O terraplanista Ribbentrop dos Trópicos

Do retiro onde se encontra, o escritor maldito, António Paixão, nos envia a seguinte crônica, sobre o desastre na condução da atual política externa do Brasil.

São Paulo, 23 de março de 2020.

 

No desgoverno do Capitão Bolsonaro, muitos são os tristes personagens desqualificados, despreparados, imorais, inconscientes, insensíveis, ignorantes e incompetentes. É uma verdadeira constelação da mediocridade da escória em putrefação ao céu aberto. Uma perfeita cambada de biltres, velhacos e canalhas. No entanto, as referências negativas a esta trôpega gente são, às vezes, muito injustas. Refiro-me particularmente ao caso do chanceler bolsonariano, Ernesto Araújo, um mentecapto de evidência solar. Chamam-no, País afora, de “uma cavalgadura”. Trata-se de epíteto iniquo, imerecido e esconso, que atinge a honradez e a boa fama dos equinos, animais que têm uma longa história de nobres serviços à Humanidade.

De fato, não foi sem sentido que os equinos se tornaram o símbolo, da glória, do serviço, da humildade, do sofrimento e da paz. Segundo o Velho Testamento, o Profeta Elias ascendeu aos céus por meio de cavalos de fogo. Não foi um equino que transportou Jesus e Maria? Não foram eles que acompanharam os homens em todas as suas aventuras e desventuras, portando o bem, mas também as armas do mal, tanto na guerra como na paz? Foram os equinos, através dos séculos, os instrumentos amorais de seus senhores. Puxaram os canhões, da mesma forma que os vagões das ambulâncias e jazeram nos campos de batalha das guerras que não começaram. Para maior horror civilizatório, viraram até alimento de homens ingratos, maus e insensíveis.

Ao contrário da história humana, aquela dos equinos não traz nenhum monstro criminoso, não havendo equivalentes como um cavalo Hitler, um jumento Franco, um burro Mosley ou nem menos uma mula Mussolini. São desconhecidos equinos torturadores ou corruptos. São eles, ademais, sujeitos passivos de uma ditadura interminável, aquela do homem, e não oprimem a nenhuma espécie. São vegetarianos e não se alimentam de carcaças de animais, ao contrário da raça humana. Respeitam o meio ambiente, contribuem para uma economia auto sustentável e têm uma natureza dócil e benigna.

Na mitologia grega, Pégaso é um cavalo alado, símbolo da imortalidade. As inúmeras qualidades dos equinos foram apreciadas por figuras humanas de grande importância, que os respeitavam e admiravam. Bucéfalo foi o cavalo de guerra de Alexandre, o Grande, forte como um touro. Átila, o huno, dizia que onde pisasse seu cavalo, Othar, não mais cresceria a grama. A metáfora foi imerecida, pois o herbicida, no caso, era o próprio Átila e não o pobre Othar. O grande Júlio César amava tanto o seu Asturcone, que dele mandou erigir uma estátua em frente ao templo de Vênus Genetrix. Até mesmo Calígula, um dos piores exemplos da espécie humana, nomeou cônsul o seu cavalo Incitatus, impetuoso em latim, pelo qual nutria grande admiração. Shabdiz, meia-noite, era o cavalo do rei persa, Parviz. Conhecido como o mais veloz de sua época, teve a missão de transportar a noiva do rei para o casamento.

O cavalo Babieca foi a montaria do cruzado campeão de Castela, El Cid, que viveu no século XI e combateu aos mouros.  Coube a Babieca desfilar com o corpo morto do nobre cavaleiro para impressionar os inimigos em campo de batalha. Marsala, o cavalo do herói dos dois mundos, Giuseppe Garibaldi, tanto o inspirou que levou o Generale a fundar uma das primeiras associações de proteção aos animais. Marengo, o cavalo branco de Napoleão, era senhor da afeição do Empereur a ponto de ter sido feito prisioneiro pelos ingleses após Waterloo, tendo tristemente morrido no exílio, na Inglaterra (quelle horreur), longe de Santa Helena, onde faleceu o estadista francês.

No Brasil, Dom Pedro I proclamou a independência do Brasil, às margens do riacho Ipiranga, em São Paulo, montado no Cavalo Baio no. 6, que ficou imortalizado. El Libertador, Simon Bolívar fez-se acompanhar de seu cavalo Palomo em todas as suas batalhas, a partir de 1819. Suas ferraduras encontram-se exibidas no Museu Mulaló, em Tumbo, na Colômbia. Comanche, a montaria do General Custer, sobreviveu ferido à derrota de Little Big Horn. Recuperado, nunca mais foi montado e tem o corpo preservado no Museu de História Natural da Universidade de Kansas, nos Estados Unidos da América.

Por sua vez, tanto a literatura e como as artes em geral têm incontáveis representações das vicissitudes pelas quais passaram os equinos através dos séculos. O Cavalo de Tróia, por exemplo, foi mencionado pela primeira vez na obra clássica, Odisseia, de Homero, em VIII A.C.  O grande Dante Alighieri, em A Divina Comédia, muito bem evocou (Canto XXVI, 33) o episódio bíblico descrito aqui acima da seguinte forma: “ E qual colui vide ’l carro d’Elia al dipartire, quando i cavalli al cielo erti levorsi…”

Shakespeare, de outro lado, imortalizou a necessidade humana do apoio equino, assim como a importância do cavalo, quando, no ato V de Richard III, colocou naquele soberano a voz “a horse, a horse, my kingdom for a horse”. Miguel de Cervantes criou em Don Quixote de la Mancha a figura simpática do cavalo Rocinante, a montaria do cavaleiro da triste figura. Nas artes plásticas, Pablo Picasso retratou o sofrimento geral, mas também aquele de um cavalo estupefato pela crueldade humana, em sua obra extraordinária, o mural Guernica, no qual denuncia as barbaridades fascistas.

É evidente que Ernesto Araújo não estaria à altura de desempenhar as funções de nenhum dos equinos acima mencionados, por suas incapacitantes limitações mentais, funcionais e morais. Embora resulte clara a injustiça de atribuir ao infame chanceler do execrável Bolsonaro, a alcunha de cavalgadura, apenas em respeito aos equinos, não se pode ignorar suas ignominiosas ações. Essas comprometeram a própria independência do Brasil, assegurada há 200 anos, contrariaram os interesses diversos do povo brasileiro, políticos e comerciais, e sujeitaram o País aos ditames de uma melíflua potência imperial.

Ademais, sua política externa alienou e isolou o Brasil na comunidade das nações, rompendo laços tradicionais de amizade, cooperação e relações econômicas, comerciais e políticas, tanto no âmbito regional como no multilateral.  Ela procura ainda encobrir os inúmeros desatinos praticados pelo governo do qual faz parte, destruindo um trabalho de gerações de diplomatas brasileiros. Tudo isso inspirado por propósitos escusos e guiado por ideologias espúrias advindas dos piores momentos das trevas históricas.

Pelo malefício que tem causado ao País, não se pode permitir que a figura de Ernesto Araújo simplesmente vá para o monte de lixo da história. Seus vis desmandos terão de ser lembrados para que não sejam repetidos no futuro e suas ações deverão ser avaliadas pelos tribunais competentes. Para aqueles inconformados com a perda de um epíteto para o medonho, abominável e hediondo chanceler, é de se lembrar que a língua portuguesa é riquíssima em adjetivos mais apropriados para o seu caso a tal ponto de poder fornecer entradas suficientes para um alentado Glossário da Cretinice, em sua homenagem.

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António Paixão
ESCRITOR
António Paixão é um desgraçado jornalista permanentemente desempregado. É um velhote neurastênico, comunista de carteirinha, mas com uma cultura eclética e pouca disposição para brigar, porque procura, mas sem sucesso, ser simpático. Como todo jornalista, António Paixão não funciona sem álcool, pois é uma pessoa pouco confiável por muitas razões, dentre as quais por ser do sexo masculino, carioca e torcedor do Botafogo. Em São Paulo, torce pelo Corinthians e, em Portugal, pelo Vila Real. Julguem.