O folgazão, o feminicídio, o financismo e outras felonias

Nervoso com os últimos acontecimentos no Brasil atentatórios aos direitos humanos, o Poeta nos envia mais uma crônica, diretamente do barril de vinho de São Roque, onde faz obsequioso retiro e isolamento para a prevenção do COVID-19.

O folgazão estava visivelmente de mau humor. Teria tomado cloroquina de menos? Estava a doer a bicada da ema? Era prisão de ventre? Foi a diarreia da Ivermectina? Não se sabe. O fato é que berrou ao ajudante de ordens, o seu assistente pessoal, um militar da ativa:

“Chame aí o reverendo!”

“Qual deles, presidente?”

“Como qual deles, Major Anta?”

“É que são muitos em seu ministério, senhor. Outro dia ouvi mesmo uma referência de mau gosto ao “evangelistério”, pelo número de religiosos evangélicos na primeira linha do governo. Em sua excelsa administração, dizem que os reverendos perdem apenas para os generais, em número”.

“Major Anta, pode ser o que cuida da educação. Não me lembro o seu nome. Foram tantos que me esqueci. Apesar de bons, caíram no honroso cumprimento do dever. É a guerra! Refiro-me ao reverendo evangélico, naturalmente, ele que está pronto para fazer o trabalho divino de acabar com a educação no Brasil, juntamente com o Posto Ipiranga. Talquei”?

No meio da tarde, chegou o reverendo da educação para a audiência com o presidente e foi prontamente recebido pelo Major Anta, que o fez adentrar ao gabinete, não sem antes exibir com vaidade a enorme agulheta dourada ao lado direito do uniforme verde oliva do glorioso exército brasileiro, depois que o religioso expressou, sorridente, sua admiração.

“Olá Reverendo Educação, “o Senhor é bom”, saudou o presidente e ouviu como resposta do sorridente religioso: “Ele protege os que Nele confiam”.

“Como já lhe expliquei”, continuou o presidente, “eu tenho um mandato popular para acabar com a educação pública no Brasil, que só serve para desperdiçar dinheiro, abrigar veados, bichas esquisitas, comunistas, mulheres e maconheiros. Gente da pior espécie, tanto os professores como os alunos. Todos improdutivos e sem futuro. As mulheres, ao menos, poderemos mandar de volta para casa, para os serviços de submissão aos maridos, como quer a Reverenda Ministra Família. Para os demais, devemos usar a epidemia do COVID-19, enviada por Deus, com o propósito de fazer uma limpeza geral. Que maravilha será o nosso Brasil sem os nazi-comunistas, sem os veados e bichas de todas espécies, e sem alunos e professores plantadores e consumidores de maconha”.

Sim, senhor presidente”, respondeu o Reverendo Educação.

“Determinei ao Posto Ipiranga um dramático corte de R$ 1 bilhão para as universidades federais no orçamento de 2021. Segundo todos os meus especialistas, esta medida será eficaz para incompatibilizar o funcionamento das universidades federais, a curto prazo. A situação ficou fora de controle. A par das plantações de maconha e da fumaça do consumo incontrolado, que nossos inimigos atribuem à queimada das florestas amazônicas, tem a questão da mulher”.

“Questão da mulher, senhor presidente”?

“Sim, Reverendo Educação. A inutilidade da universidade federal brasileira é evidenciada de maneira dramática pelo número impossível de mulheres matriculadas, que supera os 55% do total. Isso é uma das heranças malditas do regime nazi-comunista que me precedeu. Vamos acabar com esta mamata. Que futuro teríamos nós brasileiros nas mãos das mulheres? Seria uma fraquejada institucional! Carai! A mulher brasileira entende que é dona do próprio corpo e apoia a prática do aborto! Isso Deus não quer e eu não irei permitir! A mulher é sabidamente propriedade privada e exclusiva de seu marido e deve servi-lo com humildade e fervor, na alegria e na tristeza, sem jamais questionar suas razões”.

“Sim, senhor presidente”.

“Você sabe, Reverendo Educação, que os nazi-comunistas e os fascistas lulo-petistas se utilizam de uma poderosa arma de propaganda, uma clara desinformação, no sentido que há no Brasil uma cultura machista de feminicídio. Dizem eles que, em nosso amado país, a cada 2 horas, 1 pessoa é assassinada por sua condição de mulher e que 405 mulheres e meninas são atendidas diariamente no SUS por agressão”, observou o presidente.

“Sim, senhor presidente”.

E prosseguiu: “isso é uma grande falsidade, uma absurda mentira. Se as mulheres são mortas ou agredidas, é por culpa delas próprias, que não sabem o seu lugar e não aceitam a doce e sublime cultura de submissão aos próprios esposos. As que repudiam os ditames do senhor dos lares, os maridos, estão sujeitas às punições divinas, como explicou a Reverenda Família. ‘Mulher veste rosa’. Não é assim, Reverendo Educação”?

“É verdade que foi o próprio Apóstolo Paulo quem mandou as mulheres serem submissas aos próprios maridos, senhor presidente”.

“Assim, Reverendo Educação, vou acabar com a educação pública no Brasil. O povo não precisa de educação. Esta gente desgraçada pode ir morrendo de fome, de doenças várias, de epidemias, da administração da justiça miliciana. Enquanto não passam para os braços de Deus, o povo pode trabalhar de entregador de mercadorias diversas. Os próprios milicianos oferecem muitas oportunidades neste sentido. O melhor lugar para começar este processo de limpeza é na universidade federal, porque ali existe um foco de resistência subversiva da mais alta periculosidade, que deve ser eliminado sem dó nem piedade”.

“Sim, senhor presidente”.

“Além disso, Reverendo Educação, o Posto Ipiranga me assegurou que os recursos assim economizados poderão ser aplicados em atividades economicamente produtivas. Afirmou-me ele com firmeza que os fundos poupados serão aplicados em rentáveis subsídios destinados para o setor bancário e financeiro do Brasil, de maneira que seus ganhos possam ser aumentados e os valores das ações brasileiras apreciem na Bolsa de Valores de Nova Iorque. Que patriota é o nosso Ministro Posto Ipiranga”!

“Sim, senhor presidente”.

“Reverendo Educação, não para aí! Irão sobrar subsídios para o setor do agronegócio, de maneira a manter saudável a balança comercial brasileira, atrair maiores investimentos e promover a abertura de novos campos para as plantações onde existem hoje improdutivas e poluídas florestas. Nosso Ministro das Queimadas está a desenvolver um belo trabalho e coordenou tudo com o Posto Ipiranga e com o Reverendo Justiça. Outra área a ser beneficiada com os subsídios e que nos trará igualmente enormes benefícios é a da mineração, levada adiante por heróis que cavam a riqueza de nosso subsolo sagrado. Talquei?

“Sim, senhor presidente”.

“Dispensado”.

António Paixão on EmailAntónio Paixão on Facebook
António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.