O fim do retiro e o oceano de tristezas.

Diretamente da abertura da Feira do Livro de Lisboa, onde hoje (27.08.2020) recebeu o Prêmio IG-NÓBIL, o Poeta nos enviou a crônica:

Imerso estava em minha barrica de vinho de São Roque, cumprindo meu retiro obsequioso para prevenção e terapia contra o COVID-19, quando recebi a visita de meu editor. Seu propósito era o de comunicar o fim de sua paciência comigo e também aquele de minha estação de imersão no bálsamo vinícola. Eu era convocado a partir para Lisboa de maneira a recepcionar o prêmio IG-Nóbil, que me fora meritoriamente agraciado. Disse-me o editor que meus livros andavam encalhados e que precisavam de promoção, além de um santo forte. A passagem estava comprada. A reserva de meu hotel feita e os enfermeiros do laboratório estavam à porta para o exame do COVID-19. Na melhor maneira dos miseráveis, obedeci. Tomei uma ducha de água morna e vesti os meus velhos trapos, que encontrei finalmente lavados e passados. Que luxo!

Deparei-me com um mundo exterior desolador. O céu estava plúmbeo. Fazia muito frio em São Paulo naquele 22 de agosto de 2020. A temperatura era de 7 graus centígrados. Chovia a cântaros. As favelas erguidas no entorno do Pico do Jaraguá davam um matiz dantesco àquele fim de tarde angustiante. Os parcos resquícios da Mata Atlântica nas escarpas da montanha apresentavam-se com falhas de onde havia sido retirada a madeira nobre para o comércio e aquela mais simples, para as fogueiras de inverno, acesas pelos cidadãos sem-teto que ergueram suas precárias barracas aqui e acolá. Perguntei-me triste e silenciosamente quantos desafortunados morreriam de frio naquela noite.

Ao adentrar na zona central de São Paulo, o Rio Tietê acomodava quantidades inimagináveis de lixo, levados pelas galerias de águas pluviais. As ruas encontravam-se apinhadas de miseráveis a pedir esmolas ou a vender comestíveis e água mineral. Famílias ensopadas pela inclemente chuva de inverno buscavam abrigo em improvisadas barracas de cobertura plástica sob as árvores, na expectativa de evitar a morte de frio. Cães abandonados famintos corriam alucinados pelas ruas, avenidas e alamedas. Pelos ares ecoava apenas a lembrança do gorjeio das maritacas que abandonaram os céus inamistosos da metrópole. Um ou outro automóvel de luxo procurava, em vão, escapar da indigência e promover a fuga da consciência dos condutores, em alta velocidade.

O Brasil contabilizada naquele dia 120 mil mortes pelo COVID-19 e mais de 20 milhões de contaminados pelo vírus, segundo estimativas, devido à deliberada ausência de testes generalizados e às estatísticas não confiáveis, da parte do governo federal. Nosso povo, que em grande parte habita as favelas, cortiços e relentos vários, sem água e esgoto, contava com o número de 18 milhões de desempregados, 20 milhões de subempregados e outro tanto de desocupados. A Nação sobrevivia de um pagamento emergencial mensal de R$ 600,00, menos de Euros 100,00, criado pela oposição parlamentar, na inação do governo federal.

Secaram os investimentos públicos na educação. Até mesmo as merendas escolares minguaram ou deixaram de ser disponibilizadas. Para os alunos da rede pública, o ensino à distância nada representava. O fosso entre as crianças ricas e aquelas pobres aumentava hora a hora. Essas, de sua perpétua esqualidez, aguardavam a contaminação pelo vírus COVID-19, a morte por uma bala perdida ou ainda pelas mãos de uma polícia infestada pelas milícias do crime e pautada pela misantropia, pela maldade e pela desumanidade. Aquelas crianças ou adolescentes de cor negra ou parda tinham muito maior probabilidade de se tornarem vítimas desta crueldade.

O cenário desolador agredia a consciência daqueles que não perderam a capacidade de indignação. Por sua vez, os insensíveis procuravam se esconder da realidade nos mais recônditos espaços de sua quase exaurida dignidade. A constatação de que o Brasil encontra-se chafurdando no esgoto restava inescapável. O Aeroporto Internacional de Guarulhos estava vazio. As lojas luxuosas, fechadas, exibiam ainda em suas vitrines os produtos supérfluos e disparatados a ofender o senso de decência que ainda sobra aos brasileiros, nestes momentos de agruras nacionais.
O avião de bandeira estrangeira estava com apenas um terço da capacidade. Os passageiros eram quase todos brasileiros e haviam perdido a capacidade de sorrir, apresentando-se cabisbaixos. Eles eram olhados com desconfiança e desprezo pela tripulação. Afinal, são os brasileiros culpados ou não pela eleição deste governo desditoso que agride a consciência humanística internacional? Um casal envergonhado procurava se comunicar num inglês sofrível, a tentar dissimular a origem nacional.

Na rota do voo, muitos incêndios podiam ser observados. Visto de cima, o Brasil ardia. Ora era a Mata Atlântica, ora o cerrado, ora a caatinga, mas o coração sabia que o País queimava também na Canastra, no Pantanal e na Amazônia, pois o cheiro acre do fumo permeava a alma e o crepitar dos fogos enlouquecia a gente. Junto com a flora, sempre desaparece a fauna. Pássaros e animais desorientados hoje buscam abrigo em pequenos capões de mato.

Os tucanos deixaram de voar em duplas e agora retiram-se em bandos de mais de 10 indivíduos, como se a implorar por proteção. Os atormentados tamanduás tornaram-se torturadas tochas ambulantes. Os nobres tatús não têm mais onde cavar e os lindos tiús onde se abrigar. Ambos são procurados para os assados dos mineradores, os quais cavaram grandes áreas e deixaram sua peçonha de metais pesados pelos rios e lagos, causando grande mortandade de peixes. A poluição do Rio Doce chegou até as águas azuis dos Abrolhos, turbando os resquícios e sepulturas da nau capitânia holandesa Utrecht, que jaziam pacificamente desde o século 17.

No lugar de nossa tradicional vegetação nativa, legado da Natureza e da preservação feita por gerações de brasileiros responsáveis, estão pastos e plantações onde agrotóxicos completam a devastação e matam até mesmo bilhões de abelhas. As populações nativas, assediadas de todos os lados, padecem ainda da sanha dos sorrateiros, sinistros e sórdidos, mas sorridentes missionários evangélicos que portam, dentre outros, o vírus do Mal. Vítimas do cruel genocídio, morrem os nossos nativos da mesma maneira que a abelha Jataí, nas mãos dos seus diversos algozes protegidos pelas instituições de Estado.

Ao aterrar insone em Lisboa, dei-me conta que só nos resta apelar à misericórdia Divina. Que horror!!!

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.