Dilminha, a abelhinha rainha Jatiá e o Poeta.

Novo conto do Poeta:

Acordei cedo naquele dia. Eram as 12:45 horas da manhã. Estava ansioso por participar da carreata pelo impedimento do Inominável Celerado. Tinha planejado pegar uma carona na Lambreta do Beppe Molisano para estar presente no meritório acontecimento. Como acontece normalmente aos sábados, fui me lavar no tanque multiuso de minha maloca, usando minha caneca de alumínio, que serve também para tomar o café com vinho do Porto, uma combinação imbatível. Estava incomodado com a insólita sensação da água no meu corpo quando ouvi, mais do que uma voz estridente, uma azoina:

“Cuidado aí, Poeta, você está a derramar água na minha colmeia”!
Era a Rainha Dilminha, da colmeia de abelhas jatiá instalada ao lado do tanque, na minha maloca, depois que a fúria de agrotóxicos do desgoverno do Obsceno Melífluo desencadeou um verdadeiro genocídio na população de sua classe. Apesar da modéstia de minhas instalações, ao menos sua colmeia estava protegida do pior, em meio aos vapores dos bálsamos vinícolas sempre presentes em casa.
“Desculpe, Rainha Dilminha, estava distraído e, realmente, derramei água. Que horror! Se ao menos fosse vinho! Ahahaha”.
“Péssima desculpa, seu poeta de meia-tigela, exijo maior cuidado e atenção de sua parte. Não é porque nós, Jataís, somos desprovidas de ferrões, que você pode abusar. Podemos entrar na sua boca e nas suas narinas, dentre outros orifícios mais recônditos, com a maior facilidade. Esteja advertido”.

“De acordo, Rainha Dilminha, respondi arrepiado nas partes baixas. Peço desculpas. Sinto-me atordoado por ter acordado cedo, sou atabalhoado e estou um pouco apressado porque devo ir à carreata pelo impedimento do Mefistófeles Caipira, organizada pelas forças democráticas brasileiras”.

“Eu e minhas abelhas obreiras também iremos à carreata e não estamos a derrubar própolis pela sua maloca o que, por sinal, seria muito benéfico para a necessária desinfecção do ambiente. Em particular, as suas sandálias xô boi estão com cheiro de bode velho”.
“Vocês irão à carreata”?!? Respondi, voltando ao que interessava.

“Sim, Poeta. Nós também, as abelhinhas, temos agudo interesse na remoção legal do Inominável Monstrengo e da restauração plena do estado de Direito no Brasil, onde os interesses do povo, fauna, e da flora estejam protegidos, como dispõe nossa Constituição. Nós, as abelhinhas, também temos assento constitucional”!

“É verdade, Rainha Abelhinha, digo Rainha Dilminha. Eu sou plenamente solidário à vossa causa, que é o pleito de todos nós. Não ofereço uma carona a vocês, porque irei na Lambreta vermelha 1969 de meu amigo, o Beppe Molisano, aquele italiano degenerado”.
“Não é preciso, gentil Bardo do Bixiga. Nós temos asas e podemos voar. Que tal se fizermos uma escolta voadora à vossa Lambreta. Será um sucesso nas mídias sociais. Você já pensou no efeito”?
“De fato, Rainha Dilminha”.

“Poeta, eu já imagino as manchetes: ‘Rainha Dilminha das Jataís abre carreata contra o Satanás de Coturno,’ ou talvez ‘Rainha Dilminha das Jataís lidera demonstração contra o Capeta, pela preservação do meio ambiente’, ou mesmo ‘Rainha Dilminha das Jataís protesta contra o genocídio do povo brasileiro’; ou ainda ‘Rainha Dilminha das Jataís conclama pela preservação da saúde do povo brasileiro e pela educação pública’. Tenho outras sugestões, todas válidas. As interessadas podem me procurar”.

“Muito bom, Rainha Dilminha. Aceito com prazer. Peço preparar o seu enxame, que o Beppe está por chegar”.
Naquele momento, bateram na porta da maloca. Fui abrir e era o Tião da Fiel, o digno, eficiente e respeitável representante da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, cuja imagem está sendo atacada pela difamação do desgoverno do Desgraçado do Averno, com o objetivo de privatização. Deixou-me um envelope encimado por um belo selo da República Popular da China, com uma imagem da Grande Muralha. O remetente era o meu amigo, Yuse Fajing, de quem não tinha notícias há tempos.

Yuse Fajing é um professor universitário de direito internacional em Beijing, hiperbólico apreciador do Motai e, no Brasil, da caipirinha. Ele também é um poeta e destacado membro da União de Escritores da China, organização sabiamente orientada pelo Partido Comunista Chinês. Yuse Fajing logo se destacou na entidade por haver decorado toda a poética do Grande Timoneiro, Mao Tse Tung, incluindo o índice respectivo. Ele é autor de celebrados poemas de amor, frequentemente mal direcionados, mas sempre bem-intencionados.

Ao abrir o envelope, a Rainha Dilminha veio então irreverentemente se acomodar no meu ombro esquerdo, sempre ciosa de suas posições, apesar de toda curiosidade quanto ao conteúdo. Dentro, deparei-me com apenas uma página em que vinha sacramentado o seguinte poema:

CLOACA MÁXIMA.

Por Yuse Fajing

Curuzu de urubu.
Merda infecta de jacu,
Fétida borra de tatu,
Esterco de zebu,
Pútrida caca de tiú,
Titica de cururu e
Dejeto vil.
FORA BOLSOBOSTA,
Para o bem do Brasil.

Enquanto a Rainha Dilminha emitia fortes zumbidos de aprovação, eu observei:
“O danado do Yuse Fajing, talentoso poeta chinês, tem uma correta avaliação da situação política do Brasil, para além de ser um admirador de nossa fauna”.

“Bora, Vate do Timão, partiu para a carreata de protesto no Ibirapuera”!
“Allons enfants de la Patrie,
Le jour de gloire est arrivè…”

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.