVID-19 e da incompetência do desgoverno do Averno na gestão da pandemia. Sua mulher, a Gigi Dell’Amore, cantada em carne e osso, como também em prosa e versos, havia saído para comprar tremoços, segundo ela nutritivos e baratos. Com a prometida ajuda financeira do governo federal no valor de R$150,00 por mês (sic), agora o casal já podia até mesmo comprar fiado. Que maravilha, a generosidade do Capetão de Coturno ao proporcionar a morte a conta-gotas do povo brasileiro! Foi ideia própria e apoiada con gusto allegro e vivace pelo Posto Ipiranga. Que estadistas têm o Brasil! O Vate preferiria receber a sua parte em vinho, mas a severa Gigi o mandou parar de falar bobagens e levar a vida a sério.

“É o que sempre faço, desde que tenha um copo de vinho à mão, Gigi”, respondeu o Menestrel da Gaviões avec panache.
“Vaffanculo, stronzo, poeta di merda”, observou por sua vez a temperamental Gigi, em sua língua nativa, o italiano, sem apreciar a refinada lírica do Trovador do Timão.

Foi naquele momento que o Poeta recebeu pelo seu celular Xiaomin a notícia que seria vacinado no dia seguinte com a Vacina Chinesa, a CoronaVac. Ele ficou emocionado. O longo período de recolhimento, o isolamento social e as más notícias diárias do Brasil pandêmico e desgovernado como despojada nau errante a soçobrar, tinham afetado o seu estado de espírito. A abstinência vinícola relativa também havia contribuído, é certo, para dizer a mais pura verdade. Ele tinha uma sensação de que o tempo havia parado no meio do pesadelo, sem permitir o despertar, o regredir e tampouco o avançar. Percebia-se paralisado no horror.

Foi neste momento que o Bardo do Bixiga se lembrou dos inspirados versos de seu querido colega português, de saudosa memória, o grande, único e insuperável Miguel Torga:

ADÁGIO
Miguel Torga

“Tão curta a vida e tão comprido o tempo!…
Feliz quem não o sente.
Quem respira tão fundo
O ar do mundo.
Que vive em cada instante eternamente”.

Por associação de ideias, o nosso Trovador refletiu que, não fosse pela ciência e pela generosidade da República Popular da China, de seu povo e governantes, sua vida e a de milhões de brasileiros certamente teria sido encurtada pela disseminação inexorável do vírus. A China desenvolveu sua própria vacina e a disponibilizou a muitos países, em detrimento de parcelas substanciais da própria população, inspirada pelo sentimento de cooperação internacional. Dentre estes países, está o Brasil, cujo presidente, um emissário dos infernos, o Capetão de Coturno, ofendeu a nação e o povo chinês. Nisso foi acompanhado do sicofanta, seu imbecil ministro das relações exteriores e campeão das cretinices, o tremendamente execrável terraplanista, Ribbentrop dos Trópicos.

Assim, o Poeta fez questão de escrever uma mensagem de agradecimento ao governo e ao povo chinês, a qual foi imediatamente enviada pelo aplicativo Wechat. Ele quisera que todo o povo brasileiro tivesse a mesma atitude, por pensar que a memória do coração se chama gratidão. De fato, o Brasil ficou com o pires na mão esperando dos EUA uma ação. Na mensagem ao povo chinês, ele citou um poema de seu velho amigo, o grande escritor e poeta chinês, Yuse Fajin, membro da União de Escritores da China e residente em Beijing, onde é professor universitário. Os versos são sobre o tempo e o vento, temas recorrentes na poesia clássica chinesa, da qual Fajin é um notável e entusiasta especialista:

BANDEIRA VERMELHA
Yuse Fajin

Ventila a brisa…
vermelha.
Sopra o vento…
vermelho.
Vêm do Leste.
Para afastar a peste
da maldade,
e trazer a equidade,
o bom tempo
da Justiça e da amizade
.

António Paixão on EmailAntónio Paixão on Facebook
António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.