O ovni e a falência do estado brasileiro

Uma visão macro-econômica que até alienígenas percebem.

Já há três meses e meio em seu retiro etílico passado no isolamento obsequioso para fugir à infecção do COVID-19 num tonel de vinho na formidável vinícola de São Roque, no interior do Estado de São Paulo, nosso bravo poeta, António Paixão, recebeu a ligação telefônica de seu médico, o Dr. Hamilton Andrews, um entusiasta das terapias de Baco, as bacanais. Segundo ele, essas se tornam insuperáveis se ao vinho somarem-se as bacantes.

“Olá, meu caro Paixão! Há tempos que não tenho notícias suas. A última foi quando você entrou no tonel. Você continua aí no mesmo lugar”?
“Sim, Hamilton. Persisto em meu agora reconhecido e premiado tratamento preventivo e terapêutico ao vírus diabólico, que me valeu o troféu IG-Nóbil, outorgado em Portugal. Estou bem de saúde. E você”?
“Eu sigo muito bem, Paixão. Continuo a tomar meio litro do rum cubano, Havana Club, pela manhã, no mais absoluto jejum, acompanhado de um puro Cohiba. Não há vírus mortal ou de outra forma nefando que se aproxime. Ahahah. Como você sabe, sou muito cioso do rigor científico e não transijo”.

“Mas você repete a dose antes de dormir, certo”?
“Claro, Paixão. Todas as noites. Não podemos dar uma oportunidade ao Sinistro. Este vírus é insidioso e todo cuidado é pouco. O seguro morreu de velho, como diz o ditado. Ahahah. Amigo, estou preocupado com você neste barril, sem exercícios físicos, fora as deglutições e gargarejos com o santo bálsamo etílico. Recomendo um passeio pelos vinhedos de São Roque, ao menos uma vez por semana”.
“Irei pensar. Obrigado pelo seu interesse. Abraços e passar bem”.

Recebida a recomendação do querido amigo, sensata pessoa e competente médico, quem está ocasionalmente até mesmo quase sóbrio, nosso bravo poeta resolveu seguir à risca a prescrição e, no sábado seguinte à noite, saiu nu e descalço de seu tonel, abriu as portas da vinícola e adentrou pelos viçosos vinhedos. Em contato com o ar fresco das colinas, sua primeira sensação foi a do encolhimento do pau, seguida pelo arrepio no cu.

Ainda sob o forte impacto do primeiro efeito e não plenamente recuperado do segundo, Paixão observou três luzes brancas no céu noturno sobre a colina, adiante do vinhedo. Elas se mexiam lateralmente e de cima para baixo, ora veloz, ora lentamente. Uma estava mais à frente e as demais na retaguarda, formando um triângulo luminoso, o que despertou não apenas a sua curiosidade mas, no primeiro momento, um certo temor.
Estupefato e paralisado pelo arrepio, agora já mais intenso, Paixão observou a luz mais próxima se avizinhar, revelando uma aeronave em forma de disco, a qual pousou suave e docemente metros à frente da posição onde se encontrava. Era um OVNI! Dele saíram por uma escada telescópica três indivíduos humanoides, de coloração esverdeada, desarmados e cada qual com um pequeno computador portátil em mãos. A atitude dos visitantes era amistosa, o que não foi suficiente para dissipar o grande cagaço.

“Boa noite, o nosso intento é pacífico”, disse aquele que aparentava ser o líder do grupo. “Somos de Marte e poderemos conversar em sua língua, através do tradutor computadorizado implantado em nossos cérebros”.
Ainda temeroso, nosso bravo poeta pode apenas dizer “E o que querem vocês
de mim? Eu estava muito feliz recolhido em meu tonel de vinho e saí apenas para esticar as pernas, conforme recomendação de meu médico, o Dr. Hamilton, aquele sacana”.
“Meu nome é XYZPRB8 e sou o coordenador deste grupo de estudos na presente pesquisa de campo. Esse aqui à minha direita é o meu assessor Ervil Alul 4Ever e, à minha esquerda, é minha assistente Angela Davis 2bis”.

“Meu nome é António Paixão, poeta, corintiano e vencedor do prêmio IG-Nóbil. Eu pensei que os marcianos apenas visitassem o grande capeta do Norte, os Estados Unidos da América (EUA)”.

“De fato, disse XYZPRB8, lá vamos aos EUA para estudar as ações medonhas, nocivas, molestas, pavorosas, nefastas, repelentes, repugnantes, tétricas e vis que um Estado terrestre pode praticar contra os demais. Examinamos também as práticas genocidas tanto sistemáticas quanto reiteradas, algumas delas por décadas, como aquelas praticadas contra Cuba e o seu valente povo”.
“Vocês vão ao lugar certo para aquele estudo”, respondeu Paixão. “Mas o que vocês vêm fazer neste infeliz Brasil, neste calamitoso momento e qual o porquê de me procurarem”?

“Estamos aqui para fazer um estudo de campo sobre um Estado falido, no caso o Brasil. Temos um questionário de perguntas, para as quais buscamos esclarecimentos. Nossa escolha recaiu sobre sua pessoa, porque nu, descalço e com o corpo manchado de vinho tinto nos pareceu a pessoa mais pura, sensata e benigna que examinamos nestas plagas inditosas e desventuradas”, respondeu rapidamente o XYZPRB8.
“Então vamos todos entrar na vinícola, já que imerso em meu tonel de vinho ficarei mais à vontade e com maior inspiração para responder às vossas perguntas. Se quiserem me fazer companhia, há espaço para vocês também”.

“De acordo”, respondeu o XYZPRB8, “mas ficaremos do lado de fora para evitar contaminações recíprocas. Pedimos sinceras desculpas”.
Já acomodado no conforto de seu tonel de vinho e depois de tomar alguns goles para ganhar coragem, António Paixão afirmou com alguma solenidade: “vamos então ao vosso questionário, ao qual darei minha melhor atenção, mas gostaria de ouvir a totalidade das perguntas, para apenas depois dar as minhas respectivas respostas. Esclareço, desde o início, que não é fácil entender o Brasil. Se este país não é para principiantes terrestres, imaginem só as dificuldades que se põe aos marcianos”.

De olho em seu computador manual, XYZPRB8 esclareceu que o questionário havia sido dividido em seções, a primeira delas a respeito de aspectos institucionais do Brasil. “O Brasil tem hoje a 9ª economia do mundo. Há alguns anos, era a 6ª. O Produto Interno Bruto do país é hoje de US$ 2 trilhões; suas reservas cambiais, que já foram maiores, estão hoje em US$ 340 bilhões; e o seu saldo comercial no ano de 2019 foi de US$ 47 bilhões”.

“Vejo que vocês marcianos estão muito bem informados a respeito de nosso país”, afirmou António Paixão, um tanto quanto surpreso.
“De fato”, respondeu XYZPRB8, “fizemos nossa lição de casa e somente trabalhamos com números oficiais de organismos internacionais, porque as estatísticas brasileiras são notoriamente pouco confiáveis. Contudo, se puder continuar, não conseguimos entender o porquê de ter o Brasil a segunda maior concentração de renda do mundo, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Cerca de metade da renda nacional pertence a apenas 10% da população. Grande parte dos demais habitantes vive na indigência absoluta e quase todos os restantes vivem em dificuldades”.

“Veja bem, Poeta António Paixão, os números institucionais do Brasil não fazem sentido. Os bancos têm cerca de 8.5% do PIB do país e seu lucro cresceu 18% em 2019, sem contar com os serviços auxiliares, ao passo que o próprio PIB brasileiro cresceu apenas 1.1%, percentual igualmente refletido no aumento da arrecadação de impostos. O Tesouro paga aos rentistas uma taxa de juros de 34%, enquanto a taxa básica do país é de apenas 2.25% ao ano. Por sua vez, o consumidor ordinário ou indivíduo comum paga juros de 100% ao ano ao sistema financeiro”.
“São, de fato, números escandalosos a respeito dos quais ninguém no país parece ter vergonha, muito menos a classe política, que adora os banqueiros e venera os rentistas”, disparou António Paixão, interrompendo a narrativa.

“Por outro lado, poeta”, continuou XYZPRB8, “ o Brasil tem cerca de 12 milhões de pessoas, mais do que a população de Portugal, a habitar moradias precárias, insalubres e indignas, normalmente barracões de materiais descartados, nas 6.329 favelas que infestam seu território. Ademais, há pelo menos 500 mil habitantes de rua, número equivalente à população de Gênova; e mais de 120 mil trabalhadores sem-terra”.

“Segundo a ONU, no seu país, 33 milhões de pessoas, número aproximado da população da Polônia, não têm onde morar; 57 milhões, um Reino Unido, não têm ligação a uma rede de esgotos; 24 milhões, uma Austrália, não têm água encanada; e 15 milhões, uma Holanda, não têm acesso a coleta de lixo. Ainda segundo a ONU, há 5 milhões de famintos no Brasil, número que é provavelmente muito maior nos dias de hoje, talvez mais do que o dobro, com a presente pandemia do COVID-19”.

“Parece que os privilegiados de seu país, herdeiros legítimos de uma cruel sociedade escravocrata, são lamentavelmente insensíveis à miséria alheia e optaram conscientemente por manter o povo na adversidade, indigência e desamparo”, continuou o marciano. “Acresce que a população carece igualmente de uma educação pública de qualidade, que possa formar cidadãos conscientes e saibam exercer o direito de voto e fiscalizar seus representantes. Contudo, o vosso regime é dito democrático, ou seja, em tese um governo do povo, pelo povo e para o povo, mas parece a nós, lá em Marte, mais com uma situação de território ocupado por ferozes e inescrupulosos conquistadores da guerra de classes”.
“É a mais triste verdade”, foi o comentário singelo do António Paixão.

“Também nos causa muita estranheza o modo de operar das instituições de Estado no Brasil. Veja só o caso do presidente da República: ele é a favor da tortura, a favor dos ricos, a favor de uma sua ditadura pessoal, a favor do armamento de seus apoiadores; mas contra as mulheres, contra os negros, contra os indígenas, contra os pobres, contra o Judiciário, contra o Parlamento, contra os professores, contra as universidades públicas, contra os estudantes, contra nortistas e nordestinos e contra as florestas do país e de sua fauna. Ele é até mesmo contra as medidas de contenção da presente pandemia, não se incomoda com as mortes e ainda manda o povo tomar banho de esgoto”, disse o pesquisador marciano.

“O exército de seu país, no nosso entender, não tem razão de existir como tal, pois desprovido de qualquer poderio militar digno de nota. Parece que a instituição sirva apenas como sinecura para os seus integrantes atuais e reformados, bem como respectivos parentes. Causa-nos ainda profunda estranheza um quadro de cerca de 3 mil militares a ocupar postos civis no governo federal brasileiro. Tem-se a impressão de uma guarda pretoriana a postos para um autogolpe do presidente, em ensaio para a ditadura. Ademais, a política externa do Brasil foi entregue aos EUA por pessoas que acreditam que a terra é plana. Nós, que viemos do espaço, podemos assegurar que a terra é redonda, esférica mesmo”, completou XYZPRB-8.

“Obrigado pelo esclarecimento e convincente testemunho, que por estas plagas se faz hoje necessário”, respondeu educadamente o poeta.
“A respeito do Judiciário, quer nos parecer lá em Marte que os vossos juízes sejam como os militares. Buscam apenas suas vantagens corporativas pessoais. Eles gostam de ter pagamentos generosos e ricos desembolsos para viajar ao exterior, para comprar ternos nos EUA e gravatas na Itália. Praticam o nepotismo das maneiras mais criativas. O trabalho fica atrasado por décadas, mas não importa, o povo não merece justiça. Ela não é para a gentalha, plebe ou ralé, o que parece seja a atitude generalizada enraizada solidamente no ethos das classes dominantes. Quando desenvolvido, o serviço é feito pelos assessores, grupo interessante onde há apenas mulheres bonitas e rapazes bem-apessoados, quase todos brancos, bem cuidados, cheirosos e elegantes”.

“O mesmo parece ocorrer no vosso Parlamento”, continuou XYZPRB-8. “Os parlamentares brasileiros aparentemente exercem o mandato público em benefício próprio e de suas famílias, oficiais ou não. Tratam o que deveria ser um serviço público como um negócio. Votam de acordo com os interesses pessoais e sabe-se, em Marte, que muitos deles só se movem mediante vultuosos pagamentos feitos por entidades públicas que são a eles alocadas para exploração própria. Colocam-se no centro para que a logística de venda seja mais cômoda. Os liberais dispensam a rede de serviços públicos, que serve apenas à ralé sendo, portanto, desnecessária. Aliás, qual é o sentido da presença de um tal Deputado Alexandre Frota no parlamento brasileiro? Para quem mesmo trabalha o tal de Queirós”?

“Caro XYZPRB8” interrompeu António Paixão, “deixe-me tomar alguns muitos goles deste celestial bálsamo vinícola, porque fiquei deprimido com o quadro descrito por si, muito embora sabido, verdadeiro e apenas parcial. Servidos”?

“De fato, poeta, temos ainda cerca de 3.600 perguntas adicionais a respeito de temas como educação pública, pesquisa científica, direitos humanos, meio ambiente, agronegócio e pesticidas, distribuição de riquezas, forças armadas, política externa, comércio exterior, diplomacia, milícias fascistas, privatizações, desinformação ou Fake News, cultura, genocídio das populações indígenas e de segmentos dos infectos com o COVID-19, opressão à população negra, repressão às mulheres e às populações LGBT, dentre outros”.

“Meus queridos XYZPRB8, Ervil Alul 4 Ever e Angela Davis 2bis, gostaria de cumprimentar a todos os marcianos de vossa equipe pelo amplo trabalho desenvolvido a respeito do Brasil, que é da mais alta qualidade e pelo interesse em meu pobre país. De acordo com o que já vimos até o momento, não há necessidade de prosseguirmos em nossa conversa porque, daquilo que já foi tratado, resultou evidente que os problemas da falência do Estado brasileiro ficaram claramente expostos pelas próprias perguntas feitas até agora”, arrematou o poeta António Paixão, orgulhoso de ser bêbado, mas lúcido; e pobre, mas digno.

“Desejo muita saúde e boa viagem de regresso a Marte para vocês, mas não sem antes fazer o convite para desfilarem na escola de samba da Gaviões da Fiel, em nosso próximo carnaval, no bloco ‘Bons Marcianos são Corintianos’.
Vai Corinthians!!!!”

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.