O Deseducador.

Diretamente do tonel de vinho onde cumpre pesarosamente o seu isolamento, o poeta António Paixão nos enviou o conto O Deseducador.

Meu nome é Mose de Oliveira Weinstube e sou um educador e patriota, no melhor sentido. Naturalmente. Valho-me nestas mal traçadas linhas do meu direito de livre expressão. Quem não gostar das minhas opiniões, pode me encontrar nos tribunais. A viúva paga os meus competentes advogados. Naturalmente. Explico-me melhor. Gosto do Brasil, mas não gosto do povo brasileiro. Êta povo feio. Coisa horrorosa. Medonha. Pavorosa. Não presta para nada, nem para bucha de canhão. Encontro melhor material nos zoológicos, a começar pelo estrume. Não estudei pedagogia, atividade que para nada serve. Coisa de comunistas e nazistas, psicopatas, esquerdopatas e petralhas, como diria o conhecido quitandeiro Zé Mané, lá de Barretos.

Tudo gente da mesma escória. Alguns dos mais perigosos comunas são os pedagogos. Naturalmente. Vejam só o Paulo Freire, por exemplo, aquela figura sub-humana, com perfil de retardado de barba suja. Outra figura patética foi o Domingo Sarmiento, na Argentina, que imaginou poder educar o povo através de escolas públicas. O orgiasta aloprado, Fidel Castro, acabou com o analfabetismo em Cuba em um ano e construiu instituições de ensino. Mandela mandou os jovens de volta para a escola. Para quê?

Assemelhado comuna foi o suíço João Pestalozzi, inspirado pelo excessivo consumo de chocolate e pelo nazismo, que foi concebido nas montanhas de seu país, onde também nasceu o escritor infame, o Kafta. Esse influenciou certos juízes de quinta categoria no Brasil. É sabido que povo não se educa, mas se faz marchar à ponta das baionetas, retumbar dos canhões e no vibrar do açoite. Gente perigosa, os comunas nazistas e seus acepipes, mas piores são os afiliados ao PT, melhor conhecidos por petralhas.

Estudei na escola evangélica americana, a CAPIVARA, que não produz antas, como fazem as brasileiras, ahahah. Depois me formei em Percussão Contemporânea pela USP. Digo me formei porque não estudei nada. Não valia a pena. Colei. Mesmo assim, tomei pau oito vezes. Acho que foi. Não sei contar muito bem. Posso dizer que não foi fácil. A USP é sabidamente uma escola de terceiro-mundo para bichos grilos, que só tem alunos e professores veados saltitantes, drogados terminais, maconheiros, comunistas, anarquistas, rematadas putas, violentos cafetões, lésbicas de furor uterino, habilidosos estelionatários, traficantes insensíveis e degenerados tarados de todas as cores, principalmente preta. A única atividade produtiva na USP digna de nota são as plantasões de maconha. O lema da escola é “Jererê Para Todos”. Que horror!

Boas escolas são as americanas, que refletem a cultura, preparo e humanismo praticados pelos diversos governos dos EUA mundo afora, nos bloqueios, embargos e guerras assimétricas. E onde se usa o inglês, língua decente e bacana falada em Holiwuud, ao invés dos grunhidos patéticos do português. Minha experiência educacional mais notável foi o curso em Uaschinton, nos EUA com o grande filósofo terraplanista, o Professor Olavo de Carvalho, meu guru, denominado “A epistemologia do mandar tomar no cu – aspectos físicos e metafísicos”. Passei com louvor. Que orgulho!

Não há interesse em produzir ciência no Brasil. Para quê? Tudo de importante já é feito nos EUA. Não temos condições, devido às nossas inferioridades raciais, assimetrias regionais e degenerada índole carnavalesca. Todo o dinheiro supostamente destinado à pesquisa no Brasil é utilizado para infames orgias, bacanais de grande, média ou pequena expressão sexual e notórias festinhas, chamadas F1, onde são consumidas drogas várias e o sexo é praticado sem limites. Imprecionante!

A suspenção e a paralizasão imediata de tais práticas se impõe. Jesus quer e Deus assim ordena! Desta laia são os professores dos estudantes brasileiros, que vão às escolas para aprender níveis, ditos científicos, de sacanagem da pior espécie. Ademais, para quê mesmo estudante precisa de carteirinha? Estudante tem que tomar no cu. Ele não tem futuro. Vamos instalar o programa “Educação à Distância para Todos”, de maneira a manter a escória confinada às favelas. A universidade pública é uma piada e o processo democrático de escolha dos reitores favorece os esquerdopatas, como os petralhas e os nazicomunistas. Melhor é botar os milicianos bem orientados do bairro do Pechincha, no Rio de Janeiro, nas reitorias. Assim será. Quem não gostar, pode se foder.

A democracia no Brasil é uma falássia. Não funciona. Alguém já viu um estado de direito entre animais? Democracia é coisa para o primeiro mundo. Para a Dinamarca, por exemplo. Para os EUA, onde o grande líder, Donald Trump guia o povo como uma estrela, mas está com o porrete pronto para fazer valer sua voz, se e quando necessário. No Brasil, devem mandar as elites: os banqueiros, os pastores evangélicos, os empresários falidos da FIESP, os rentistas e os heróis do agronegócio, que transformam as nossas improdutivas e poluídas florestas em grandes canaviais verdejantes, onde nem mesmo as abelhas atrapalham o faturamento.

Aqui, neste desprezível e insuportável inferno tropical, o povo quer dar palpite pela Internet, os políticos nazi-comunistas, esquerdopatas de todos os gêneros e, especialmente os petralhas, falam bobagens e patranhas na pocilga do Congresso. Os juízes querem usurpar o poder para ganhar mais e fazer viagens de compras de ternos e gravatas Guti em Miami. Temos que colocar todos os magistrados na cadeia, começando com a súcia dos ministros STF! Que bando de vagabundos! É o puro reclamo da dessência. Imediatamente! Depois, trataremos sem piedade do resto da canalha.

Um país medíocre, com passado vergonhoso, com presente medíocre e sem futuro, como o Brasil, não precisa de uma política de relações exteriores. Naturalmente. Para quê? Basta seguir os EUA, que são a luz da razão, da moral e do saber. Por isso mesmo, não precisamos de diplomatas. Gente esquisita. Leem poesia. Exercitam a paciência. Conversam e ouvem a opinião dos demais. Gostam mesmo é de dar o rabo, até mesmo atrás das portas e das cortinas, como asseguram muitos.

Nossos diplomatas do Itamaraty desprezam a Festa do Peão do Boiadeiro, de Barretos, a verdadeira manifestação da cultura brasileira. São esnobes. Dizem até que muitos deles acreditam em direitos humanos e na proteção ao meio-ambiente. Não posso crer! Também não precisaríamos de Forças Armadas, se não fosse para manter o povo na linha e para ameaçar os açanhados e lembra-los de que a ralé tem um lugar na escala social e dele não pode sair. O país também ficaria melhor servido com consultores, advogados, professores, alunos, cozinheiros e auditores americanos. É a pura verdade. Nós somente levamos vantagem competitiva na categoria das putas. Ahahah!

O Brasil deve sempre repudiar as aberrações na política internacional, como a China, por exemplo. A China é vermelha! É comunista! Educa seu povo! Presa sua soberania! Que horror! Conspira contra a ordem natural das coisas, que é um regime mundial imperial celestial idealizado, imposto e administrado pelos EUA, por delegação de Deus (in godi ui trusti), de acordo com o qual deve-se promover a prosperidade de um apenas (adivinhem de quem?), ainda que ao custo da miséria dos demais.

O povo chinês é amarelo! Que horror! Os chineses comem morcegos, cérebros de macacos, baratas, escorpiões, cobras e até mesmo línguas de urubu e cocô de camelo, segundo o meu culto guru. Dizem os esquerdopatas que a China é o maior comprador dos produtos brasileiros e o maior investidor no Brasil. Que as nossas reservas externas vêm dos saldos comerciais com a China. E daí? Eu mando os chineses tomar no cu, coisa que também aprendi com o guru. Felizmente, temos o FMI para zelar por nossos melhores interesses. Que o Senhor seja louvado!

Outra excrecência é Cuba. Ilha de merda! Povo de merda! Cucarachas! Dizem os esquerdopatas que o país caribenho tem todos os indicadores sociais melhores que os do Brasil. Deslavada mentira! Propaganda nazista e fascista! O José Goebbels ensinou que a mentira repetida muitas vezes se torna uma verdade. Ele é um grande ídolo em Cuba! É isso o que aqueles desclassificados querem! Saibam todos que o Tchê Guevara foi um dos mais próximos auxiliares de Hitler e chefiou importantes e cruéis campos de concentração na ilha de Madagascar.
Estes cubanos de merda mandaram uns médicos de porra para o Brasil para cuidar do povo. E quem disse que o povo precisa de médicos? O povo tem mesmo é que morrer! E daí? Ademais, o Brasil tem muitos médicos. Quase todos bonitos e brancos. Não precisamos de médicos pretos. Nossos médicos têm bom gosto. Eles gostam de cidades prósperas como Ribeirão Preto e de especialidades chiques, como a dermatologia estética. Eles adoram aplicar Botox e fazer enchimento. Até mesmo na pica, para a calça jeans justa do boy ficar mais saliente abaixo do cinto sertanejo com fivela medalhão. Sucesso garantido na festa do peão!

Dizem até que um cu com Botox fica lindo e sorridente. Vocês já viram peitos e bundas produzidas pela medicina brasileira? Que maravilha são os peitos de silicone de um litro nas garotas de quinze anos! Nossos bravos médicos hoje cuidam até das carecas dos bacanas com dinheiro em UAL Street, na Sity londrina e na Suíça. E não é com bosta de vaca misturada com óleo de babosa, como fazem na Rocinha, mas com máquinas de implante computadorizadas, adquiridas nos EUA! Que beleza! Mandamos os médicos cucarachas de volta para a sua ilha de merda. Que orgulho da nossa pátria amada, o Brasil!

É universalmente reconhecido que sou um homem sério, honesto e respeitável. Na qualidade de evangélico, vou aos cultos todos os fins de semana, aonde quer que esteja. Para tanto, tenho uma lista das igrejas mais comprometidas com Deus, com a causa nacional e os valores humanísticos que professamos. Seus pastores são todos sorridentes e amáveis. Que maravilha! Ficam ainda mais felizes, exultantes até, quando os fiéis demonstram a devoção religiosa com suas generosas doações. Naturalmente.

Como é de conhecimento geral, os cultos são encontros profícuos nos quais os pastores arrecadam recursos para os seus cofres e, também ocasionalmente professam ensinamentos baseados na Bíblia. Neste último culto do qual participei, o pastor discorreu a respeito de João, o Evangelista, e o livro bíblico do apocalipse. Nesse, os quatro cavaleiros do apocalipse representam o que vai acontecer antes do fim de todas as coisas. São eles os representantes da peste, da guerra, da fome e da morte. Eles chegam todos montados em garbosos cavalos sem máscaras, como o nosso presidente. Que alegria! Que beleza!

Aleluia, temos agora a simbiose dos quatro cavaleiros do apocalipse em nosso amado presidente, que se encarrega em varrer da terra o desprezível, desgraçado e malfadado povo brasileiro. Um mito! Naturalmente. A peste é a pandemia do Covid-19. A guerra é a de classes, na qual o capital arrasa as classes trabalhadoras. A fome bate nas portas das favelas, cortissos, moradias humildes e das classes médias. A morte nos aguarda nas UTIs, nas enfermarias, nos corredores dos hospitais, nas ruas, praças, parques, viadutos, estradas e avenidas. Que maravilha! Como é linda a morte do povo! São danados e malditos cordeirinhos destinados ao abate com sofrimento.

Infelizmente, e apesar de todos os nossos esforços, ainda não pudemos terminar o serviço. Esta raça putrefata de brasileiros é muito numerosa e resistente. Aguenta até tomar banho no esgoto! Portanto, tenham paciência que a coisa vai demorar, mas chegaremos lá. Aqueles que, desgraçadamente, ainda aguardam a visita do cavaleiro da morte, na montaria descorada, podem ir provisoriamente tomando no cu. E viva o meu guru!

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.