Como fazer um Ministro

Conto publicado em 09 de julho de 2020.

Por António Paixão

“Não pode ser”, disse o presidente. “Foram-se três ministros da educação em menos de um ano e meio! Tudo por culpa dos comunistas-fascistas da maldita imprensa do caralho! Eles querem derrubar a voz do povo, no que têm o auxílio, em conluio criminoso, de membros do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF). Excelentes pessoas, todos eles, quero dizer os meus ex-ministros. Lúcidos, preparados e bem-intencionados. O primeiro caiu apenas por plagiar o Joseph Goebbels quem, a bem da verdade, dizia muita coisa certa. O segundo, apenas por criticar a China comunista, chamar os professores de maconheiros e os estudantes de inúteis sem futuro. O terceiro, porque implicaram com certos pontos de seu currículo que não foram confirmados pelas instituições citadas, como o doutorado, o pós-doutorado e mesmo o emprego de professor, sem falar em plágio no mestrado. Peço menos, não questionaram o diploma dele do Grupo Escolar, senão eu iria ficar muito puto da vida, tá ok”?

“Cassandro”, complementou ele, “não adianta mais apenas dar um Google no nome dos candidatos a ministro. Nosso serviço de informações deve fazer um esforço mais além e levantar maiores dados a respeito do indivíduo a ser indicado”.
“Sim, senhor presidente”, respondeu o General Cassandro batendo continência, com o braço torto e as costas deformadas pela escoliose e lordose, causadas pelos árduos esforços dos muitos anos servindo valentemente nas mesas dos variados postos burocráticos, no Brasil e no exterior. Desta vez, não falharemos. Iremos investigar até mesmo o que o candidato come no café da manhã e como aquilo é cagado no dia seguinte”.

“Bom esforço, mas não adianta, Cassandro. Precisamos mesmo é de alguém sem passado. Uma alma virgem intacta. Isso mesmo, caso contrário a propaganda comunista irá inventar algo para indispor o nosso homem e o nosso governo com o povo brasileiro, e o nosso inspirador aliado sagrado, o grande luminar Donald Trump”.

“Sem passado, Presidente? Todos nós gostaríamos, de uma forma ou outra, de apagar nosso passado, não é mesmo? Muitos querem apagar até mesmo o presente. Ahahah. Mas tal não me parece possível no mundo de hoje e nos assuntos de Estado. O que, sim, podemos fazer é apagar o futuro desta ralé comunista. Gente horrorosa. Temos até o receituário pronto para uso”.
“Devagar com o andor que o santo é de barro, Cassandro. Ahahah. Vamos, por enquanto, encontrar uma alma virgem e pura e transformá-la num estadista, tá ok? Mas tem que ser um militar, preferencialmente do exército”, instruiu o presidente, já escaldado por muitos e variados escândalos.

“Um militar virgem e puro?”, perguntou com estupefação e incredulidade o General Cassandro. “Missão impossível. Farei um esforço galante na busca do elemento com este perfil, mas a guerra está perdida, posso lhe assegurar. Não se trata de pessimismo, mas de sóbrio realismo”.

“Cassandro, para ser virgem e puro, tem que ser um recruta. Encontre-me um recruta representativo do povo brasileiro: pardo, burro, obediente, resignado, ignorante, fedorento, faminto e desejoso de ser alguém com o menor esforço. Em suma: um ser desprezível! Nem precisa ser alfabetizado. Estará aí o nosso ministro, tá ok? O seu currículo o construiremos nós, com ajuda de nossa secretaria especial de Fake News, a área mais competente deste governo de Deus, que está sempre acima de tudo e de todos”.

“Mas presidente”, respondeu o General Cassandro, “estamos a falar do Ministério da Educação, que requer alguém com o mínimo de conhecimento técnico especializado. Com perdão da má palavra, talvez até mesmo um professor, que Deus nos ajude”!
“Que nada, Cassandro. Este é um ministério de merda. A única educação necessária no Brasil é a dos quartéis. As escolas servem apenas para tirar os jovens arruaceiros e seus professores comunistas das ruas. Você sabe que são todos maconheiros, veados e degenerados, não? É muito importante lembrar que as escolas servem também para, em sua construção, gerar comissões destinadas a comprar os políticos corruptos, sem os quais não se governa este país”.

“Sim, senhor”!

“Veja bem, Cassandro, o que aconteceu com o ministério da saúde, no meio da pandemia. Optei por colocar um fantasma como ministro. Como o fantasma da ópera, ahahah. Assim, nenhum dos comunistas-fascistas da sórdida imprensa brasileira de merda poderia colocar a culpa nele pelos 70 mil mortos, pelos 3 milhões de infectados pelo COVID-19, pela falta de testes de diagnósticos, pelas estatísticas imprecisas ou criativas, pela falta de UTIs, pela falta de leitos dedicados, pela falta de equipamentos de proteção individual para os trabalhadores da saúde, que morrem infectados como baratas. Como não há ministro, a imunda imprensa comunista-fascista, e nem mesmo os canalhas, vagabundos e meliantes do STF, poderão querer incriminar um fantasma. Não há culpados”!

“Por outro lado”, continuou o presidente, “coloquei um infeliz com cara de bom rapaz para ser ministro do meio ambiente. Rapaz simpático. Toda mãe o queria para genro. Não deu certo. Foi só ele destruir o equivalente a uma Alemanha em florestas brasileiras, acabar com os indígenas, com a fauna e até mesmo com as abelhas, para a imprensa internacional comunista o agredir injustamente. Órgãos de imprensa notoriamente comunistas radicais, como The Telegraph, The Economist, The Gardian, The New York Times, The Washington Post, Corriere della Sera, El País, dentre outros, vivem espinafrando o nosso governo. Nossa administração, através do ministro, apenas busca o progresso do país, com rentáveis áreas de mineração, extração de madeira e plantações de soja, onde havia imprestáveis florestas, além do uso amplo, abundante e irrestrito de agrotóxicos. Eu seguro o garoto no posto a duras penas”.
“Sim, senhor”, respondeu o general.

Horas depois, aparece o General Cassandro acompanhado de um jovem soldado, trêmulo e mal à vontade. Ele alisava constantemente o seu uniforme e olhava para alguns segmentos de cor marrom esverdeada não identificados em seus coturnos. O rapaz era pardo, franzino e tinha o olhar temeroso dos estupefatos ou dos famintos, perdido no espaço.

“Este aqui é o soldado Aparecido de Jesus da Silva”, disse o General Cassandro. “Ele está lotado no 1º Regimento de Cavalaria de Guardas, os Dragões da Independência, onde serve nas cocheiras do centro hípico. O Aparecido é natural da zona rural de Januária, no norte de Minas Gerais, na área da Sudene, onde seus pais tem um minifúndio próximo do Rio São Francisco direcionado para a economia de subsistência”.

“Muito bem, Cassandro. Parece que estamos no caminho certo”. “Bom dia, Soldado Aparecido de Jesus, fique em pé aí mesmo, mas pode pegar aqui umas balinhas de cloroquina. Originalmente, eram comprimidos. Mandei fazer 18 milhões deles porque o nosso líder, o excelso Donald Trump, disse que era bom para prevenir e curar o COVID-19. O Tesouro Nacional pagou tudo e o Guedes ficou puto. Aquele punheta só gosta de dar para os bancos. Agora dizem que os comprimidos não funcionam e que podem até mesmo matar. Tenho que achar um uso para esta porra e transformei os comprimidos em balinhas para as pessoas chuparem. Brasileiro chupa pau, chupa cu e chupa buceta e não pode também chupar cloroquina? Mudando de assunto, você gosta de cavalos, Aparecido”?

“Sim sinhô, capetão. Ocê mi discurpa, capitão. Óia. Os bichinho è mió que genti. Num teim mardade”.

“É verdade, Aparecido, eu também prefiro os cavalos aos comunistas das escolas e da imprensa. Você dá comida, que eles cagam tudo e ficam felizes; a vida dos cavalos é o alegre festival das cagadas, que inveja! O grande General João Batista de Oliveira Figueiredo, emérito ditador, dizia que os cavalos eram melhores que o povo”, respondeu o presidente. “Diga-me como é a sua vida em Januária, Minas Gerais, Brasil”.

“Oia capetão, ocê mi discurpa, capitão. Discurpa. Meus pais num tinha nada, mais ganharu um tiquin de terra do Lula, lá no breju pertu du Riu São Franciscu. Ele tamém botô luiz elétrica pra mor da genti vê a redi grobu. Ó sô, lá nóis teim roça di mandioca, di cana, mii, maxixi, bóbrão, minduim, quiabu, manga, mer di abeia jataí, pitomba e piqui. Tem tamém umas galinha. Uma fartura”.
“E o que vocês comem lá, Aparecido”?, perguntou o General Cassandro.

“ Nóis comi de tudu. Cedu nóis comi cuscuz di mii cum café. Quandu num teim cuscuz, nóis usa a farinha di mandioca, cum água du riu. Nu armoçu, nóis comi arrois cum quiabu e ovu. Àis veis, jiló. Nus dumingu, teim frangu tamém, cum a cachaça Claudionor, danada de boa, sô. Na janta, é farinha di mandioca cum rapadura e café. Uma dilícia”.

“Falando em comida”, disse o presidente, “está quase na hora do rancho, mas antes temos que assistir à parada cívico-militar do dia, importante iniciativa patriótica e educativa de nosso governo. Venham ver tudo comigo da plataforma”.

Enquanto isso, os dois irmãos goianos, Cosme e Damião Bahia, estudantes da Universidade Nacional de Brasília (UNB), estavam na esplanada para assistir ao desfile do presidente, algo inusitado na democracia brasileira, por sua composição de exóticos tipos heterogêneos, viés ideológico de extrema direita e marcado perfil caricato. Esperavam os irmãos se divertir com o espetáculo bufo e circense de mal gosto. A situação estava efervescente. A polícia de choque do Distrito Federal estava a postos.

De um lado, um número pequeno, mas barulhento de apoiadores do presidente, vestidos com a camisa da seleção brasileira de futebol, gritava “Mito, Mito, Mito”, e soava apitos. De outro, uma multidão vestida predominantemente de preto e branco levantava faixas e bandeiras da gloriosa entidade humanista, Gaviões da Fiel, de grandes tradições democráticas, e gritava “ô, ô, ô, fora ditador”. No canto, um núcleo da Mancha Verde, originário lá da Mooca, engrossava as fileiras da oposição, acompanhados da combativa e formidável Wanda La Selva, com a camisa da Gaviões.

Repentinamente, ouviram os acordes de uma fanfarra militar e logo apareceram os primeiros componentes. “O presidente insiste que os seus apoiadores mais próximos participem”, disse Damião a Cosmo. “Todos os cerca de 3.000 militares, a maioria dos quais do Exército, que fazem parte de seu governo têm que estar presentes. Da mesma forma, os milicianos pessoais do presidente, baseados em Brasília normalmente aparecem para abrir o desfile e portar a bandeira. Às vezes, vêm milicianos famosos de outros rincões”, ele continuou.

“Lá vêm eles”, disse Cosmo a Damião. “Veja só: o desfile é aberto pela milícia particular do presidente, que traz a miliciana führer, Sara Winter, como porta-bandeiras. Ela traz os pavilhões dos Estados Unidos da América e de Israel. KKK. O seu sobrenome verdadeiro é Geromini. Ela tem peitos de silicone ao invés de cérebro. Ahahah. Além dos peitos, até o nome é falso, a Sarah Winter original foi uma espiã nazista no Reino Unido e afiliada à União Britânica Fascista”.
“Ao seu lado”, continuou Cosmo com o seu relato, “vem o véio das lojas brancas, careca como uma macaúba cagada por uma mula, vestido como sempre de verde e amarelo e parecendo um palhaço de circo. Ele anda meio por baixo com a justiça, devido às muitas complicações de seu modo de operar. Queimaram até a estátua da liberdade de plástico que ele ergueu perto de Araraquara em frente à sua loja, na Rodovia Washington Luís, para dar a impressão aos consumidores de que estavam em Miami. Neste país, tudo é fake. Ahahah”.

“Nos primeiros tempos, a comissão de frente era composta por Alexandre Frota outros elementos descompostos oriundos de suas atividades profissionais no mundo da pornografia, real ou política, como o João Dória. Agora já não está mais tão divertido”, observou Damião. “Seguem os milicos que servem no Planalto, liderados pelo General Cassandro e demais oficiais generais, além de outros superiores, como coronéis, majores, capitães e tenentes. Alguns sargentos e até mesmo uns poucos cabos e soldados vêm por último”.
Ao se aproximar a fanfarra, Cosme e Damião se aperceberam dos acordes de Um, Dois, Feijão com Arroz, cantados por todos os participantes do desfile, em plenos pulmões:

“Um, dois
Feijão com arroz
Três, quatro,
Feijão no prato
Cinco, seis,
Falar em inglês
Sete, oito
Comer biscoito
Nove, dez
Comer pastéis”.

Damião e Cosme contorciam as expressões faciais para não caírem em gargalhadas, quando a fanfarra passou a soar o Marcha Soldado:

“Marcha soldado
Cabeça de papel
Quem não marchar direito
Vai preso pro quartel
O quartel pegou fogo
São Francisco deu sinal
Acode, acode, acode
A Bandeira nacional…”

Ao término da parada cívica militar, ao som de Caminhando, de Geraldo Vandré, cantado pela multidão, o recruta Aparecido de Jesus foi convidado a novamente acompanhar o presidente até o seu gabinete, onde aguardaram a chegada do General Cassandro. “Taifeiro, sirva aí ao praça um suco de Ivermectina, este formidável vermífugo que, além de acabar com os parasitas, mata também o vírus do COVID-19, como me foi assegurado por nosso aliado e líder, o grande Donald Trump, um verdadeiro luminar”.

Ao entrar o General Cassandro, o presidente a ele se dirigiu para observar: “Cassandro, infelizmente, não posso ter mais um fantasma no ministério. Aquele que temos ocupa no momento a pasta civil mais importante, aquela da Saúde. Como diz o ditado, quem não tem cão, caça com gato. Ahahah. Então, eu quero uma esfinge, sem passado, que não diga nada, salvo as frases feitas, clichês e slogans preparados pelo nosso departamento de Fake News. No mais, serve uma expressão impassível em sua estupefação constante, principalmente quando indagado pela imunda imprensa comunista de merda. Para os estudantes, professores e reitores, nenhuma audiência será concedida, nem palavra dirigida. Esta ralé de vagabundos, maconheiros e pervertidos sexuais vai deixar de ser reconhecida pelo governo, tá ok”?

“Sim, senhor presidente. Reconheço o seu formidável senso tático dentro deste difícil e desafiador quadro estratégico. E o senhor entende que o Praça Aparecido Jesus da Silva seja o elemento ideal para o posto”?
“Certamente, general. Depois, é claro, de um breve programa de treinamento com a Sara Winter, a Damares Regina e com a Regina Duarte. Não há ninguém como as mulheres para ensinar alguém a não dizer nada de relevante, a enrolar, a fraquejar e a fazer caretas. Ahahah!”

“Pois bem, Praça Aparecido Jesus da Silva, você ouviu o honroso convite de nosso amado presidente”, afirmou o general. “No posto, você terá rendimentos de cerca de R$ 40.000,00; apartamento funcional; carro com motorista; cartão de crédito para comer e comprar quase tudo o que você quiser para o seu uso pessoal; passagens aéreas, secretárias e assessores diversos, assistência médica e odontológica, dentre diversos outros benefícios. Você aceita”?

“Muitu obrigado, seo capetão, ocê mi discurpa, digo capitão, e seo generar. Mais num possu memu. Num tô preparadu. Sô inguinoranti. Tudu o qui eu quiria era um estudu, uma universidadi e um trabaio. Nu casu, acho mió eu vortá para a cochera e impiá bosta di cavalu”.
“Veja só, General Cassandro, como o povo brasileiro prefere estar na merda. O Paulo Guedes está certo”, finalizou o presidente ao dispensar o recruta.

“Fora, reco de merda do caralho”!

António Paixão on EmailAntónio Paixão on Facebook
António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.