O Joca e as massas Bolsonaristas

Do retiro etílico onde se encontra, o Poeta nos enviou o seguinte conto:

 

DA ESSÊNCIA DO ÓDIO E DAS NOTÍCIAS FALSAS.

Por António Paixão

O Brasil chegou aos 100 mil mortos e 21 milhões de infectados pelo COVID-19. Que horror! A pandemia e a criminosa incompetência do governo federal brasileiro cobraram à Nação um preço desproporcionalmente alto em vítimas e custo econômico, pelo prolongamento desnecessário da doença, pela imprevisibilidade e pela consequente inatividade empresarial. A política oficial de minimização dos efeitos da pandemia; a reação tardia e insuficiente; a crise de gestão; a deliberada falta de testes; a recomendação de medicamentos e procedimentos sem o devido respaldo científico; a falsificação de estatísticas; e a colocação do Ministério da Saúde em mãos de militares despreparados e não habilitados chocaram o mundo.

Enquanto isso, eu continuo em meu retiro obsequioso no isolamento num barril de vinho em São Roque, já há quatro meses e meio. Noutro dia, enquanto dormia, despejaram o conteúdo etílico de meu barril no maquinário de engarrafamento, incluindo a minha incauta pessoa. Enquanto o efeito pudesse ter sido devastador para mim, felizmente o pior que me aconteceu foi ter sido enrolhado nas partes menos nobres. E foi então, sob grande impacto emocional, com a rolha ainda inserida, que eu tomei a momentosa decisão de deixar o meu refúgio nos próximos dias, assim que possível.

Ao consultar minhas opções disponíveis pelo celular, deparei-me com os habituais discursos de ódio e fabricações de notícias falsas, as Fake News, pelo meu velho conhecido, o Joca. Rico e avaro, ele passa o dia no celular e no computador desavergonhadamente criando disparates, inverdades e falsidades, ao mesmo tempo que praticando crimes contra a honra de seus percebidos desafetos ideológicos. Ele participa de todas as mídias sociais e tem uma enorme rede de contatos com pessoas com as quais procura se identificar.

Para o Joca, o COVID-19 é um vírus desenvolvido na China, como parte de uma sinistra conspiração de Beijing para conquistar o mundo, na qual conta com o apoio coadjuvante de Cuba e de suas infames brigadas Henry Reeve, que impulsionam a pandemia mundo afora. Os efeitos devastadores daquela doença no Brasil são um legado do lula-petismo, levado a efeito por petralhas e esquerdopatas de todos os gêneros. Segundo ele, o governo Bolsonaro promove o redimensionamento das florestas pátrias, de maneira a acomodar as legítimas ambições econômicas do País.

O Joca sustém ainda que o estudante brasileiro é um boçal, não tem futuro sendo, por conseguinte, totalmente dispensável e merecendo quando muito uma educação à distância, de preferência nas favelas, enquanto aguarda morrer na esqualidez. A falta de saneamento básico no País seria necessária para controlar o crescimento populacional, onde deve ser feito, ao invés de se permitir o aborto, prática vedada por Deus. A mulher deve vestir rosa e calar a boca, de maneira contrita e resignada. O homossexualismo seria uma praga divina. O negro seria notória e desgraçadamente um elemento sub-humano.

Ainda segundo o Joca, os 55 milhões de brasileiros habitantes de favelas seriam uns vagabundos que não trabalham e que merecem a sua sorte. Não há fome no País: encontram-se mangas, goiabas e jabuticabas pelas ruas e avenidas e nutritivos peixes nos rios urbanos, como no Tietê e no Pinheiros. Ele sustém que todos os problemas do Brasil poderiam ser resolvidos exclusivamente pela iniciativa privada. A atividade econômica seria impulsionada somente pelos bancos e pelo capital rentista, pelo que tais setores devem ser isentos de tributação e incentivados. O Estado seria desnecessário, servindo apenas para atender os interesses tanto escusos como corruptos dos esquerdopatas de sempre, dos oportunistas petralhas e dos sórdidos comunistas.

O Joca é um velho conhecido de infância. Ele nunca aceitou suas origens humildes de filho de operário metalúrgico de origem portuguesa. Metido a besta, sempre desprezou o seu pai e se mirava nos comerciantes parentes se sua mãe. Nasceu franzino e foi levado a praticar natação pelo pai, para ganhar corpo. Era chamado de Joca por todos, que desconsideravam o belo nome lusófono, Joaquim Manoel. Dentre os muitos garotos do grupo, chamava a atenção pela magreza, pelo pouco desenvolvimento muscular e baixa estatura. Ele nunca atingiu um grau competitivo no esporte e era ignorado por todos. Sua insignificância ao menos evitava que fosse desprezado com maior vigor, mas ressentia-se da falta de amizades.

Foi reprovado em sua primeira escolha de escola pública, mas aceito na segunda opção. Estudava de acordo com o que era exigido pela rigorosa mãe, de origem italiana. Teve uma adolescência difícil, quando recorreu ao refúgio no comportamento assexual, já que as garotas não se interessavam por ele. Joca deixou mesmo de se masturbar, para evitar frustrações com os seus desejos eróticos. Desenvolveu assim uma grande carência afetiva e buscava a admiração pelos estudos e pelo radicalismo de posições nos mais diversos assuntos, através do qual procurava chamar a atenção. Tendo ingressado numa boa faculdade, continuou a ser vilipendiado. Sua triste figura afastava as pessoas.

Na cidade onde morava, Lajes, prevalecia uma ética da classe média arrogante, que menoscabava as classes operárias e as menos privilegiadas, de uma maneira geral. Joca buscava fugir do estereótipo a todo custo mas, quanto mais tentasse, suas tentativas eram repudiadas e ridicularizadas por todos. Joca não retribuía o ódio que lhe era dirigido. Ele apenas queria ser aceito e, talvez, amado por uns poucos, não necessariamente muitos. No entanto, Joca conseguia somente atrair a piedade de sua irmã mais jovem, que dele se compadecia. Teve unicamente um amigo, também marginalizado pela sociedade devido ao envolvimento com drogas e outros comportamentos idiossincráticos.

Na faculdade de Direito, que cursou em Curitiba, Joca continuou a ser um lobo solitário que recorria aos radicalismos da moda, no tocante a moda, músicas e outros, para chamar a atenção, sem grande sucesso. Ao fazê-lo, ao menos, ele se sentia parte do caudal principal dos jovens seus coetâneos, mesmo sendo desdenhado por sua insignificância física e origens provincianas e proletárias. Aos demais, restava evidente o seu desejo de ser aceito, sua carência afetiva, que eram ignorados e punidos com o sadismo de que são capazes os preconceituosos e os arrogantes. O pobre Joca ficava isolado nas festas acadêmicas e não era convidado para os eventos nas residências dos colegas da fechada sociedade local.
Terminado o curso, prestou um concurso público para a Secretaria dos Transportes do Estado do Paraná, para um cargo subalterno, tendo sido aprovado. Provou-se um funcionário exemplar. Cumpria rigorosamente suas atribuições e até mesmo chegava no horário para suas jornadas de trabalho, algo um tanto incomum. Ao invés de granjear a admiração de seus colegas, o desprezo continuou a acompanhar o nosso pobre Joca, que passou a odiar as pessoas na sua condição e aos trabalhadores e humildes de modo geral, incluindo o seu próprio pai. Resolveu amar o grande capital, os bancos, os rentistas, os industriais, os Estados Unidos da América e tudo o que aquele país representava, segundo sua visão.
Inspirava-se no imperialismo como o fator motriz do progresso e admirava-se com aquele inglês, de caráter profundamente civilizatório, e também do americano, que o sucedeu, com as mesmas características benignas, altruísticas e humanísticas. Leu notas biográficas a respeito dos economistas liberais e também dos neoliberais. Admirava-se com a Sociedade Mont Pèlerin, seus gênios e aqueles luminares da Escola de Chicago, onde estudou o Posto Ipiranga, o genial ministro da fazenda do Bolsonaro, que é contrário às políticas de saúde pública, por serem onerosas aos cofres do Estado. Ganhou dinheiro com as especulações imobiliárias, atividades que empreendeu a partir das economias deixadas por seu pai, o humilde metalúrgico.

Joca esperava afetividade das classes dominantes que o desprezavam e queria ser aceito por elas. Como não o conseguisse, nem mesmo ganhando dinheiro nas atividades imobiliárias, passou a odiar com grande ímpeto a democracia, o estado de Direito, os direitos humanos, as classes trabalhadoras, os bons princípios, a decência, a tolerância e a piedade. Quando somou ao ódio as construções e fabricações de extremadas notícias falsas e criminosas, veio a ser finalmente reconhecido por aqueles que admirava e ficou exultante.

“Vejam só o Joca:” disse um deles, “é um grande babaca, mas prestem atenção, é o nosso babaca”.

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.