O poeta entrevista o Banqueiro.

Novo conto do Poeta.

O relógio marcava 15:00 horas. O metrô deixou o Bardo do Bixiga nas cercanias do Largo de Pinheiros, naquela segunda feira. Ali mesmo, ele tomou outra condução no ponto de ônibus. O trajeto pela larga Faria Lima, o principal centro financeiro de São Paulo, passava por imponentes prédios. No canteiro central, circulavam algumas bicicletas. Pelas calçadas, havia pouca gente. Muitas SUVs circulavam com Limers. Fazia uma temperatura amena. Por isso, seu paletó preto, camisa branca e a gravata vermelha nele forçados pela misantropa Gigi, sua crudelíssima e disciplinadora mulher, não incomodavam muito. Chegara o dia da entrevista do banqueiro Luís Felipe Gastão de Toledo Pisa e Vidigal III, presidente do banco Novo Kool, Brazil (NOKOOL BRAZIL), que faria para o jornal AVANTE, de Portugal, pela qual recebera um mil Euros.

O monumental edifício da sede do banco parecia uma versão luxuosa do século 21 da pirâmide de Quéops. Seria o mausoléu do povo brasileiro? O átrio do NOKOOL BRAZIL era maior do que o Mercado de Pinheiros. Ali, antes dos corredores dos elevadores, havia uma bancada de onde sorridentes moças vestidas com uniforme nas cores vermelha, branco e azul atendiam aos visitantes. Pairava um odor agridoce no ar condicionado, não totalmente dissimilar daquele dos puteiros chiques, mas ainda mais refinado. “Curioso o ambiente. Onde estarão as putas?!”, pensou o Poeta já sabendo da resposta.

Instado a se identificar, o Trovador do Timão apresentou sua carteirinha da Gaviões da Fiel. Consultado, o gabinete do presidente autorizou o seu acesso. A velocidade do elevador deu-lhe um frio na barriga, pior daquele sentido quando um juiz ladrão marca um pênalti contra o Corinthians. Foi então conduzido a uma sala de reuniões com uma enorme mesa ladeada por 50 cadeiras. Adiante da cabeceira, havia vários monitores de televisão, cada qual a indicar a posição das diversas bolsas de valores e de mercadorias, para além de notícias econômicas. O câmbio das várias moedas aparecia noutros aparelhos. A secretária ofereceu café e água, aceitos pelo Vate, que pensou: “Quanta generosidade! Tanta frescura e só oferecem café e água?!!!”

“Hi. Call me Phil”, disse o jovial senhor de meia-idade, com um meio sorriso anêmico e forçado por inteiro. Ele vestia um paletó azul marinho de botões dourados, calças cinzas e camisa listrada. Sem gravata. “É neste conference room que fazer as conferences, presentations e meetings aos Market players, shareholders e stakeholders sobre o nosso corebusiness e performance indicators. Também aqui fazer briefings, interviews e brainstorms. We work hard in nosso can do team”.

“Eu Paixão. Passou bem? Represento o jornal Avante, do Partido Comunista Português (PCP), com 100 anos de lutas, glórias e tradições na defesa do humanismo e da decência”.

“Brilliant! Awesome! Delighted dar interview for international press. Mesmo a comunista. Hahaha. NOKOOL BRAZIL querer always mandar subliminar mensagem para o people”.

“Em primeiro lugar, Phil, eu gostaria de saber a origem do nome NOKOOL BRAZIL. Parece-me algo insólito”.
“I see. Old name era Banco Mercantil de Descontos Creditícios, known as MERDESCO. Não ser bom. Eu contratar publicitário baiano para mudar corporate image. Ele inventar NOKOOL BRAZIL. Baiano, we all know, ser good só para o candomblé, o axé e o acarajé. Publicidade fazer parte axé. For the rest, baiano não prestar”.

“Parece que Ruy Barbosa, Jorge Amado, João Ubaldo, Castro Alves, Glauber Rocha, Milton Santos, Anísio Teixeira, Irmã Dulce, Mãe Menininha do Gantois, Carlos Marighela e até mesmo Gregório de Mattos Guerra, gostavam de acarajé. Aliás, foi Glauber Rocha quem criou o epíteto de ‘príncipe dos sociólogos’ para FHC. Sarcasticamente, é claro”.

“See, eu ter razão. Baiano servir para inventar slogan. Ele also sugerir lema ‘Rape, Prejudice and Pillage’. Verdadeiro, brilliant, mas too much so”.

“Phil, conte-nos um pouco sobre sua família e também si próprio”.

“We are Brazil’s history. One dos meus ancestrais ir para nordeste expulsar holandeses. Nordestinos no good. Ele ganhar Money aí. Também ganhar Money escravizando Indians. After, Money ser usado para financiar tráfico de negros. Assim começar nossa beautiful tradition. When Império fazer cagada e abolir escravidão, then we resolver abolir Império. Afterwards, fazer always governments trabalhar para banca. This is how democracy funcionar in Brazil. Money is all”.

“Quer dizer, então, Phil, que os governos do Brasil sempre trabalharam para a banca?”
“Of course. Elementary, my dear. Trabalhar para banca ser servir people. Quando government não trabalhar bem, nós trocar government ou regime. Always colocar melhor. Little people não entender. Then, banca escolher. Always better.”

“Mas Phil, às vezes o governo é de direita, às vezes de esquerda e, às vezes, de centro. Como é possível atender sempre aos vossos interesses”?

“Só importa lucro banca. Money ser a alma of the nation. Monetary policy is fundamental. The Markets like that. But, sometimes, crise também ser boa para ganhar Money. Money is all.”

“Dostoyevsky observou que ‘o dinheiro é uma espécie de liberdade que pode ser sentida e ouvida; um tesouro inestimável para o homem totalmente destituído da verdadeira liberdade’”.

“Não confiar very much in escritor comunista”.

“Dostoyevsky nasceu 100 anos antes da revolução soviética. Mas, Phil, conte-nos um pouco sobre sua história pessoal”.
“It’s a very simple life. Born in Jardim Europa, São Paulo. Morar ainda mesmo bairro. Casa ficar aqui atrás, one thousand meters, mas vir de helicóptero. Hahaha. Studies escola americana, CAPIVARA; church evangélica; engenharia USP; master Chicago School of Economics. Começar de baixo: vice-president banco Daddy. Casar filha de grande acionista outro banco, escolhida por Daddy. Afterwards, total merger. Hahaha. Perfect marriage. Three children estudar England. Brazil dangerous”.

“Phil, qual é a função social do NOKOOL?”
“Paixão, ser a dos bancos. To make Money. Money is all. Money ser alma da nação, trazer a felicidade, popularity, prosperidade, bondade e a caridade”.
“Para quem, Phil”?

“A felicidade dos bankers; a popularity do capitalism; a prosperidade dos rentistas; a bondade dos políticos; e a caridade do government. Tudo for a price, of course. Money is all!”
“E depois, Phil? O que fazer com o dinheiro”?

“Ganhar mais Money. Aplicar para ganhar. Money is all. Accumulation of capital is the name of the game. Emprestar só para government, assim tudo under control. Nem pensar dar dinheiro little people, nem para businessmen. Todos babaca. Lucros invest in US dollars. In God we trust. Hahaha.”

“E o povo, Phil”?
“Deixar people viver. Life is our generous gift to the people. Hahaha. People não precisar much more. Enough morar em maloca; enough comer farinha e feijão; enough trabalhar de pedreiro e empregada; enough torcer para awful team Itaquera. People não precisar estudar. People estudado vira comuna! People não precisar de saúde, água ou esgoto. Excess people dever morrer. Brazil não poder ter more people. Economy não aguentar”.

“Phil, em 2020, a somatória dos ativos dos bancos brasileiros, no valor de R$ 7,36 trilhões superou aquele do PIB do Brasil, ou toda a economia do País. Isso não encontra paralelos. Ao mesmo tempo, o lucro do setor bancário brasileiro, foi o maior do mundo e cresceu enquanto o PIB diminuiu. Mesmo neste quadro, apenas no ano passado o setor bancário demitiu 13 mil trabalhadores, em plena pandemia”.

“Hahaha. Um Brazil para 20 mil. Our growth shows efficient banca face incompetent government and pathetic people. Nós ser Money. Money is all. Money ser Deus. Nós ser Market. Nós ser Justice. Nós ser beautiful. O Market manda”!

“Escutei”, concluiu o Poeta. E pensou: “Que monstro predador, corrupto e daninho! Razão assistia ao meu grande e inesquecível colega, Gabriel Garcia Márquez, quando escreveu ‘há uma força perniciosa e profunda que se assenta no coração dos homens e que não se pode derrotar a bala: a colonização mental ’. Eu me lembraria de outra: a desumanidade”.

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.