Diálogo com o Sapo

Do tonel de vinho onde se acha recolhido em retiro, nosso poeta, António Paixão, nos envia um conto em que relata um diálogo etílico com um sapo. Teria sido um delírio?

Devo confessar que fiquei alarmado com a disseminação do CONID-19, que chegou em grande força ao Brasil e, em particular, ao Estado de São Paulo, particularmente por estar no grupo de vulneráveis. De fato, sou velhote, bebum e indisciplinado por natureza; em suma, forte um candidato a vítima. Li, em alguma publicação médica; pode ter sido no The Lancet, não me recordo bem, que o álcool neutraliza o vírus em segundos. Assim, logo tomei uma decisão memorável: faria um retiro numa grande barrica de vinho, um tonel tanto monumental quanto proporcional à minha sede. Ali, o vírus não se atreveria a me pegar e se, num arroubo de inconsequência, o fizesse, seria instantaneamente fulminado pelos santos vapores etílicos. Tudo com respaldo científico e com as bênçãos dos Céus.

Não obstante a pouca fé que tenho, optei pelo vinho tinto; pela logística, por São Roque, situada nas proximidades da cidade de São Paulo, no interior, onde sopra uma gentil brisa que afasta os maus espíritos e eflúvios melífluos. Homiziado na barrica de vinho, teria a prevenção, o antídoto e o também o alimento. Uma solução genial para uma purificação total. In vino veritas, como teria dito Virgílio. Foi Baco quem me inspirou, devo confessar, com todo o respeito aos demais deuses, todos eles igualmente verdadeiros, mas certamente menos inspirados. No primeiro momento, os proprietários da vinícola ficaram um tanto quanto estupefatos pelo pedido de uma locação de um grande tonel repleto de vinho da sua produção para a quarentena.

Exigi ainda que houvesse um outro tonel, vazio, para que eu pudesse trazer um vinho alternativo, de maneira que o vil, oportunista e covarde vírus Conid-19 não criasse resistências ao nobre e elegante produto de São Roque. Assim, eu traria vinho de uma cepa diversa, para alternar com as imersões em período integral na barrica. Teria assim, duas UTIs vinícolas da mais alta qualidade. Tudo em nome da ciência.

Quis também acesso a uma privada e a uma casa de banhos, para usá-los apenas quando necessário; uma bandeja, com encaixe, para minha máquina de escrever e celular; uma almofada flutuante com o sacrossanto emblema da Gaviões da Fiel, além um copo de madeira e um canudo ecológico. Meu respirador inalador da mais alta qualidade seria proporcionado pelos eflúvios etílicos, ao qual nenhum vírus resistiria. Pelo feito, seria também qualificado candidato ao prêmio Nobel de medicina preventiva, com méritos iguais ou superiores aos de Fleming e Porter.

Não sei bem o porquê, mas os proprietários da Vinícola Celeste acharam que minha estadia seria uma boa medida de ordem promocional e nada me quiseram cobrar. Apenas exigiram uma entrevista minha à imprensa, sempre que solicitado e estivesse em condições, ao que de pronto acedi, já que planejava estar em estado de completa embriaguez todo o tempo, devido às exigências de minhas pesquisas científicas para o afastamento do vírus. Para o tonel alternativo, pedi ao meu amigo, o Comendador António dos Ramos, que doasse para a nobre causa do combate à pandemia, umas quatro barricas de Quinta do Caleiro, um excelente Douro de sua importação exclusiva, com o qual já me habituara a lutar em prol da saúde pública, dos amores e dos bons princípios. Para minha felicidade, fui atendido.

Desloquei-me a São Roque apenas com uma troca de roupas e uma escova de dentes. Dentifrício e sabonete tornaram-se totalmente dispensáveis na minha UTI etílica. Acomodei-me muito bem na barrica. Nu, naturalmente. O vinho vinha até o pescoço, comigo de pé. Tive logo que pedir uma banqueta alta para poder sentar-me e também repousar nos momentos de maior felicidade além de dormir, sempre que necessário. Meus amáveis hospedeiros logo atenderam às minhas necessidades e me deixaram em paz, não sem antes encherem o tonel número 2, para minhas alternâncias, sempre que recomendáveis. Devo aqui deixar registrado o prazeroso contato do vinho com minhas partes íntimas, uma sensação nova para mim.

E assim se passaram os dias, com um duro trabalho imunológico e científico. Eu bebia vinho pela manhã, à tarde e também à noite. Nos intervalos respectivos, não me esquecia da saúde e bebia mais vinho; às vezes com o copo, alternando com o canudo ou simplesmente enchendo a boca. Pela manhã e à noite, também fazia gargarejos. Ninguém me incomodava. Não tinha mulher para dar satisfação, grazie a Dio. Estava feliz pois, como escreveu o grande poeta, Johann Wolfgang von Goethe, “o vinho alegra o coração do homem e a alegria é a mãe de todas as virtudes”. Meu sono era pacífico, sereno e tranquilo. Caso acordasse, mais uns goles me transportavam de regresso ao sereno mundo de Hipnos.

E foi assim que, num determinado momento que não sei precisar, já que no tonel todas horas eram iguais, apareceu um sapo cururu de consideráveis proporções, o qual se alojou com enorme desfaçatez em minha bandeja multiuso, ao lado da máquina de escrever Olivetti Lettera 82 e do meu celular Xiaomin. “Boa tarde, disse-me ele”, para minha estupefação. Achei, naturalmente, que eu estivesse padecendo de sérios efeitos colaterais de meu tratamento antiviral de choque. No entanto, acostumado aos efeitos colaterais de toda uma vida pude apenas comentar inicialmente “per Bacco!”.

“Olá, sapo”, continuei após o trauma inicial. “Quero que saiba que você está sendo muito impertinente ao entrar desconvidado em minha unidade etílica de terapia intensiva para o combate viral. Ademais, sapo não fala, quanto muito, coacha. Você não é bem-vindo! Você não seria o fantasma daquele outro infame batráquio que esteve enterrado por muitos anos no solo sagrado do Parque São Jorge, trazendo dissabores diversos para a Fiel?”

“Não”, respondeu-me rapidamente o sapo cururu. “Eu também sou corintiano e, apesar desta nobre condição, nada tenho a ver com aquele outro batráquio, barbudo, que esteve na prisão como resultado de uma iníqua perseguição movida no bojo de uma guerra híbrida, na qual foi hostilizado com ações bárbaras e cruéis, pelas mesmas forças das trevas das quais ora procuro me esconder”.
Muito contrariado, o sapo cururu continuou: “meu caro, saiba que, apesar das aparências, eu não sou sapo, eu estou sapo, transitoriamente, espero, já que este foi o único meio de me alienar das tragédias que se abateram sobre o Brasil e seu povo, por intermédio de um grande diabo, o presidente Bolsonaro, que incorpora todos os quatro cavaleiros do apocalipse, para além de ser a Besta da ignorância. Você mesmo está cá recolhido por opção própria, certamente inconformado com tudo o que está a ocorrer aí fora. Antes de me expelir de seu tonel, ouça ao menos a minha história”.

“Pois bem, sapo cururu, por uma questão de justiça e de equidade, que tem sido negada aos sapos humanoides, não darei um veredito final a respeito desta insólita situação e de sua triste figura sem ouvir as suas razões. Que tal por começar com uma apresentação pessoal?”, respondi-lhe sem muita paciência, tomando logo um generoso copo de meu elixir para neutralizar eventuais toxinas do batráquio.

Pois o sapo encheu o papo de ar e começou a expor. “Antes de ser transformado em sapo eu fui um professor universitário e realizava pesquisas na universidade federal, para além de dar aulas de licenciatura e pós-graduação, em regime integral. Era uma vida difícil. Depois de todos os meus estudos e concursos, tinha uma rotina dura de trabalho, pois devia formatar a grade curricular, preparar minhas aulas, dar minhas lições, corrigir provas, orientar trabalhos diversos, além de conduzir os meus próprios, para as publicações científicas e seminários. Para tanto, recebia muito menos da metade da remuneração de um juiz, de um auditor fiscal ou de um embaixador, com o triplo do trabalho. No entanto, levava minha rotina profissional avante. Nós, os professores, somos muito acomodados”.

“De fato”, não pude deixar de concordar, ao que o sapo se fez mais confortável sobre minha máquina de escrever e retomou sua exposição. “Tudo andava razoavelmente bem, depois de alguns governos que privilegiaram a educação em nosso país, quando as coisas passaram a andar mal. Primeiramente, houve um golpe de Estado em que a presidenta legitimamente eleita foi deposta como resultado de uma guerra híbrida coordenada por uma potência imperialista estrangeira e executada por seus agentes locais. Em seguida, a situação se deteriorou ainda mais gravemente, com a eleição das forças do mal para a presidência da República. Em sua agenda de servilismo à dominação estrangeira não estava apenas o alinhamento político e diplomático e a subserviência econômica, mas também o ocaso da educação interna, pelo qual se pretende acabar com a formação de lideranças nacionais e com o futuro da Nação”.

Tomando fôlego, o sapo continuou: “para ministro da economia, foi escolhido um representante das finanças internacionais e do capital rentista, com o fito de promover o neoliberalismo e matar o povo de fome; para ministro da justiça, foi nomeado o inquisidor mor da guerra híbrida, instruído por Washington; para ministro das relações exteriores, um servil pateta de total indigência mental; para ministra da mulher, da família e dos direitos humanas, uma pastora apedeuta que tem inspiradores encontros de primeiro grau em cima da goiabeira; para ministro do meio-ambiente, um piromaníaco florestal; e, para ministro da educação, um monstro ignorante, debochado, mal-intencionado e decidido a acabar com a qualificação futura da Nação”.

“Pasme só o senhor”, continuou o sapo “que este ministro da educação logo indispôs-se com as universidades públicas, chamando-as de centros de balbúrdia dedicados à plantação de maconha e a práticas sexuais pecaminosas. Não bastasse isso, voltou-se contra os estudantes brasileiros, segundo ele uns inúteis que deveriam estar entregando merendas com bicicletas. Pretendeu acabar com a educação presencial e pública, pois a iniciativa privada faz tudo melhor e que o vagabundo do favelado deveria trabalhar para poder pagá-la. Por outro lado, não conseguia se expressar na língua pátria por escrito ou verbalmente, por achá-la um idioma de segunda linha. Esqueceu-se, contudo, de aprender um outro idioma. Acresce que os seus constantes delírios mentais o levaram a confusões frequentes como a de chamar o literato checo Franz Kafka de Kafta, o conhecido prato árabe”.

“Pois bem”, acrescentou o sapo com crescente veemência, “este terrorista da educação começou por cortar as verbas educacionais e a privilegiar a educação militar onde, segundo o seu presidente, deveria ser feito o culto aos torturadores diversos, à destruição das florestas, à queima de livros e à discriminação de gênero e de raças. Ademais, seriam ministrados cursos de perseguição aos esquerdopatas em geral e aos petralhas, em particular. Acresce que tais entidades deveriam liderar a negação dos direitos humanos, a eliminação dos habitantes originais do Brasil e a exaltação de visões bíblicas amalucadas, do ocultismo e da disciplina do terraplanismo. Por último, pretendeu o ministro acabar com a pesquisa científica no Brasil, porque tudo o que presta já teria sido feito nos Estados Unidos da América”.

Agora já vertendo espuma pela boca, o batráquio ficou exaltado, ao que eu lhe dei vinho para beber com o meu canudo ecológico. Depois de ter engolido quase meio tonel do precioso líquido, para meu profundo horror, continuou o sapo: “Em seu processo destrutivo da educação brasileira, o diabólico ministro está em processo de perseguição aos estudantes, aos reitores e também aos professores, categoria em que me encontro. De maneira a me preservar para o reerguimento da Nação, ergui minhas mãos aos céus em direção à constelação Ursa Maior, configuração post-mortem de Macunaíma, o herói brasileiro, pedindo ajuda. Fui, então, atendido por Manape, seu irmão, o grande pajé negro. Foi ele quem me propôs a transformação emergencial e transitória num insuspeitável batráquio. Acedi e aqui estou”.

Comovido pela situação do meu pobre irmão batráquio, não me contive e disse “tendo em vista a evidente justiça de sua causa e o risco iminente que corre, inclusive de vida, delibero conceder-lhe o asilo político em meus tonéis de vinho, com direito ao consumo ilimitado, enquanto durar a quarentena. Queira, por conseguinte, se acomodar sobre a almofada da festejada Gaviões da Fiel, entidade humanista, digna e solidária, a qual luta para amenizar o sofrimento do povo brasileiro, promovendo a alegria do ser corintiano. Cumpra-se. Custas por conta da viúva”.
Quase ia me esquecendo, mas lembrei-me de dizê-lo em tempo:
“Mas não vá fazer caca dentro do tonel…”

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.