Elogio da própria loucura ou genocídio da poesia?

O Poeta, num raro episódio de lucidez etílica, denuncia o genocídio da poesia no Brasil.

ELOGIO DA PRÓPRIA LOUCURA OU O GENOCÍDIO DA POESIA.

Eu costumo pedir às minhas legiões de infiéis leitoras que não entendam ou confundam minha lucidez com minha embriagues; os meus vícios com as minhas virtudes; a loucura do Poeta com a visão do profeta; a sabedoria de Platão com a obtusidade do Mourão; amor da mãezinha com uma garrafa de ginjinha; a avidez do banqueiro com a simpatia do padeiro; a titica do pavão com a glória do Timão; a lírica do Vate com a biscate da boate; a mangoça do vigário com a troça na roça; a lanterna de Diógenes com a latrina de Demóstenes; um prato de feijão com um quarto de leitão; o esplendor da Fiel com o amargo do fel; a dona do café com a cafetina do cabaré; ou, ainda, e muito menos, uma garrafa com uma caixa de vinho.

De fato, a origem dos escritos do Poeta está em seus sonhos, devaneios, delírios etílicos ou não, desejos, pesadelos, desvarios, alucinações, frustrações, anseios, alegrias e frenesis, todos vindos do imaginário e do anedotário estranhos à sua triste figura humana mas também, ocasional e raramente, na realidade. A fonte de sua poética é, portanto, quase que totalmente diversa de sua pessoa física. Enquanto o Vate, em seu trabalho, é capaz de formidáveis empresas e de produzir resultados líricos muito admirados, a vida do indivíduo António Paixão é muito modesta, recatada e reservada a duas flamas: o Timão e o vinho; e a uma obrigação: combater o Canzarrão. Quando canta o Poeta, cala-se o submundo em respeito e admiração, mas quando se pronuncia o Paixão, são arremessados ovos em profusão.

No entanto, o Poeta é um humanista e, como tal, tem o dever, dentro de suas publicamente conhecidas limitações, de usar sua pena, como tantos vates antes o fizeram, em prol do bem comum, da paz, da tolerância, dos direitos humanos, da natureza e dos animais. Por conseguinte, a obra do Poeta, embora de ficção, tem uma orientação ética e social. E é por isso que ele tem sido aclamado ora como o Bombástico Bardo do Bixiga, por vezes como o Vate da Gaviões da Fiel e até mesmo como o Trovador do Time do Povo. Como tantos o fizeram antes, tendo pago muitas vezes um preço elevadíssimo, o Poeta escreve a verdade, e somente a verdade, no interesse do povo e dos melhores valores professados pela civilização.

É sabido que Benedetto Croce (1866-1952) foi um sociólogo, historiador, filósofo, crítico de arte e político italiano, celebrado como um dos principais intelectuais europeus do final do século 19 e início do século 20. Sua produção acadêmica é reconhecida em todo o mundo, mas chama particularmente a atenção nos tempos de hoje sua reação ao fascismo de Mussolini, de quem foi opositor. Esta atitude foi também expressa no chamado contra manifesto, no qual Croce faz uma dura condenação ao suposto e auto proclamado intelectual fascista, caído na aberração de contaminar política e literatura, política e ciência, com o objetivo de coonestar deploráveis prepotências e violências. Croce chegou logo à conclusão justa, lógica e necessária de que a inteligência e o fascismo são incompatíveis.

Pois bem, Benedetto Croce, contrariamente a algumas tendências de seu tempo, afirmava que se deve separar a pessoa do poeta de sua obra . Uma boa pessoa não faz necessariamente uma bela lírica, da mesma forma que uma má pessoa, como vate, não produz consequentemente versos ruins. Assiste razão a ele. Como formidável intelectual e um dos grandes historiadores de todos os tempos, Croce sabia que abundam registros, desde a aurora dos tempos, de injustas punições às pessoas dos poetas pela natureza de seus versos e se preocupava em defender a liberdade de expressão.

William Shakespeare (1564-1616) foi um poeta popular, que escreveu clássicos celebrados através dos tempos. Em ‘A Tragédia de Júlio César’, ato III, cena 3 , o Bardo descreve as circunstâncias ocorridas quando o poeta Cinna se dirige aos funerais de Júlio César e é interpelado pelas multidões furiosas e ensandecidas:

“Terceiro Cidadão: O seu nome, senhor, de verdade.
Poeta Cinna: Verdadeiramente, meu nome é Cinna,
Primeiro Cidadão: Mate-o, porque é um conspirador.
Poeta Cinna: Eu sou Cinna, o poeta, Eu sou Cinna, o poeta.
Quarto Cidadão: Mate-o em razão de seus versos ruins, mate-o em razão de seus versos ruins ”.

Muitos poetas pagaram com as próprias vidas por suas convicções, crenças e opiniões, e outros com o cerceamento da liberdade ou com o exílio. O elenco é interminável e cito apenas três casos. O próprio autor da obra que inspirou o título deste conto (Elogio da Loucura), o filósofo e poeta Erasmo de Roterdão, teve que se exilar das perseguições religiosas sofridas, em razão das críticas que fez. O literato e padre Giordano Bruno foi queimado na fogueira em Roma pela Santa Inquisição, por “heresia”. Mais próximo de nossos tempos, Frederico Garcia Lorga, foi fuzilado pela fúria fascista do General Franco.

Por outro lado, muitos foram submetidos à pena de privação de liberdade, como Graciliano Ramos, Luiz Alberto Moniz Bandeira e Caio Prado Júnior, no Brasil, e Miguel Torga, em Portugal. O próprio Camões fora preso e também o poeta português Bocage, da mesma forma que o grande poeta renascentista francês, François Villon, clérigo, ladrão, boêmio e ébrio, mas precursor da poesia romântica. Outros tiveram que se exilar com o objetivo de viver, a principal missão de um homem público, como Pietro Aretino, Pablo Neruda, Jorge Amado, Fábio Lucas, Stefan Zweig e Alberto Moravia, dentre tantos outros nomes. Por sua vez, Gregório de Mattos Guerra, o genial Boca do Inferno, foi degredado em África.
E foi assim que o Poeta, inspirado por sua vocação humanista e popular, decidiu empreender a luta pela dignidade da nação em resistência às trevas, ao capitalismo rentista e aos seus sinistros agentes fascistas. Isso ocorreu quando ele percebeu, em primeiro lugar, a ameaça fascista do Capetão de Coturno e, logo em seguida, sua sórdida implementação no Brasil, que configurou graves crimes de genocídio contra as populações indígenas, de racismo, de homofobia, contra a Constituição, contra os direitos humanos, contra o meio ambiente, contra a soberania nacional, contra a saúde pública, contra a educação e contra o próprio povo brasileiro.

Nesse momento, o Poeta passou a denunciar o Mefistófeles Fascista de genocídio da poesia. Tem sido este o seu projeto. De fato, o Belzebu Caipira tirou a inspiração dos poetas brasileiros ao remover suas musas. Quem matou a Marielle? Onde havia o amor, ele trouxe o ódio; onde havia o perdão, ele introduziu a ofensa; onde havia a união, ele promoveu a discórdia; onde prevalecia a verdade, ele insistiu no erro; onde morava a esperança, ele levou o desespero; onde se cantava a alegria, ele introduziu a tristeza; onde havia a liberdade de expressão, ele impôs a censura; onde refletia a luz, ele deixou as trevas; onde vicejava a natureza, ele largou o deserto.

O Lúcifer de Verde Oliva e Amarelo Cafona deixou-nos apenas com a dor e, mesmo assim, estamos a cumprir, os poetas brasileiros, com nossa obrigação, na esperança de momentos melhores, onde a natural ordem das coisas e a decência possam voltar a prevalecer e o povo a estudar a verdade. Assim poderemos, enfim, cantar e a recitar a nossa lírica, as nossas coisas, o nosso generoso amor, a união, a nossa contagiante alegria, o perdão, a nossa linda natureza e também as eternas glórias do Timão.

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.