BolsoDória põe São Paulo na Zona

Encantado com as aventuras de Miami, o Poeta nos envia o último conto de 2020.

BOLSODÓRIA PÕE SÃO PAULO NA ZONA.

Isto não é notícia falsa! É oficial, mesmo. Verdade! Bolsodória colocou o Estado de São Paulo na chamada zona vermelha para os feriados de fim de ano. Ao fazê-lo, submeteu os paulistas ao isolamento total, como reação ao ressurgimento da crise pandêmica a qual ele próprio assegurou que não havia, até que fossem realizadas as eleições municipais, naturalmente. Como o Bolsodória julga-se muito acima da ralé, isto é, os cidadãos de seu Estado, pegou um voo para Miami, valendo-se de passaporte diplomático (coisas do Brasil), para tirar umas ‘merecidas férias de 10 dias’ (sic). Assim, do alto de sua cintilante glória, o governador decretou: para o povo a prisão domiciliar mas para mim, o luxo da esplendorosa farra em Miami Beach. Arra!

É certo que o Bolsodória acumula os vícios do Capetão aos próprios, alguns comuns aos dois e outros, ao contrário, são diversos, mas complementares. Ambos são apoiados pela banca e pelo capital rentista que, sabidamente, apoiariam até mesmo Lúcifer se este prometesse a manutenção de seus privilégios conquistados à custa de muito dinheiro. Enquanto o Mefistófeles Caipira apenas se finge de neoliberal, Bolsodória é um empedernido privatizador, acostumado que está à ideia da prosperidade privada às custas da alienação do patrimônio público. Aguardem 2021! Enquanto o Capetão é apoiado pelas massas fascistas, pelo agronegócio devastador e pelos militares corporativistas, o Bolsodória é apoiado pelas classes médias insensíveis, arrogantes, petulantes e ignorantes, mas preponderantes.

O abjeto Mefistófeles Caipira é um miliciano fascista, ao mesmo tempo que cretino e ignorante; o asqueroso Bolsodória tem um perfil lombrosiano de embusteiro, vigarista e escroque. Ambos são canalhas, vis e torpes. Aquele, o Belzebu de Coturno, se vende para a prevalência do fascismo e dos interesses econômicos de grupos setoriais, como por exemplo as igrejas evangélicas. Este, o glorioso Mefistófeles Narciso, o diabrete trampista do pretenso toque de Midas, é um notável operador do seu interesse próprio, que tem o seu preço à altura, mas sabe também pagar aquele dos outros, para melhor apodrentar e desnaturar a coisa pública, como o ocorrido com a TV Cultura.

Não obstante os perfis assemelhados, Bolsodória e o Capetão agora vivem às turras, a disputar ávida e sequiosamente a primazia na disputa presidencial brasileira em 2022. Pobre povo brasileiro se estas forem as opções para escolha: entre o Mefistófeles Narciso e o Belzebu de Coturno. Com tal objetivo em mente, criam eles disputas ao redor de temas tanto pueris como artificiais, fazendo graças pelas mídias sociais, enquanto o povo se dana. Quelle horreur!

Pois bem, por força das circunstâncias e dos mais de 220 mil mortos pelo Vírus Covid-19, conforme apenas denunciado por observadores internacionais, estava na ocasião o Poeta recolhido em sua graciosa e encantadora maloca no Bexiga. Ele fez questão de lembrar, a propósito, que o léxico “lock-down”, fechar para baixo, é paupérrimo e próprio dos barbarismos da língua inglesa. “Recolhimento”, por sua evidente qualidade, é muito melhor, como no “toque de recolher”.
A decantada, e igualmente cantada em verso e prosa, Gigi Dell’Amore, nascida em Nápoles e hoje sorveteira no Bixiga, ninfa e musa do Poeta, veio fazer-lhe companhia na prisão domiciliar decretada pelo Mefistófeles Narciso com vigência para o Estado de São Paulo. O regime domiciliar havia sido por ele anunciado como trunfo, diretamente de seu majestoso mausoléu na Rua Itália, no Jardim Europa: “um acolhedor Carandirú pesoal para cada paulista, tanto nas ruas como nas malocas”. No dia 27 de dezembro, um domingo, Gigi faria aniversário.

Como o irmão de Beppe Molisano, o Totò, faz anos na mesma data, o Poeta sugeriu que se fizesse um BCF (bate coxas familiar) virtual, para a celebração dos natalícios, pelas 21:00 horas. Se houvesse clima, a atmosfera de revolta teria sido irrespirável. Não bastasse o Natal, agora são os aniversários e, nos próximos dias, também o fim de Ano, pensavam todos. Tudo na conta do Mefistófeles Narciso. Foi o frei Totò Molisano, um devoto dominicano que esteve originalmente no exercício da psiquiatria, até ouvir a tanto elevada quanto irrecusável convocação do Senhor, quem começou a ladainha:

“Eu sei. Tenho seguras e confiáveis informações científicas. O Homem claramente padece de uma psicopatia conhecida na medicina por síndrome do pernicioso gigolô vigarista. Casos abundam no Brasil”!

Frei Totò foi ouvido com respeito, atenção e deferência, mesmo porque como ex-psiquiatra e dedicado pároco das decaídas, decompostas e decadentes, tinha um grande círculo de informantes e assessoras. Por sua vez, seu irmão, o notório e celebrado cantor, pedreiro, cozinheiro e putanheiro napolitano, Beppe Molisano, furibundo com todas as circunstâncias em que se encontra o Brasil, declarou no seu idioma nativo:
“No meu país, a Itália, un stronzo di merda senza scrupolli come quello sarebbe al meno chiamato di mascalzone, canaglia e di furabutto”.
Com grande esperança e alguma sabedoria, o Poeta invocou com fé e ardor a ajuda do Pajé Manape, o conhecido irmão do heroico Macunaíma para, dentro de um período de 13 dias e 13 noites, trazer a educação, o humanismo e o descortino para a totalidade da população brasileira.
Por sua vez, em resposta, o devoto e piedoso Frei Totò, comentou apenas:

“Sem querer fazer minhas as palavras do demônio Edyr Macedo, só com Jesus na causa”.
Para finalizar o triste BCF, o Poeta recitou aos amigos um poema de Tony Malvern, por ele recebido por meio do Zap, o qual levou Gigi às lágrimas, desta feita até mesmo quase que sinceras. E foi, assim, cantado por todos um melancólico, mas esforçado “Parabéns a você”, bem como murmurado um débil, frouxo e desconsolado “Pique Pique”.

Mesmo com dúvidas a respeito da disponibilidade da vacina contra o vírus Covid-19 para os brasileiros, ao contrário do que sucede no resto do mundo, ficaram os amigos jururu à espera de dias melhores em 2021.

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.