O Guedes Posto Ipiranga e o desgoverno Bolsonaro

Impaciente com a situação brasileira, nosso Poeta nos envia mais uma crônica escrita em colaboração com o advogado Durval de Noronha Goyos Júnior.

O GUEDES POSTO IPIRANGA E O DESGOVERNO BOLSONARO.

Por António Paixão ,
com Durval de Noronha Goyos Júnior .

Certo é que o Guedes Posto Ipiranga não é o único vira-latas do desgoverno Bolsonaro, mas ele é particularmente desqualificado para o posto de ministro da Economia do Brasil, assim como muitos outros o são para posições equivalentes. O que dizer do ministro das Relações Exteriores, o boçal terraplanista Ernesto Araújo, visto como o Ribbentrop dos trópicos; da ministra Damares, da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, aquela dos encontros na goiabeira; do ministro do Meio Ambiente, o infame Salles, campeão absoluto do desmatamento; dos diversos palermas, parvos e mentecaptos que ocuparam o ministério da Educação; do ministro Moro da Justiça, ex-juiz com graves desvios funcionais; e do ectoplasma e fantasmagórico general que plaina sobre o etéreo cargo vago de ministro da Saúde, em meio de uma devastadora pandemia do vírus COVID 19?

O Guedes Posto Ipiranga é altamente inapto para o cargo de ministro da Economia, pela falta dos méritos pessoais necessários para o exercício da função. Isso ocorre também porque ele foi treinado pela Escola de Adestramento de Vira-Latas de Chicago, onde pessoas com o seu perfil elitista, sem consciência ética ou consistência moral, vão aprender como melhor servir os seus patrões imperialistas, em detrimento dos melhores interesses de seu próprio povo.

A expressão ‘complexo de vira-latas’ foi criada pelo grande escritor, jornalista, romancista, poeta e dramaturgo pernambucano, Nelson Rodrigues (1912-1980). Segundo ele o ‘complexo de vira- -latas’ seria a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro se comportaria como um narciso às avessas, propenso que é a cuspir em sua própria imagem. Todavia, o que faz do Guedes Posto Ipiranga um vira-latas diferenciado é que o seu complexo de inferioridade mostra-se apenas como mais um mecanismo para ser aproveitado institucionalmente na promoção de políticas de interesse das classes rentistas dominadoras e de seus patrões imperialistas.

Assim, Guedes Posto Ipiranga foi adestrado a admirar os Estados Unidos da América (EUA), apesar da devastadora influência negativa deste para a promoção de uma ordem jurídica global; para a impulsão de uma prosperidade coletiva; para o avanço dos direitos humanos; para a melhoria das condições climáticas e do meio ambiente; para o desarmamento mundial; para a eliminação do exercício arbitrário das próprias razões nas relações internacionais; para o fim do terrorismo de Estado; para o reconhecimento dos valores humanos numa escala acima dos ganhos financeiros; para a supressão do racismo institucionalizado, dentre outros fatores.

Ao Guedes Posto Ipiranga e aos seus colegas vira-latas foi ensinado não apenas reconhecer a voz do dono, mas a obedece-la robusta, religiosa e rigorosamente. Para tanto, eles devem manter uma atitude servil, de submissão absoluta aos interesses imperialistas representados pelos EUA e seus Estados clientes, da mesma forma que trabalhar em próximo contato com os agentes do capital, bancos e financeiras. A tributação deve ocorrer apenas sobre as atividades populares, como o consumo de produtos básicos, e jamais sobre os estratosféricos lucros dos bancos. Para esses existem as legítimas, lícitas e adequadas isenções tributárias, imprescindíveis para o bom funcionamento da economia e para a promoção da justiça social.

Não interessa para o centro imperial a educação das classes populares dos demais países. Ao contrário. Para tanto, devem os vira-latas negar recursos à educação pública, à pesquisa e à ciência. Os livros devem ser tributados, pois são um produto de luxo totalmente prescindível ao povo. É através dos livros que se transmite a ideologia espúria do nazi-comunismo e a odiosa cultura de gênero. O tributo é a queima preventiva dos livros. Basta, portanto, para os interesses nacionais, aquilo que é gerado no centro do Império, onde poderão estudar os filhotes, futuros vira-latas das elites. Para esses, enquanto são incentivados a desaprender o idioma pátrio, são estimulados a se valer de um linguajar dialetal, que possa marca-los como tais nos diversos contatos mundo afora.

A política de saúde pública deve promover a doença, a esqualidez e a morte seletiva dos pobres. É por isso que o saneamento básico e a promoção de moradias populares se revela totalmente dispensável. É através da miséria que se promove o legítimo controle populacional. A política de meio-ambiente deve favorecer o capital e o lucro, de maneira que as grandes empresas capitalistas, químicas, mineradoras, agrícolas e comerciais possam gerar maiores ganhos para os seus acionistas e dar opções para o jogo de cassino das bolsas de valores e de mercadorias do centro do Império. As obras de infraestrutura devem servir apenas aos interesses maiores da corrupção gerada pelo capital e não da cidadania.

Como o desgoverno Bolsonaro está a ser criticado universalmente por suas disparatadas políticas, incluindo as criminosas ações contrárias ao meio-ambiente, ao bem-estar, educação e saúde da população em geral, à vida dos indígenas, ao respeito aos negros e mulheres, as pressões da consciência internacional pesam sobre os bancos e empresas estrangeiras que fazem negócios com o Brasil. Nos primeiros 7 meses de 2020, enquanto o Real foi a moeda emergente que mais se desvalorizou face ao Dólar americano, tomou lugar uma desenfreada fuga de capitais do País, financiada aos bancos e rentistas pelo Banco Central do Brasil. Dramaticamente, os investimentos diretos no Brasil se tornaram negativos, em cerca de 11 bilhões de Dólares, no mesmo período.

Não tardou a ocorrência de uma forte reação dos consumidores internacionais, os quais ensaiam um boicote às mercadorias agrícolas e demais produtos brasileiros do agronegócio, produzidos sem uma gestão ambiental adequada. Na medida em que o Brasil se isola na comunidade internacional, por ações e omissões criminosas, alguns setores do desgoverno Bolsonaro, empurrados pelos setores capitalistas e financeiros, desejam uma interlocução para dissipar, ou ao menos obnubilar, a percepção da realidade e assim manter um clima que seja propício aos seus negócios.

Como os muitos generais patéticos que compõe o desgoverno Bolsonaro não apresentam o menor perfil para um diálogo com os diversos setores da comunidade internacional e os civis se apresentam caricatos e de triste figura, algum gênio terraplanista teve a ideia de escalar o Guedes Posto Ipiranga para tal mister. Afinal, ele estudou com louvor na Escola de Adestramento de Vira-Latas de Chicago e trabalhou na iniciativa privada como preeminente membro das classes capitalistas e rentistas. Contudo, a habilidade principal requerida de um banqueiro, a ausência de coração, e a capacidade de arrecadar juros extorsivos, sob a proteção das duras penas da lei, não proporcionam à pessoa necessariamente a qualidade de argumentação. Esta situação exclui, principalmente, a garantia da apresentação de uma versão que, se não verdadeira, ao menos seja minimamente verossímil.

E assim, o Guedes Posto Ipiranga foi enviado pelo desgoverno Bolsonaro à capital do Império, Washington, como bom vira-lata, para se apresentar, mais do que a investidores, empresários, banqueiros, diplomatas e acadêmicos, perante a opinião pública internacional, representada pelos órgãos de imprensa. Ali, o Guedes Posto Ipiranga surpreendeu-se com as insistentes perguntas sobre o combate à corrupção, sobre a condução da crise sanitária e sobre o desmatamento nas florestas brasileiras. Por sua vez, a nação brasileira não se surpreendeu com o despreparo do Guedes Posto Ipiranga. É sabido que estas questões não estão no curriculum da Escola de Adestramento de Vira Latas de Chicago.

Desta maneira, para estupefação geral, ele deu a todos a tanto desassombrada quanto batida e desmoralizada resposta clássica da ditadura militar brasileira: “Os militares estão dizendo, obrigado pela preocupação, mas essa é a nossa terra. São falsas as histórias de como matamos nossos índios” (sic). Afinal, concluiu o Guedes Posto Ipiranga, com a indigência mental típica dos membros do desgoverno Bolsonaro: “nossos militares não são como o General Custer” (sic).

De fato, como escreveu o grande escritor brasileiro, Nelson Rodrigues, com absoluta propriedade: “existem situações em que até os idiotas perdem a modéstia”.

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.