Deus convocou Maradona

Texto em homenagem ao jogador Argentino.

É sabido que Deus gosta de convocar seus conselheiros na data de 25 de novembro. Já havia chamado a Fidel Castro naquele dia em 2016 e repetiu a dose em 2020, convocando precocemente a Maradona, o grande, talentoso e esclarecido futebolista argentino, desesperado com os rumos que toma a Humanidade e com a escória humana que usa o Seu nome em vão, como nos templos mercantilistas do Brasil. A gota d’água, dizem aqueles que são a Ele próximos, foi a declaração do vice-presidente do Brasil, o General Hamilton Mourão, de que “não existe racismo no País”. Ora, a existência do racismo no Brasil é de uma evidência solar. O racismo impulsionado pela infame escravidão permitiu que o ethos nacional brasileiro seja insensível à miséria alheia. Como, de outra forma, explicar dentre nós a institucionalização da miséria, da esqualidez, do desalento, da doença e da fome? Digo miséria alheia porque aquela dos ambientes corporativistas, clientelistas e familiares das classes privilegiadas é absolutamente intolerável.

Como pode uma pessoa com o mínimo de hombridade, integridade e honestidade moral proferir tamanho disparate? Ainda mais se o homenículo ocupa a posição de vice-presidente da República? Contudo, tal desatino não é um ato isolado neste desgoverno do Capetão e integra um elenco de ações criminosas, para além das contrárias aos pretos, contra a cidadania, contra as mulheres, contra as populações indígenas, contra o meio-ambiente, contra a saúde pública, contra a economia popular, contra os interesses nacionais. Estas ações são deliberadas, dolosas, e visam a recriação de um Estado fascista escravagista no qual setores privilegiados terão a prosperidade dos poucos em detrimento dos muitos. Essas não devem ser confundidas com aquelas ações que refletem incompetência, como a perda por decadência da validade dos necessários testes contra o COVID-19, a ressurgir com virulência neste momento.

Tais medidas de imposição da ordem capitalista fascista contra o povo brasileiro causaram um retrocesso enorme nos indicadores econômicos e sociais do Brasil. Segundo o insuspeito Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil atingiu em 2020 o menor nível de ocupação em quase 30 anos e que mulheres, pretos e pardos são os segmentos populacionais mais afetados. Em maio deste ano, pela primeira vez na história, o nível de ocupação da força trabalhadora ficou abaixo dos 50%. Mais de 1 milhão de empregos formais foram perdidos em 2020! O problema deve se agravar mais ainda nos próximos meses, em decorrência da gestão tanto inconsequente como temerária da economia brasileira, acumulada com os efeitos de uma segunda onda do COVID-19, sem que o desgoverno tenha até agora apresentado um plano de vacinação contra o vírus.

Em muitos sentidos, o Brasil parece ter regredido não apenas 30, mas 70 anos, o que me remete para o ano de meu nascimento, 1951, quando um respeitado Estadista, Getúlio Vargas, era Presidente da República. A economia brasileira crescia a dois dígitos, novas empresas eram abertas diariamente, novos empregos eram criados, as escolas públicas eram referência nacional e inúmeras ações eram tomadas em prol da cidadania, as quais, muitas vezes então incipientes, frutificaram no correr dos anos. No ano em que vim à luz, o brasileiro tinha esperança no futuro, embora minha expectativa de vida ao nascer fosse de apenas 48 anos. É certo que esta previsão foi alterada com o correr dos anos, pela melhor alimentação, educação pública e cuidados de saúde promovidos pelo Estado.

Em 2015, esta esperança de vida do brasileiro chegou aos 75 anos, mas parece claro que, em função dos efeitos do desastroso desgoverno do Capetão Bolsonaro, tem ela regredido de maneira dramática. Assim, e como consequência, temo que eu já tenha excedido o meu prazo de validade neste mundo e, por sua caducidade, esteja pronto eu também a ser convocado por Deus para reforçar os quadros daqueles que buscam a verdadeira Justiça, como Fidel e Maradona.

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.