O Poeta canta Goethe, Brecht e Suassuna.

Novo conto do Poeta.

Era profunda madrugada quando o Poeta sentiu-se chacoalhado vigorosamente. O relógio da cabeceira indicava insalubres 14:30 horas daquela sexta-feira, dia de jogo do Timão pela Copa do Brasil. O violento despertar ademais interrompia um sonho no qual ele degustava uma caixa de garrafas de Quinta do Caleiro Reserva, doce bálsamo da cepa Touriga Nacional, do Douro. No devaneio, o Douro tinha sido um presente daquele parcimonioso seu compatriota, o Comendador António dos Ramos, presidente da Casa de Portugal. Certas situações só ocorrem no etéreo mundo de Morfeu! O despertador tinha sido sua mulher, a ocasionalmente sublime Gigi, desta feita com cara de poucos conhecidos e de nenhum amigo.
“Per Bacco! Svegliati, vate di merda”, foram suas, tanto contundentes, quanto estimulantes palavras.

O seu primeiro pensamento foi que teria sido melhor se a doce Gigi tivesse usado os suaves dizeres do tenor e compositor toscano, Andrea Bocelli, em Mille Lune, Mille Onde: “Svegliati amore mio, che la notte è già passata…” Porém, nada o nosso Menestrel comentou porque a ameaça do rolo de macarrão paira sempre sobre a sua pobre e onerada cabeça. Un orrore!

Mal abriu os dois olhos, porque mantinha um deles fechado por segurança, prosseguiu a Gigi com o vozeirão estentóreo do Ernesto Teixeira, o puxador e intérprete da formidável Escola de Samba Gaviões da Fiel: “Passione, telefonou o Inácio Carvalho, seu editor no Portal Vermelho. Disse que precisa falar com você urgentemente, ainda que fora do seu horário. Che vergogna! Já são duas e meia da tarde”.

“Melhor dormir do que matar o povo brasileiro, como faz o Capetão de Coturno todos os dias, ao diabólico ritmo de 4 mil pessoas por jornada”, respondeu o Bardo do Bixiga agora também traumatizado pela falta das garrafas que lhe apareceram apenas em sonho. “Como é dura a realidade”, ainda pôde observar filosoficamente ao pegar logo no telemóvel, antes que maior injustiça lhe fosse ministrada, por meio do rolo de macarrão.
“Boa madrugada, Inácio. Qual é a emergência que devo atender neste insólito e desumano horário?”, foi logo disparando o Poeta.

“Olá Paixão. Tudo bem? Trata-se de uma boa oportunidade para si. Ligou-me o meu estimado amigo, Manoel Rodrigues, editor do Avante, de Lisboa, Portugal. Ele pede um poeta para entrevistar o famoso banqueiro Luís Felipe Gastão de Toledo Pisa e Vidigal III, presidente do importante banco brasileiro, o Novo Kool, Brazil (NOKOOL Brazil), com sede na Av. Faria Lima, em São Paulo, você o conhece? O serviço vem remunerado. Pensei logo em si pois, embora não especializado, é muito necessitado”,

“Oxente, como teria dito meu querido colega e amigo, Ariano Suassuna, de saudosa e festejada memória. Estou mais que necessitado, isto lá é verdade. Quanto ao indivíduo em questão, conheço o menos que posso, Inácio. Por outro lado, sei onde fica o logradouro Faria Lima. É uma avenida metida a besta”.

“Vate, o Manoel é também um amante da literatura e é da opinião que apenas um poeta poderá entender a mente pervertida dos banqueiros brasileiros, empresa que está fora do alcance até mesmo da psiquiatria”.

“E o que tem isso a ver com a literatura, Inácio? Parece-me uma questão mais afeita ao direito penal, com toda a sinceridade”.

“É que o Manoel leu Fausto, de Johann Wolfgang Goethe, e ficou intrigado com a situação descrita no segundo ato da obra. Ali, Goethe discorre sobre a situação do Estado, em meio à desordem, a corrupção e as mortes. Sofre o povo, o comércio e a indústria. Os militares exigem sua paga e os cofres do tesouro estão vazios”.

“Realmente, Inácio. Percebo o paralelo com o Brasil de nossos dias. E daí?”.

“E daí, Paixão, é que, naquele trecho, aparece o Mefistófeles vestido de bufão, a apontar a origem de todos os problemas e oferecer a solução de maneira a contentar a todos. ‘Onde neste mundo não falta algo? A um falta isso, a outro falta aquilo. Pois bem, aqui falta o dinheiro …’”
“Sei…”

“Só que Mefistófeles não deu uma resposta precisa”, continuou o Inácio. O diabo apenas observou que “buscarei o quanto desejarem e mesmo mais. Nenhuma dúvida: a coisa é fácil, mas de uma facilidade difícil. Está aqui mesmo, ao alcance da mão, mas se deve apanhá-la ’”.

“Hahahaha. E era de se esperar que Mefistófeles entregasse o ouro sem mais nem menos? Pois quando Fausto vendeu sua alma ao Satanás, nem mesmo assim foi lhe explicado o funcionamento da economia”, observou o Trovador do Timão. “Segundo o insuspeito depoimento de Bertoldt Brecht, o Capeta teria apenas dito que não existem super-homens capazes de compreendê-la, pelo que alguns desejaram simplificá-la e outros, acrescento eu, como o Capetão de Coturno, a ignorá-la”.

“Exatamente, Bardo. Você deverá descobrir do banqueiro os segredos de onde está o dinheiro, como se faz para apanhá-lo e para que fins utilizá-lo”.

“Se o próprio Mefistófeles não revelou o segredo, como é que o banqueiro, que é muito pior que o capeta, irá me fornecer o mapa da mina”?
“É aí que entra o jornalismo investigativo e a insidiosa malícia de bebum, Poeta. Você tentará descobrir ou, ao menos, esclarecer o quadro. Como o seu amado Brecht já observou, ‘a pobreza lhe faz triste e, ao mesmo tempo, sábio’. O respeitável jornal português, nosso coirmão, lhe pagará um mil Euros pela matéria”.
“Um mil Euros? Fechado!”

É para a próxima quarta-feira, dia 7 de abril, Bardo do Bixiga. Não se esqueça”.

“Não me esquecerei. Obrigado pela atenção, meu querido amigo Inácio. Saudação alvi-negra: Vida, Pão, Vacina e Educação! Força Timão!”
“Abraços, Poeta”.

Terminada a conversa, notei que Gigi estivera a observar nosso diálogo, do outro canto da maloca.
“Por mil Euros, Poeta, você daria até mesmo o fiofó, Hahahaha”, observou a Gigi Dell’Amore, já de bom humor.
“Eu não mereço…”, respondeu melancólico o nosso Vate da Fiel .

Goethe, Johan Wolfgang, Faust, edição bilíngue alemão/italiano, Biblioteca Universale Rizzoli, Milão, linha 4890 et seq. , página 381. Tradução por António Paixão.
Goethe, Johan Wolfgang, op. cit., linha 4927 et seq. Tradução por António Paixão.

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.