Carta aberta ao Papai Noel

O Poeta, quem diria, escreve ao Papai Noel pedindo #FORABOLSONARO:

“Do isolamento no Bixiga, São Paulo, Brasil, 16 de dezembro de 2020.

Caro Papai Noel,

Apesar de poeta, ingênuo e romântico, nunca acreditei em sua existência. E isso desde os 5 anos de idade, quando minha santa mãezinha, Sara Paixão (Dona Sapa, segundo suas muitas desafetas), de saudosa e pranteada memória, se insurgiu contra minha constatação de que “Papai Noel não existe”, com doces e inspiradoras palavras. Foram elas: “não sei mais o que fazer com este menino que, além de cético, cínico e incrédulo, não tem a imaginação dos puros. Deste jeito, vai se tornar um abjeto poeta, desamparado pelo talento, ignoto pela crítica e incógnito pelos leitores”. Foram sábias e proféticas palavras de mãe que, por mais contundentes que tivessem sido para os ouvidos mal lavados de um menino petulante, não me levaram a mudar de ideia. Permaneci um negacionista de mancheia, no bom sentido, justificada e naturalmente.

À época, eu não poderia saber que a figura de Papai Noel havia sido criada por uma agência de publicidade em 1931, para promover as vendas do refrigerante Coca-Cola. A agência e seu talentoso desenhista optaram pelas cores símbolo do refrigerante, vermelho e branco, para as vestes do velhinho safado. Tratava-se de uma medida pioneira de propaganda subliminar, dirigida principalmente ao público infantil, naqueles tempos. Assim, o vermelho, cor da bandeira encarnada que simbolizava originalmente os movimentos democráticos e socialistas desde a Revolução Francesa de 1789, foi transformado num instrumento de promoção comercial de um produto caro, sem valor nutritivo, e que ministrava sub-repticiamente drogas à população.

Assim, minha minguada simpatia pelo lixo líquido e pelo seu instrumento de mercadologia, Você mesmo, não aumentou através dos anos, ao contrário de minhas dúvidas sobre as ações dos órgãos de saúde pública e de proteção ao consumidor, mundo afora. Lembro-me vividamente de uma campanha introdutória da Coca-Cola no interior do Brasil, quando de minha infância, que tinha brindes direcionados às crianças, nas cores vermelho e branca, e também sua figura de Papai Noel, a mesma criada em Madison Avenue. Que horror!

Não tardou para que o seu símbolo fosse cooptado para a indução do consumo obsessivo e para a promoção de falsos valores na busca do inútil, do desprezível e do fútil, associando-o ao sucesso e à sedução, bem como compelindo os consumidores possidentes à humilhação daqueles carentes. Como num filme de Hollywood, o cenário não ficaria completo sem uma trilha musical. Assim, foram várias criadas composições nauseabundas dulcificadas apositamente para o incentivo ao consumo. Quase todas elas na língua inglesa, para ficar mais chique, fino e elegante. Que asco! Não é por menos que tais criações são tocadas à exaustão em todos os centros comerciais, mundo afora, para levar o público a gastar o que não tem naquilo que não é preciso.

Pois bem, Você Papai Noel me perguntaria, “tendo em vista suas arraigadas e eloquentes convicções aqui expressas, qual a motivação desta carta”? Passo a responder com total honestidade. É o desespero, cumulado com o desalento e a aflição, Papai Noel. Não aguento mais ver meu país caminhar célere e diretamente para o abismo; deparar com a miséria de meu povo, faminto, deseducado doente e desempregado; assistir passivamente à destruição de nossas florestas; constatar a destruição de nossa infraestrutura econômica; comprovar o desmonte de nossa educação pública e de nossa pesquisa científica; atestar o fim de nosso serviço de saúde pública; testemunhar os privilégios conferidos aos abutres do setor financeiro; verificar a concessão de privilégios corporativos a uns poucos em detrimento dos muitos; e notar a destruição de nossa democracia.

São já 200 mil mortos no Brasil pela contaminação do vírus COVID-19, como resultado da desastrosa condução da política pública de saúde e milhões de infectados. As perspectivas continuam sombrias para 2021. O genocídio das populações indígenas apresenta-se repugnante, da mesma forma como as manifestações do racismo estrutural, agora exacerbadas pelo ódio fascista. O feminicídio tornou-se uma ocorrência banal, tal qual o estupro. Pastores estelionatários exploram a crendice popular nos templos de Lúcifer, são contemplados com órgãos de comunicação, têm imunidade tributária e bancada parlamentar própria.

As hostes ignaras do fascismo erguem a infame bandeira da intolerância, da crueldade, das trevas e da homofobia. O judiciário brasileiro, avidamente perdido nas metas patrimonialistas e corporativistas, deixou de lado o Direito e a judicatura para advogar pelo privilégio e adorar Narciso. As milícias agem impunemente, País afora, e mais de 1.000 dias se transcorreram sem a solução da morte de Marielle. Os militares brasileiros conseguiram implantar, no País, um cenário pior do que o do Haiti, onde estiveram a complicar as coisas.

Assim, Caro Papai Noel, ajude-me se puder. Para não o incomodar demasiadamente, tenho apenas um pedido a fazer:
#FORABOLSONARO!

Muito obrigado pela atenção. Saudações líricas do António Paixão, poeta, bardo e trovador corintiano.

PS: Foi você, Papai Noel, quem depositou os R$ 80 mil na conta da Micheque? ”

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.