Annus Horribilis – 2020 – livro de contos e crônicas.

Novo conto e livro do poeta.

O Poeta estava feliz. Seu livro “Annus Horribilis – 2020 – Escritos da Barrica” sairia do prelo no dia 16 de abril de 2021 e já estava disponível para pré-vendas às suas infiéis leitoras e ao público em geral. Note-se que a obra é contraindicada para Bolsominions e outros diabretes. Não obstante estar contente, o Poeta reclamava do pequeno percentual de direitos autorais que recebem os escritores no Brasil: apenas de 5% a 10% do preço de capa. Contra esta remuneração, se o País dependesse dos banqueiros para a produção literária, pensava o Bardo, viveríamos num deserto cultural. Com o desgoverno do abominável Capetão de Coturno, a situação civilizatória e educacional no Brasil ademais tende a piorar. Tributação para os livros e isenção para as armas, é a sinistra política do Mefistófeles Caipira. Coisa do Inferno. Um horror. Pobre Brasil.

Voltando à literatura, a obra do Trovador do Timão tem o substancioso prefácio do colega jornalista e poeta, Adalberto Monteiro, escriba de bom caráter, ótimos princípios e grande sensibilidade lírica e política. De acordo com Adalberto Monteiro, “’Annus Horribilis – 2020’ é um livro de combate. E, desde Cervantes, se soube que o humor é uma arma tão eficaz quanto a espada. António Paixão demonstra que a alegria, a ironia, o escárnio são, por vezes punhais mais eficazes do que as armas convencionais. Este livro, ou adaga, entre tantos aprendizados, apresenta-nos a lição de que o neofascismo não se enfrenta com a polidez de datas vênias ou tapas de luvas de pelica. Para esmagar o fascismo, como a um inseto, parafraseando Carlos Drummond de Andrade, é necessário que a resistência tenha no seu arsenal a contundência da verdade e a virulência do escracho”.

“E,” continua mais adiante em sua precisa análise lógica o admirado jornalista e dedicado poeta Adalberto Monteiro, “quando a literatura faz as pessoas zombarem do tirano e ridicularizarem seu clã e sua corte, a tirania fascista é despida de sua falsa inexpugnabilidade, cria a consciência do engajamento na jornada da resistência e nas fileiras da frente ampla em defesa da vida, da democracia, do desenvolvimento soberano e dos direitos”.

“Conto a conto, crônica a crônica, página a página, António Paixão acusa, denuncia, sob o primado da verdade, alicerçado em fatos, com a didática predominantemente e envolvente do riso, mas também de empatia das lágrimas, os crimes do fascismo bolsonarista. Annus Horribilis – 2020 é um livro que confronta o Malvado, como já se disse, é um tiro de bazuca no coração do fascismo, mas que é impossível de ser lido sem que o fluxo da leitura seja benignamente interrompido por gargalhadas do leitor e da leitora”.

Mais adiante, Adalberto Monteiro deu sua percepção do perfil de António Paixão, conhecido nos bares da Paulicéia como o Trovador do Timão, Bardo do Bixiga ou ainda o Vate da Gaviões da Fiel, nas seguintes palavras: “ O escritor António Paixão é um boêmio antifascista e um partidário resoluto da civilização – um erudito que mescla a sabedoria macunaímica dos botequins do Brasil e de Portugal e a densa cultura dos pensadores humanistas. É assim que enfrenta a maré tóxica do fascismo. Ele é um cidadão do mundo, mas é sobretudo um patriota que ama imensamente o Brasil e o povo brasileiro”.

De sua parte, o Trovador do Timão, o nosso António Paixão, ficou satisfeito com as sinceras, profundas e verdadeiras palavras de seu colega, Adalberto Monteiro. Estava ele imerso nestes agradáveis devaneios em sua confortável maloca no Bixiga, quando bateram à porta. Era uma encomenda. Um grande caixote de vinhos, em madeira, com a inscrição “Quinta do Caleiro – Douro, Portugal”! Logo acorreu a Gigi Dell’Amore, sua mulher, aquela desvairada. “Dê-me esta caixa”, disse ela com voz de quem deva ser obedecida. “Fique com o envelope”, continuou. Era um bilhete do Ruy Nogueira, o assessor de imprensa do Bardo, com os dizeres: “Com meus parabéns e votos de sucesso para o Annus Horribilis – 2020. Para você beber quando tiver vendido 3 mil exemplares e não antes”, leu o Poeta em voz alta.

“Hahaha”, soltou a desalmada Gigi, aquela incivil, indecorosa e insolente sorveteira do Bixiga: “você só venderá os 3 mil exemplares quando o Corinthians for campeão. No dia de São Nunca”. Humilhado, mas inconformado, insurrecto e pertinaz, o Bardo replicou doce e diplomaticamente: “Farei como os banqueiros: venderei um futuro”. “Ubriacone di cazzo”, respondeu sua mulher, perdendo a paciência no presente. “Pas de vulgarité, s’il vous plait. Tous se comprend, sauf la vulgarité”, respondeu o Poeta, com a coragem dos desesperados, aflitos e desabalados.

“Ademais, como é sabido, não sou bêbado, sou um refinado, galante e gentil enófilo”.
“Mannaggia”!

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.