O poeta e o elenco dos porquês

Diretamente da Feira do Livro de Lisboa, o Poeta nos envia o seguinte conto:

Meu momento de apoteótica glória no dia 27 de agosto, com a recepção do Prêmio IG-NÓBIL 2020, na abertura da Feira do Livro de Lisboa, rapidamente chegou ao seu final. O entusiasmo dos admiradores ausentes e sua muda ovação me comoveu às lágrimas. Contudo, como nem tudo são flores na vida, na mesma ocasião fui informado que a exibição dos meus livros e de meus heterônimos, na barraca brasileira da Feira, de responsabilidade da embaixada do Brasil, havia sido proibida pela diplomacia do Medonho. Imediatamente, a solidariedade da comunidade dos escritores e editores portugueses se manifestou e minhas obras puderam ser exibidas em quiosques outros. Até mesmo um debate sobre algumas de minhas produções foi programado.

De qualquer maneira, fiquei com um gosto amargo na boca. Libertário, abomino a censura.  Desprezo intensamente aqueles que a praticam, de todo coração. O grande Papa Paulo VI aboliu o Index Librorum Prohibitorum em 1966, mas a diplomacia diabólica do Capeta estabeleceu a censura em 2020 para as obras brasileiras no exterior. Que horror! Onde chegamos! Parece que, ao invés de dar atendimento à população de 220 mil brasileiros desassistidos em Portugal, cuja situação se agravou com a pandemia, a embaixada do Brasil preferiu se encerrar nos seus luxuosos palácios e, dentre goles de champanhe francês,  listar livros ofensivos ao seu nefasto caráter.

Pelo seu perfil absolutamente corporativista, os diplomatas brasileiros, de um modo geral, prestam-se a servir a qualquer senhor. Nacional ou estrangeiro. Tudo em nome das vantagens, benesses e regalias pessoais! Foi assim na sombria época da ditadura, quando diplomatas brasileiros fotografavam estudantes no exterior, em protesto político, para permitir que os órgãos da repressão os punissem quando do regresso ao País. Eles também negavam sistematicamente assistência consular a exilados políticos. Este ethos persiste nos dias de hoje, ainda mais com o abominável, tenebroso, tétrico e torpe Ribbentrop dos Trópicos a chefiar o serviço exterior fascista do governo brasileiro.

A diplomacia brasileira, a meu ver, estaria melhor servida se composta por legítimos representantes da sociedade brasileira, em regime rotativo. Professores, estudantes, médicas, dentistas, operários, sindicalistas, entregadores autônomos, ambientalistas, líderes de comunidade, trabalhadores do sexo, trabalhadores sem-terra, trabalhadoras sem teto, cineastas, cordelistas, músicos, bordadeiras, cantoras, advogadas, engenheiras e escritores melhor serviriam aos interesses nacionais. Que tal alguns negros, indígenas e pardas, para maior representatividade étnica? Pior do que a desprezível e indigna canalha, representada na medida pela embaixada em Portugal, fica difícil.

A minha porta do triunfo, “Porta Triumphalis”, como diziam os romanos, estava na pensão da Rua Luciano Cordeiro, nas proximidades da Rua Conde de Redondo e da Avenida Duque de Loulé, para onde me dirigi após a Feira do Livro, já pelas 23:00 horas. Naquela área, que me é assaz familiar, encontrei-me com algumas vivazes amigas brasileiras que se divertem às largas pelos bares e clubes lisboetas, cuidadosamente maquiadas, perfumadas discretamente, e vestidas com elegância, de maneira um tanto extravagante, mas jamais espalhafatosa. Simpáticas e sorridentes, ajudaram-me a beber algumas das garrafas de Terras do Crato que ganhei com meu prêmio.

No dia seguinte, uma segunda-feira, logo à primeira hora, às 14:00, dirigi-me àquele extraordinário templo da gastronomia portuguesa, a Taberna dos Sabores, onde fui recebido pelos proprietários, o Elder e a Carla Santos, marido e mulher, com uma garrafa de Douro Touriga Nacional em mãos. “Depois de tanto vinho do Alentejo, você precisa se refrescar com um revigorante Touriga Nacional do Douro”. Como não quis ser deselegante com os meus amigos, aceitei de bom grado o copo e também a garrafa, que logo empunhei com firmeza e determinação, para maior segurança do precioso líquido.

Mal sentei à mesa, veio o Elder com um copo vazio, colocou-se à minha frente e se serviu do meu vinho, o que achei um pouco de atrevimento de sua parte. Graciosamente, resolvi relevar, depois de algum esforço. À queima roupa, e sem esperar que eu terminasse a primeira garrafa, dando assim início aos trabalhos, de maneira séria e profissional, ele disparou:

“Diga-me, ó Poeta, afinal, por que o Queirós depositou 89 mil reais na conta da Michelle Bolsonaro? Posso lhe assegurar que em conta de minha mulher ninguém jamais fez tamanha bondade”!

“É a pergunta que não quer calar na boca da nação brasileira. Contudo, nem ela, nem o marido se manifestaram a respeito, a não ser para ameaçar a imprensa com porradas”, respondi com toda a sinceridade.

“Poeta”, disse-me ele, “parece que são muitos os porquês que pairam nos ares do Brasil atual, não é verdade”?

“Sim, Elder. Estou ainda um pouco atordoado pelo excesso de água consumido ontem por ocasião da Feira do Livro, mas posso fazer um resumido elenco dos porquês que nos afligem nos dias de hoje”.

“Sei. Pois não”, disse-me ele.

Continuei, portanto, “lembro-me das seguintes dúvidas adicionais dos brasileiros no momento. Há outras, é certo:

Por que mataram a Marielle? Quem são os homicidas?;

Por que as milícias controlam bairros inteiros no Rio de Janeiro?;

Por que há tantas favelas no Brasil?;

Por que o feminicídio é tão comum no País?;

Por que são os jovens negros as maiores vítimas da violência policial?;

Por que o Judiciário, que deveria administrar a Justiça, dá golpe de Estado?;

Por que os juízes brasileiros tanto ganham e pouco trabalham?;

Por que há tantos militares no governo do Abominável?;

Por que o Brasil não tem ministro da saúde no meio de uma pandemia?;

Por que foram expulsos os médicos cubanos?;

Por que ardem as florestas brasileiras?;

Por que o povo brasileiro passa fome?;

Por que o ministro do meio ambiente é favorável à destruição das florestas?;

Por que morrem os indígenas brasileiros?;

Por que quase não mais há abelhas no Brasil?;

Por que quase todos os pastores evangélicos são corruptos e exploram a crendice popular?;

Por que há tantos pastores evangélicos no governo do Melífluo?;

Por que faltam recursos para a saúde pública?;

Por que há tantos cortes nos fundos para a educação?;

Por que sobra dinheiro para as forças armadas?;

Por que os bancos são os únicos ganhadores na economia brasileira?;

Por que desejam tributar os livros?;

Por que o capital rentista não paga impostos e tem subsídios?;

Por que o povo brasileiro elegeu um indigente mental, o Tinhoso, para a presidência da República?;

Na realidade, meu caro Elder, os porquês trazem intrínseca a resposta: é o fascismo em ação”!

A garrafa estava vazia.

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.