A anta melíflua, a vacina e o jacaré

Novo conto do escritor em 20 de janeiro de 2021, São Paulo.

Naquela cálida manhã de verão estava eu em minha maloca no Bixiga, descalço de ânimo, devastado e deprimido pela derrota sofrida pelo Timão perante aquela agremiação da Barra Funda, quando me sobrevieram tristes lembranças de quando revoavam os pássaros pelos cinzentos céus da Paulicéia. Triste, melancólico e saudoso, dirigi-me ao Ibirapuera para rever minha goiabeira favorita. Como companhia, levei a garrafa do esplêndido rum cubano Santiago, que havia ganho do Embaixador Pedro Monzón, em reconhecimento aos meus versos homenageando o espírito de solidariedade internacional que orienta Cuba. Vesti uma bela guayabera, com um Cohiba no bolso, e calcei as sandálias sertanejas, conhecidas por xô boi e celebradas por Lampião e seus cangaceiros, no tamanho 46, que me foram presenteadas pelo meu amigo, Aldo Rebelo, poeta das Alagoas.

Arrastei minha ruinosa carcaça até o parque, o que só aumentou a minha sede de camelídios. Um opressivo ar cálido e calmoso pairava sobre o local. Ao rever minha querida goiabeira, elogiei sua graça e formosura, porque as árvores são sabidamente muito vaidosas, e falei um pouco sobre o tempo úmido e quente destes dias, um de seus tópicos favoritos de conversação. Para aqueles que ainda não sabem, é importante conversar com as árvores e plantas, tanto para elas como para nós mesmos.

“Querida Goiabeira, agora que já batemos este papo agradabilíssimo, gostaria de subir nos seus galhos, para um processo de profunda reflexão. Peço licença”.

“Caro Poeta, quando lhe vi com esta garrafa de rum cubano Santiago em mãos, logo me apercebi que o seu propósito era sério, firme e determinado. Hahaha”.

“De fato Goiabeira, eu gostaria de refletir sobre as monumentais cagadas feitas pelo Sinistro com relação à vacinação do povo brasileiro contra a COVID-19”.

“Veja bem, Poeta. O Melífluo é um genocida de árvores, de animais, das abelhinhas, dos índios, dos negros, das mulheres e dos demais componentes do povo brasileiro. Eu tenho pranteado muito a destruição de nossas florestas e a morte de tantas companheiras minhas”.
“De fato, Goiabeira”.

“Então, caro Poeta, eu sinceramente não vejo o que resta para reflexão. Os fatos estão todos à nossa frente e são irretorquíveis, pela evidência solar”.

“É verdade, querida Goiabeira. Até mesmo o Tribunal Penal Internacional (TPI), com sede em Haia, finalmente abriu uma investigação contra o Melífluo por genocídio. Demorou. Foram diversos pedidos sendo o primeiro deles o formulado pela digna e gloriosa União Brasileira de Escritores (UBE) em 2016, por apologia à tortura”.

“E então? Esta reflexão sua é apenas um pretexto para deitar goela abaixo o rum cubano? Hahaha, Poeta, você é um grande bebum. O seu médico sabe que você está aqui em má companhia? Hahaha”.

“É segredo de Estado, Goiabeira. Nem fale naquele são paulino sacana. Ele nem desconfia que o seu time esteja apenas esquentando a liderança do Brasileirão para o Timão”. “Hahaha”.

“Hahaha”.

“Sabe, Goiabeira, eu queria refletir sobre a questão das vacinas, esperança do povo brasileiro e também da Humanidade para enfrentar esta terrível praga pandêmica que está a nos destruir, o vírus COVID-19”.

“Parece que o Brasil ficou para trás, não é mesmo querido Bardo do Bixiga”.

“Sem dúvida. Como é que o Brasil não desenvolveu a própria vacina e depende de terceiros, que têm naturalmente por prioridade as respectivas populações? Seguramente, temos tecnologia para isso. Sem ter desenvolvido a vacina, nosso governo menosprezou sua utilidade, por mais absurdo que possa parecer. O presidente Mefistófeles alertou ao povo que os vacinados poderiam ser transformados em jacaré. Mais ainda, o governo do Brasil ofendeu o nosso fornecedor, pela boca do próprio Melífluo, do seu ministro o trôpego Ribbentrop dos Trópicos, e pela boca do diabrete, que o acusou de ‘inimigo da liberdade’”.

“Caro Poeta, realmente uma tamanha estupidez é inimaginável, ao menos que seja realmente obra do Sinistro, como você bem diz”.
“Querida Goiabeira, e tem mais. O governo de merda do Brasil votou contra a abertura das patentes das vacinas na OMC, abandonando a Índia, quem propôs a moção e nossa aliada tradicional em questões multilaterais comerciais, para apoiar os interesses das indústrias farmacêutica, que não têm como atender aos mercados. E por mais bizarro que possa parecer, justamente a Índia é o fabricante alternativo para a vacina da China”.

“Que cagada”!

“Exatamente. E agora não temos como atender as necessidades e as justas expectativas do povo brasileiro”!

“Que governo de bosta”!

“Não vai durar muito este governo, querida Goiabeira. A voz do povo irá derrubá-lo”.

“Espero, sinceramente, Poeta, pois o Brasil não aguenta mais”!

“Agora, querida Goiabeira, peço licença para subir nos seus galhos para prestar minha homenagem ao rum cubano, conquista civilizatória daquele povo maravilhoso”.

“Fique à vontade, mas não vá cair lá de cima, Poeta”.

“Se cair, estarei anestesiado”.

António Paixão on EmailAntónio Paixão on Facebook
António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.