Isonomia na Pandemia

Enojado com a postura do Ministério Público de São Paulo a respeito da busca de maiores privilégios, o Poeta nos envia a seguinte crônica:

Sou aquinhoado com muitas infiéis leitoras, que apreciam em graus variados os meus escritos. Uma delas é a Michelle Tromba, a Metê, uma linda transexual loira, profissional do sexo, líder sindical e também empresária. Ela me foi apresentada por meu velho camarada, Beppe Molisano, que é conhecido por suas variadas amizades nos mais diversos níveis. Metê é originária de Belém do Pará, de onde vêm as mais lindas, graciosas e eficientes transexuais, segundo me assegurou o Beppe, com muita convicção. Discriminada na infância, como todas, ainda jovem veio para São Paulo, onde se desabrochou. Implantou silicone nos peitos e na bunda, refez o nariz, aumentou os lábios e passou, até mesmo, pela feminização craniana. O resultado foi espetacular. Com 177 centímetros de altura, tornou-se Metê mais linda do que qualquer estrela de Hollywood. Sua beleza olímpica, no entanto, declamada em prosa e verso, era acompanhada não apenas de uma inteligência privilegiada, mas também de vigoroso dote físico, que se prestaria inclusive ao culto a Príapro, na antiguidade greco-romana.

Enquanto trabalhava, formou-se na faculdade de administração de empresas com brilhantismo e foi trabalhar como profissional do sexo no exterior, na falta de outras opções. Esteve primeiramente na Espanha, onde foi casada com um jovem de bom caráter, partindo em seguida para a França, Portugal, Itália, Alemanha, Reino Unido e, finalmente, Nova Iorque, nos EUA. Em suas viagens, aprendeu fluentemente o espanhol, o francês, o inglês, o italiano e até mesmo o alemão. Econômica, vestia-se muito bem sem jogar fora os seus ganhos em roupas, bolsas de grife e outras tolices. Com o produto de suas economias, passou a investir nos mercados financeiros, orientando-se com diversos assessores, e posteriormente sem descuidar da liquidez, aplicou recursos em imóveis na cidade de São Paulo. Esses eram por ela decorados com muito bom gosto para colocação no mercado de aluguel para jovens executivos ou estudantes filhinhos de papai.

Ela me procurou pela primeira vez por ter lido o meu romance de grande sucesso editorial, Shanghai Lilly, que é a autobiografia de uma mulher rica por quem fui contratado para escrevê-lo. Metê acredita que sua vida daria um romance ainda mais robusto, digamos assim, do que aquela de Vivian Salomon. Nunca chegamos a um acordo porque, ao contrário de Vivian, Metê não queria pagar-me em moeda corrente, preferindo a troca de serviços. “Um escambo, barter ou troca-troca”, ela propôs, com um doce sorriso sensual. Até este momento, continuam tanto indefinidas quanto inconclusas as negociações.

Por sua vida exemplar, liderança e inteligência, ela foi aclamada presidenta do Conselho Superior d@s Profissionais do Sexo de São Paulo (CSPS), em assembleia geral ordinária e extraordinária realizada na Praça da República, em frente ao prédio que foi do Instituto de Educação Caetano de Campos. Posteriormente, tornou-se sua presidenta vitalícia. Uma imperatriz, uma diva. Naquela ocasião, que eu presenciei, Metê foi ovacionada quando da citação do seguinte verso de Bocage, extraído do Soneto de todas as Putas:

“Não lamente, ó Nize, o teu estado:
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado”.

Naquele momento, em minha cabeça evoquei muitas putas e gigolôs que governaram países e impérios, mas a imagem que se fixou foi a da Imperatriz Valéria Messalina (17dC-48dC), mulher de Claudius, nascido em 10 aC e imperador romano entre 41 dC e 54 dC, ano em que veio a falecer. Consta que Messalina recebeu o título de “rainha das prostitutas imperiais”, pois não apenas tinha uma vida devassa e promíscua, mas deixava o palácio conjugal para frequentar bordéis na Suburra. Também gostava de atender a soldados. Numa ocasião, segundo Plínio, venceu uma veterana prostituta num desafio de maratona sexual, na qual atendeu a 25 homens. O Imperador Tibério era um transexual ocasional e ao próprio Calígula aprazia vestir-se de Vênus em banquetes e festas.

Pois bem, voltando ao presente, no dia de Iemanjá, 8 de dezembro, Metê deslocou-se de seu apartamento na região nobre dos Jardins, onde mora, para a humilde maloca deste Poeta, no Bexiga, que anda mais seca do que a caatinga, pela falta do elixir e bálsamo vinícola e por exclusiva culpa de meus cruéis médicos.

“Poeta”, foi ela logo dizendo, “estou furiosa”.
“O que houve, Metê, caiu o IBOVESPA?”, respondi com uma certa preocupação.
“Não, Poeta. O IBOVESPA subiu com o anúncio do aumento da miséria no País. Foi a declaração do Conselho Superior do Ministério Público de São Paulo pedindo tratamento prioritário nas vacinas contra o COVID-19, tendo em vista o atendimento público que fazem os promotores”.
“Até aí, nenhuma novidade, minha cara. São uns petulantes desavergonhados, impudentes e insolentes. Eles compõem uma classe privilegiada e corporativista que está muito a dever para a sociedade”.
“Pois é, Poeta, eu queria saber qual é o atendimento público que fazem os promotores, já que mesmo fora da pandemia estão sem trabalhar em média de apenas 6 meses ao ano e, quando supostamente o fazem, estão no conforto de suas residências. Em contrapartida, recebem régia remuneração e benesses várias, incluindo residências, paletós, livros, refeições, férias inusitadas, seguros saúde e outros, viagens diversas, inclusive para o exterior, e transporte em carro privado, frequentemente com motorista. Estamos revoltad@s!”
“De fato, Metê, você tem plena razão, mas pouco se pode fazer”.
“Poeta, minha entidade, o CSPS, não pode deixar em branco este infausto acontecimento e sua diretoria preparou uma declaração, a qual gostaria que você nos ajudasse a divulgar para a opinião pública nacional e internacional. O texto é o seguinte:

“ ISONOMIA NA PANDEMIA,

O Conselho Superior d@s Profissionais do Sexo (CSPS), em reunião extraordinária realizada em 4 de dezembro de 2019,
CONSIDERANDO QUE o Conselho Superior do Ministério Público se pronunciou para pedir tratamento prioritário para a classe dos promotores no acesso à vacina contra o COVID-19,
CONSIDERANDO QUE a justificativa apresentada para tal posição é a ‘atividade funcional da carreira, que implica em atendimento ao público’;
CONSIDERANDO QUE os membros do Parquet não andam de ônibus ou metrô;
CONSIDERANDO QUE os membros do Parquet não trabalham mais do que 6 meses ao ano;
CONSIDERANDO QUE os membros do Parquet têm acesso a seguros de saúde privados de primeira linha pagos pelo Contribuinte, além de outras mordomias indignas, imorais e indecentes;
CONSIDERANDO QUE @s profissionais do sexo trabalham 24 horas por dia, em literal esforço corporal no dedicado e verdadeiro atendimento ao público em geral, e não à busca de vantagens corporativas;
CONSIDERANDO QUE @s profissionais do sexo são totalmente desassistidos pelo Estado brasileiro;
CONSIDERANDO QUE é também de enorme precariedade a situação do povo do Brasil,
CONCLAMA as autoridades municipais, estaduais e federais do Brasil a dar atendimento isonômico a toda população brasileira na questão da vacina ao vírus COVID-19.
Michelle Tromba – presidenta”.

“Pode contar comigo, Metê”, garanti.

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.